Chuvas travam colheita no Sul de Minas, derrubam qualidade do café e elevam custos para produtores

Sequência de precipitações em pleno inverno paralisa máquinas, dificulta a secagem dos grãos, aumenta o risco de fermentação e já provoca perdas de qualidade e produtividade na principal região cafeeira do país. Meteorologistas indicam melhora do tempo apenas a partir do fim de semana

A colheita da safra 2026 de café enfrenta um dos momentos mais desafiadores no Sul de Minas Gerais. Em plena época de retirada dos grãos, as chuvas frequentes vêm interrompendo os trabalhos nas lavouras, comprometendo a secagem do café e elevando o risco de perdas tanto na qualidade quanto na rentabilidade da produção.

O problema se concentra principalmente nas áreas de colheita mecanizada, predominantes na região. Com o solo encharcado, máquinas deixam de operar e produtores são obrigados a interromper as atividades à espera de condições mais favoráveis.

Segundo o administrador do Centro de Qualidade do Café, consultor de mercado, produtor e comerciante Thiers Pereira Viana, a situação se agravou nas últimas duas semanas.

“O Sul de Minas realmente chegou a paralisar a colheita. Como a maior parte é mecanizada, a máquina começa a patinar e não consegue trabalhar. Além disso, devido ao grande volume de café nesta safra, muito grão precisa permanecer no terreiro antes de seguir para os secadores. Com a chuva, esse café perde qualidade.”

Além da interrupção das operações, o excesso de umidade cria um efeito em cadeia dentro das propriedades. O café permanece mais tempo nos terreiros, retardando a secagem e favorecendo processos de fermentação indesejados.

“Teve momentos em que o produtor colocava o café no terreiro e nem conseguia enxugar o mel do café. O grão fica mais tempo exposto, perde coloração e alguns lotes chegam a apresentar bebida riada ou até rio, comprometendo significativamente a qualidade”, afirma Viana.

Umidade favorece defeitos 

O impacto vai muito além do atraso na colheita. Segundo Viana, a combinação entre excesso de umidade no campo e dificuldades na pós-colheita favorece o aparecimento de diversos defeitos físicos e sensoriais.

“O café pode sofrer fermentação, aparecer grão paquetado, grão fermentado, café ardido e até grãos pretos. Tudo isso reduz a qualidade final da bebida.”

Nos terreiros, o risco aumenta conforme os dias passam. “Se o produtor não consegue virar esse café constantemente, ele pode mofar, formar um líquido escuro e até apresentar mau cheiro.”

Outro fator preocupa os produtores: a maturação desuniforme observada nesta safra faz com que muitos frutos secos permaneçam nas plantas ao lado de frutos verdes e maduros. Com a umidade constante, esses grãos começam a deteriorar ainda no pé.

Café no chão aumenta prejuízos

As chuvas também aceleram a queda natural dos frutos. Mesmo precipitações moderadas favorecem o desprendimento dos grãos maduros, enquanto temporais e episódios de granizo intensificam as perdas.

Segundo Viana, parte desse café ainda pode ser aproveitada durante a varrição, mas nem tudo é recuperado.

“Calculamos uma perda entre 20% e 30% desse café que cai no chão. Parte apodrece ou se mistura à terra e deixa de ser aproveitada.”

A situação também preocupa o supervisor do programa de Assistência Técnica e Gerencial (ATeG) Café, do Sistema Faemg Senar, Guilherme Ferreira Marques.

Segundo ele, em algumas propriedades já há entre 30% e 40% dos frutos no solo antes mesmo da conclusão da colheita.

“O produtor precisa retirar primeiro esse café do chão antes de entrar com a máquina. Caso contrário, a máquina enterra esses grãos no solo molhado. Depois ele ainda terá que fazer uma nova varrição quando o restante do café cair. Ou seja, o trabalho praticamente dobra.”

Além do aumento dos custos operacionais, o café que estava no pé acaba se misturando aos frutos já deteriorados no solo.

“Esse café de melhor qualidade acaba sendo misturado com grãos que já estavam no chão há mais tempo. O produtor perde na qualidade da bebida e também no custo final da saca.”

Secagem se torna um dos maiores desafios

Os prejuízos também atingem quem não dispõe de estrutura de secagem mecânica.
Marques explica que boa parte dos produtores depende dos terreiros, tornando-se ainda mais vulnerável às condições climáticas.

“Os grãos ficam molhados, atrasam a secagem e passam a sofrer ataque de fungos, deteriorando o fruto. Isso impacta diretamente a qualidade da bebida.”

Segundo ele, embora ocorram chuvas esporádicas durante o inverno, a frequência registrada nesta safra foge ao padrão climático.

“É um ano atípico. Normalmente essas chuvas são mais espaçadas ou nem acontecem. Neste ano elas têm dificultado bastante a colheita.”
Ao mesmo tempo em que beneficia parcialmente as lavouras ao reduzir o estresse hídrico típico do inverno, o excesso de umidade pode provocar floradas precoces.

“O problema é que essas flores podem abrir muito cedo e não apresentar bom pegamento. Além disso, teremos várias floradas ao longo do ciclo, o que aumenta a desuniformidade da maturação na próxima safra.”

Tempo firme abre janela para retomada da colheita 

Apesar dos prejuízos registrados nos últimos dias, a previsão do tempo traz uma perspectiva mais favorável para os cafeicultores do Sul de Minas. Segundo a meteorologista Amanda Balbino, da Amper Meteorologia, as chuvas perdem força a partir deste sábado (27), abrindo uma importante janela de tempo firme para o avanço da colheita.

“Não temos chuva significativa prevista para os próximos dias. Pode ocorrer alguma precipitação muito localizada no Espírito Santo, Rio de Janeiro e leste de Minas Gerais, mas com volumes inferiores a cinco milímetros”, afirma.

Com o retorno do tempo seco, a tendência é de aumento da presença de sol e elevação gradual das temperaturas durante as tardes, criando condições mais favoráveis para a secagem dos grãos e a retomada das operações nas lavouras. Ainda que a melhora permita acelerar a colheita, os prejuízos provocados pelas chuvas persistentes nas últimas semanas já devem refletir na qualidade de parte dos lotes e nos custos de produção da safra.

Publicado por: Andréia Marques / Notícias Agrícolas