Uma espécie rara na cafeicultura brasileira atual, Coffea liberica, conhecida no nordeste paraense como “beirão”, foi identificada em quintais agroflorestais de Irituia. O registro integra os resultados do projeto Café Ancestral Agroecológico no Nordeste Paraense, que une pesquisa botânica, memória das famílias agricultoras e práticas de manejo para compreender e valorizar cafeeiros conservados por gerações na região do Alto Rio Guamá.
O levantamento analisou 57 exemplares de café em oito propriedades de cinco municípios: Irituia, São Domingos do Capim, Ourém, Capitão Poço e São Miguel do Guamá. A equipe confirmou duas espécies: Coffea arabica, conhecida localmente como “pretinho” e “moca”, e Coffea liberica, chamada de “beirão”.
A presença do “beirão” é um dos achados de maior interesse científico e ocorre às vésperas do marco do tricentenário na entrada do café no Brasil, ocorrida com sementes vindas da Guiana Francesa para Belém, em 1727. A espécie tem pouca expressão na cafeicultura brasileira atual e não há muita informação sobre cultivo na região norte do país nem da entrada na região. Os pesquisadores também identificaram plantas de C. liberica com frutos vermelhos e amarelos. Já o “moca”, variedade de C. arabica, chama atenção por desenvolver uma única semente por fruto, de formato arredondado.
Memória de família e patrimônio vivo
Aos 66 anos, Agílio Cordeiro Vieiras, morador do Sítio Conceição, em Irituia, convive com o café “beirão” desde a infância. As plantas já faziam parte da propriedade familiar, onde sua mãe e sua avó as mantinham próximas à casa. Elas contavam que os cafeeiros sempre estiveram ali, embora não soubessem explicar de onde vieram as primeiras mudas.
A história se repete com as demais espécies e em outras propriedades. Em muitos casos, foram as mulheres da família que preservaram as plantas, os modos de preparo e os conhecimentos transmitidos entre gerações. Esse protagonismo revela que a conservação da diversidade agrícola também depende da memória, do trabalho e dos saberes das matriarcas da agricultura familiar.
O professor José Sebastião Romano de Oliveira, conhecido como Zezinho, da Universidade Federal Rural da Amazônia (Ufra), morador da região e entusiasta do tema, iniciou a investigação com estudantes do campus de Capitão Poço. A proposta é compreender se, além de agroecológica, essa produção pode ser reconhecida por sua trajetória histórica, como café de origem e identidade territorial. O trabalho combina relatos de moradores, ferramentas participativas, como “mapas falados” e “linhas do tempo”, junto a análises científicas.
A pesquisa reúne a Embrapa Amazônia Oriental, a Ufra e a Cooperativa D’Irituia, com apoio da Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia (Sudam). A iniciativa reconhece agricultores e agricultoras como protagonistas da conservação de recursos genéticos e do conhecimento sobre o cultivo e a adaptação das plantas às condições locais.
Produção com a floresta em pé
Avelino Brás de Oliveira aposta há cerca de 20 anos no café cultivado em sistema agroflorestal. Hoje, mantém aproximadamente três mil cafeeiros em duas áreas, consorciados com uma diversidade de frutíferas amazônicas, citros e árvores nativas. Sua propriedade também abriga uma agroindústria que beneficia e torra os grãos, comercializados no Pará e em São Paulo.
A produção diversificada integra o café a outros componentes da agrofloresta, contribuindo para manter árvores e espécies alimentares no mesmo espaço. A Cooperativa D’Irituia trabalha para profissionalizar essa cadeia, e a caracterização do produto pode ajudar a fortalecer sua identidade e ampliar o acesso a mercados que valorizam origem e produção agroecológica. A construção de uma identidade visual e o início do processo de registro da marca no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) fazem parte desse caminho. A indicação geográfica e a certificação orgânica permanecem como possibilidades futuras.
O pesquisador da Embrapa Amazônia Oriental Osvaldo Kato acompanha o trabalho com a pesquisadora Fernanda Ilkiu-Borges de Souza, responsável pela identificação taxonômica das espécies, em demais membros da equipe. Kato ressalta que a identificação botânica não comprova, por si só, a origem histórica dos exemplares. “A pesquisa precisa avançar nesta identificação, como também em sistemas produtivos mais eficientes para garantir futuramente escala e uma comercialização mais estruturada e profissional”, afirma.
A história do café no Pará remonta a 1727, e em 2027 marca os 300 anos do café no Brasil, quando as primeiras sementes chegaram a Belém. Essa trajetória regional, contudo, não basta para confirmar que os cafeeiros encontrados descendem diretamente das plantas introduzidas naquele período. A equipe precisa aprofundar a investigação botânica e histórica e estudar sistemas produtivos que conciliem qualidade, conservação ambiental e viabilidade econômica.
Ao registrar os cafeeiros e os saberes associados a eles, o projeto busca dar visibilidade a um patrimônio agrícola e histórico mantido pelas famílias do nordeste paraense. A expectativa é que a pesquisa contribua para aperfeiçoar o manejo agroflorestal e criar oportunidades de renda, sem dissociar a valorização comercial da conservação da biodiversidade, serviços ambientais associados e dos conhecimentos que a mantiveram viva.
Publicado por: Embrapa Amazônia Oriental





