Dia de Campo capacita indígenas e fortalece produção de café robusta amazônico em Roraima

Em Pacaraima, iniciativa reuniu indígenas, produtores e técnicos para capacitação e troca de experiências sobre o cultivo do café

Mais de 100 produtores, pesquisadores, técnicos e indígenas participaram, na última semana, de um Dia de Campo voltado ao cultivo do café robusta amazônico na comunidade Kauwê, localizada na Terra Indígena Raposa Serra do Sol, em Pacaraima. A iniciativa foi promovida pela Embrapa Roraima, com apoio do Sebrae Roraima e do Sistema Faerr/Senar, e teve como foco a difusão de tecnologias e boas práticas para fortalecer a produção sustentável da cultura no estado.

A programação foi conduzida pelos engenheiros agrônomos João Maria Diocleciano, da Embrapa Rondônia, e Poliana Perrut de Lima, consultora do Senar Rondônia. Durante a capacitação, os participantes receberam orientações sobre todas as etapas do cultivo, desde a escolha e preparação da área até o manejo da lavoura, controle de pragas, colheita, torra e produção de cafés especiais. A etapa prática sobre cafés especiais foi realizada no dia seguinte, em uma cafeteria de Boa Vista.

Segundo Poliana Perrut de Lima, a expansão da cafeicultura amazônica encontra um mercado favorável e demanda crescente.

“Há espaço e mercado para todos. Rondônia recebe demanda três vezes maior do que consegue produzir e a ideia é espalhar conhecimento para expandir este produto e conquistar diferentes lugares do mundo”, afirmou.

Desenvolvido pela Embrapa a partir de experiências em Rondônia, o café robusta amazônico é o único café da espécie canéfora cultivado em baixa altitude a conquistar premiações internacionais. A variedade já é produzida por indígenas da etnia Suruí, em Rondônia, e agora avança em Roraima.

Durante a visita ao campo experimental da Embrapa Roraima, João Maria Diocleciano apresentou os resultados obtidos com cerca de 50 clones da cultura em fase de avaliação. Conforme o pesquisador, os materiais vêm demonstrando bom desempenho agronômico, com resistência e produtividade, o que reforça o potencial do estado para se consolidar como novo polo produtor.

“Os cafés estão se desenvolvendo bem, apresentando boas resistências e produtividade, e Roraima tem tudo para se transformar em um polo de robustas amazônicos. É importante que os agricultores indígenas vejam de perto como se trabalha essa cultura para também poder tirar o proveito máximo”, destacou.

O crescimento da cafeicultura também é percebido pelos órgãos de assistência técnica. De acordo com o coordenador regional do Instituto de Assistência Técnica e Extensão Rural de Roraima (Iater), Eliander Pimentel Trajano, o número de produtores praticamente triplicou nos últimos dois anos.

“Há poucos anos, chegar muda de qualidade era o maior problema. Hoje nós já temos fornecedores e a Embrapa testando os clones para o mercado”, ressaltou.

Na comunidade Kauwê, a produtora Ana Karoliny Siqueira Calleri destacou que a cafeicultura tem promovido mudanças econômicas e sociais, sem abrir mão da identidade cultural indígena.

“Nós estamos iniciando os nossos passos na cafeicultura, mas a minha vida já foi transformada por meio do café. Conseguimos trazer nossa cultura e saberes ancestrais para o plantio e desenvolver as comunidades de forma sustentável, sem agredir o meio ambiente. Nós conseguimos trazer a nossa cultura para dentro do nosso plantio, trazer os nossos saberes ancestrais dos nossos avós, dos nossos pais, colocar ali dentro e desenvolver as comunidades indígenas. E o Kawuê tem sido um exemplo disso. A gente consegue transformar a nossa comunidade em um exemplo para outras comunidades, tanto no projeto do café quanto no turismo que é possível agregar”, disse.

O chefe-geral da Embrapa Roraima, Miguel Amador de Moura Neto, ressaltou que a realização do Dia de Campo é resultado de um trabalho iniciado em 2013, a partir dos Fóruns da Agricultura Familiar, desenvolvidos em parceria com diversas instituições.

“A Embrapa tem por objetivo entregar valor para a sociedade. É  gratificante ver isso em um dia de campo como este”, afirmou.

Produtores interessados em iniciar ou ampliar o cultivo do café robusta amazônico podem procurar o Iater para obter orientações técnicas e informações sobre o desenvolvimento da cultura nas diferentes regiões do estado.

Publicado por: Jeovana Reis / Folha BV