Classe A, mesmo com menos domicílios, gasta mais que o dobro das famílias de baixa renda com a bebida.
- A classe A deve gastar 2,1 vezes mais com a bebida em 2026 do que as classes D e E, mesmo com 2,6 vezes menos domicílios.
- O café deve movimentar R$ 516,4 milhões na RMC, o que representa crescimento de 9,4% em relação ao ano anterior.
- O levantamento do IPC Maps para a RMC mostra que enquanto a classe C cresce pressionada pelo custo de vida, a classe A também avança, impulsionada por oportunidades concentradas no topo da renda.
Uma pesquisa do IPC Maps aponta que o consumo de café expõe a desigualdade de renda na Região Metropolitana de Campinas (RMC). Mesmo com 2,6 vezes menos domicílios do que as classes D e E, a classe A deve gastar 2,1 vezes mais com a bebida em 2026.
No total, o café, paixão nacional celebrada no último domingo (24), deve movimentar R$ 516,4 milhões na RMC, o que representa crescimento de 9,4% em relação ao ano anterior.
Os dados consideram tanto o consumo dentro de casa, como pó e cápsulas, quanto os gastos com “cafezinhos” fora do domicílio.
Entre as faixas de renda, a classe A é a que apresenta o maior avanço proporcional, com aumento de 24,9% nas despesas com café em relação a 2025.
Segundo o economista Eli Borochovicius, da PUC-Campinas, classes mais altas consomem cafés especiais, cápsulas e experiências premium, mesmo com preços mais altos porque representa uma fração pequena do orçamento dessas famílias.
“Os cafés gourmet, orgânicos, sustentáveis e as experiências ligadas ao consumo, como cafeterias ou máquinas de cápsulas, não deixaram de ser parte do cotidiano dos usuários em função do aumento dos preços”, explica.

‘Produto básico’
O consumo de café pelas famílias das classes D e E, embora inferior ao da fatia mais rica, também apresenta avanço de 11,3% em relação ao ano anterior. E isso em um cenário de aumento dos custos do produto.
O economista esclarece que apesar de parecer paradoxal, já que o comprometimento de renda dificulta o pagamento de contas essenciais no orçamento doméstico, o café é tratado como um produto básico, e sua retirada do cardápio é quase “inegociável” para algumas famílias.
“O café é símbolo de convivência e de hábito enraizado na cultura brasileira. Em momentos de restrição orçamentária, produtos com valor cultural forte tendem a ser preservados”, afirma Eli.
Consumo na Classe C
Já a classe C, que concentra a maior parte dos domicílios da região (52,1%), representa o maior volume total de gastos, somando R$ 223,1 milhões. Apesar disso, o grupo registra crescimento mais modesto, de 2,9% no período.
“A classe C representa a maior fatia do mercado, então o seu crescimento percentual tende a ser menor já que pequenos aumentos absolutos se diluem quando comparados ao total da base”, detalha o economista.
O professor da PUC-Campinas reforça ainda que as famílias da classe C apresentam renda mais limitada em relação às classes A e B, justificando a redução de espaço para ampliação do consumo per capita do café.
“Por ser um produto básico no orçamento das famílias de classe C, há menos margem para expansão”, complementa Eli.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2026/n/6/hlLqgvSlWtzqpwWDjSog/imagens-g1-2026-05-21t104903.003.png)
Imagem ilustrativa de xícara com café e grãos de café — Foto: reprodução
Consumo das famílias
O levantamento do IPC Maps para a RMC mostra que enquanto a classe C cresce pressionada pelo custo de vida, a classe A também avança, impulsionada por oportunidades concentradas no topo da renda.
Segundo o levantamento, a classe B perdeu representatividade na RMC, com o total de domicílios dessa faixa de renda caindo de 30,9% para 27,4%.
De acordo com o economista Eli Borochovicius, da PUC-Campinas, essa variação é explicada por um cenário marcado pela pressão do custo de vida e da desigualdade na evolução da renda.
Com 52,1% do total de famílias, a classe C continua sendo a predominante na RMC, com renda domiciliar média entre R$ 2,5 mil e R$ 4,5 mil.
Borochovicius aponta que o crescimento desse grupo está diretamente relacionado à dificuldade das famílias em acompanhar o aumento dos preços, especialmente de itens essenciais como alimentos, combustíveis e medicamentos, além do impacto dos juros mais altos.
