Um café fresquinho faz parte da mesa da maioria dos brasileiros. E não seria diferente na casa de Tatiana, Juliana e Poliana, três irmãs, que nasceram na localidade de Boa Esperança, zona rural do município de Muniz Freire, na região do Caparaó Capixaba.
As três “Anas”, como ficaram conhecidas, sempre tiveram uma ligação direta com o cultivo do café na propriedade de seus pais, Nilda Favoreto de Oliveira e Sebastião de Oliveira, que já tinham o hábito de produzir e colher cafés especiais.
As meninas cresceram, casaram, mudaram-se do município e cada uma seguiu a vida. Porém, a força do destino tratou de uni-las novamente. Agora não mais meninas, mas sim mulheres com forte presença no agro e no empreendedorismo, que buscam na produção dos cafés especiais uma forma não somente de negócio, mas um estilo de vida.
Afinal de contas, para realizar a produção de cafés especiais, é preciso mudar o modo como se pensa a cafeicultura. Isso porque alterações são necessárias desde a lavoura até a comercialização do produto.
Visão de futuro
Casada com João Fernandes Paulucio, há 26 anos, Tatiana e o esposo cuidam do Sítio Três Anas, com seis hectares de cafés com potencial para serem especiais, possuindo em torno de 18 mil pés de café arábica, onde produzem o café de qualidade superior que é comercializado na “Cafeteria Delícias do Caparaó”, em Iúna, administrada pelas três irmãs.
João Fernandes relata que, desde muito novo, ainda no sítio do seu pai, buscava uma metodologia para cultivar café de forma diferente do convencional. Só não sabia que o que estava fazendo era a base de se formar lavouras para a produção dos cafés especiais.
“Desde quando eu morava no sítio do meu pai, eu já fazia análise de solo. Depois que começamos a administrar o Sítio Três Anas, vimos a necessidade de aprender mais sobre o manejo da lavoura. Aproveitamos o período da pandemia da Covid-19, quando quase nada podia ser feito, para realizarmos diversos cursos on-line, que nos ajudaram muito. Na verdade, até hoje continuamos estudando. Nesse mercado, é necessário estar sempre atualizado”, diz.
Segundo os especialistas, os cafés especiais em grãos verdes não podem apresentar nenhum defeito primário (grãos pretos, ardidos, fungados, material estranho etc.) e, no máximo, dois defeitos secundários (defeitos parciais). Além disso, são considerados especiais aqueles cafés com 80 pontos ou mais em sua avaliação de bebida (que vai de 0 a 100).
Parceria de sucesso
Com a intenção de ter solidez na produção de cafés especiais, a família, além de buscar conhecimento junto a instituições como o Ifes, Sebrae, Senac, Incaper, Qualificar-ES e prefeituras, participam de “Dias de Campo” promovidos diversas vezes ao ano, por várias instituições, em municípios e localidades diferentes da região.
Capacitados, os membros da família iniciaram a produção do café especial na propriedade. Para tanto, além do apoio técnico, buscaram construir de forma autônoma sua própria estufa para secar o café, que além de ser “colhido a dedo”, um por um, possui todo um manejo diferente até estar realmente pronto para chegar na mesa do consumidor.
Sempre buscando novas parcerias, os empreendedores familiares se associaram à Associação de Produtores de Cafés Especiais do Caparaó (Apec), fortalecendo a marca e alcançando novos horizontes.
O passo a passo da lavoura
Juliana Favoreto de Oliveira, uma das empreendedoras do Sítio Três Anas, ressalta que os consumidores de cafés especiais se preocupam com a origem da produção. É importante, portanto, existir a rastreabilidade da semente até a xícara. Diante disso, no plantio ou renovação da lavoura é fundamental adquirir mudas de viveiristas certificados e que sigam boas práticas na produção.
João Fernando afirma que qualquer variedade pode produzir cafés especiais, por isso, não é necessário que se troque a variedade já existente na propriedade. Com relação a lavouras novas ou em reforma, deve-se optar por escalonar a produção, com variedades precoces, médias e tardias.
“Dessa maneira, a colheita será gradual, permitindo dedicar mais tempo a ela e colher somente os frutos realmente maduros, reduzindo a porcentagem dos verdes”, diz João Fernandes.
O manejo pode ser convencional ou até orgânico. De qualquer maneira, ele sempre deve seguir boas práticas de manejo nutricional, de pragas e doenças para uma produção sustentável de café.
Capricho na colheita
Quando se fala em cafés especiais, todo capricho é pouco na hora da colheita e do processamento, afinal, é necessária padronização e uniformidade.
Primeiramente, os produtores devem evitar a colheita de grãos verdes, selecionando só os cerejas. No caso de colheita mecanizada, é indicado manter os verdes abaixo de 20% e separá-los após a colheita.
Tatiana e João também afirmam que é ideal dividir os cafés colhidos em lotes menores, conforme a variedade, expectativa de produção do talhão e também histórico da área. Isso facilita o controle dos cafés e a obtenção de lotes mais homogêneos e melhores.
Vale ressaltar que, após a colheita, existem inúmeras possibilidades de processamento e pós-colheita para a obtenção de diversos tipos de cafés especiais. Tudo é bem controlado e detalhado. É importante ressaltar que nem toda a produção da lavoura será especial, mesmo que tudo seja controlado. Por isso, é importante a separação de lotes e um controle rígido sobre os cafés.