O economista pontua que muitos trabalhadores até mantiveram emprego e renda, mas não conseguiram ampliar o poder de compra na mesma proporção da inflação.
Ele explica que o perfil econômico da região de Campinas é fortemente baseado no setor de serviços, como educação, saúde, comércio, tecnologia e logística.
Embora esses segmentos gerem grande número de empregos formais, a remuneração média é considerada relativamente baixa, o que limita o avanço da renda, especialmente diante de um custo de vida mais alto do que em cidades menores do interior.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2025/M/c/4RYfZ3TjAS5x4gKbC9ag/drone-campinas-centro-1.jpg)
Imagem aérea de Campinas na região do centro — Foto: Reprodução/EPTV
E a classe A?
Os dados do IPC Maps mostram uma ampliação de domicílios de famílias da chamada classe A, cujo orçamento mensal é superior a R$ 28,3 mil.
“Esse crescimento indica que uma parcela mais restrita da população conseguiu aumentar renda e patrimônio, possivelmente impulsionada por oportunidades em setores de maior valor agregado, como tecnologia, saúde privada e cargos de liderança”, explica o economista.
Para Eli Borochovicius, as variações dos números de domicílios entre essas classes sociais são explicáveis dentro do atual contexto econômico, em que a base da população enfrenta maior dificuldade para avançar, enquanto o topo consegue se beneficiar de oportunidades mais concentradas.
Variações nas classes sociais
Segundo o IPC Maps, o total de domicílios na Região Metropolitana de Campinas em 2026 é de 1.196.313, o que representa um aumento de 1% em relação ao ano anterior (1.183.777).
Veja as variações do total de domicílios:
- Classe A: saiu de 56.921 (2025) para 66.930 domicílios em 2026, o que representa 17,5%;
- Classe B: reduziu de 365.200 (2025) para 328.295 domicílios em 2026, e a participação nos domicílios urbanos caiu de 30,9% para 27,4%;
- Classe C: tem o maior número absoluto de domicílios urbanos. Teve crescimento de 587.070 para 623.097 domicílios em um ano (6,1%), e a participação no percentual no total urbano cresceu de 49,6% para 52,1%.
- Classe D/E: aumentou de 174.586 para 177.991 domicílios urbanos, e a participação percentual cresceu de 14,7% para 14,9%.
Classe econômica pelo IPC-Maps – renda média domiciliar/mês
- A – R$ 28.331,76
- B1 – R$ 13.636,18
- B2 – R$ 7.874,72
- C1 – R$ 4.526,88
- C2 – R$ 2.648,30
- D/E – R$ 1.177,55
Potencial de consumo

A classe A não é o grupo com a maior fatia do consumo projetado na RMC, mas é o que teve o maior salto na comparação com os gastos de 2025 – alta de 28,8%. A classe B segue sendo responsável pela maior movimentação financeira (R$ 80,7 bilhões).
A classe C, que havia registrado aumento expressivo em 2025, teve um ligeiro crescimento no valor total (2,5%), mas com o aumento do número de domicílios, o potencial de consumo recuou na comparação com 2025.
Moradia, alimentação, veículos próprios
Considerando toda a RMC, o potencial de consumo urbano segundo o IPC Maps aumentou 11,7% entre 2025 e 2026, pulando de R$ 172,1 bilhões para R$ 192,4 bilhões.
Entre as categorias analisadas, moradia, veículo próprio e alimentação (no domicílio e fora de casa) concentram os maiores consumos das famílias.
Veja os 10 mais:
- Habitação: R$ 52.590.633.348
- Veículo próprio: R$ 21.516.538.698
- Alimentação no domicílio: R$ 15.368.381.444
- Materiais de construção: R$ 7.910.145.282
- Plano de saúde/Tratamento médico e dentário: R$ 7.672.552.819
- Alimentação fora do domicílio: R$ 7.669.303.053
- Educação: R$ 6.696.727.460
- Medicamentos: R$ 5.822.989.025
- Higiene e Cuidados pessoais: R$ 5.309.373.652
- Vestuário confeccionado: R$ 3.898.631.181
Publicado por: Fernando Evans, g1 Campinas e Região
Fotos: Canva, Divulgação G1, IPC Maps





