A cafeicultura foi o assunto do Workshop Do Cerrado à Xícara, realizado dia 22 de outubro na sede do sindicato dos produtores rurais de Abaeté, região Central de Minas Gerais. O evento, promovido pela Embrapa Milho e Sorgo e pelo Sicoob Credinacional levou conhecimento sobre o cultivo do café para produtores, profissionais do agronegócio e representantes de empresas públicas e privadas.
A cafeicultura exige conhecimento, planejamento e atenção às características de cada território. A compreensão das condições de cultivo e dos fatores que influenciam a produção são fundamentais para a avaliação de oportunidades e para guiar a tomada de decisões no campo.
De acordo com o pesquisador Carlos Henrique Siqueira de Carvalho, da Embrapa Café, doutor em melhoramento genético e especialista em práticas culturais da cafeicultura, em Minas Gerais o café está praticamente em todo Estado. Mas, existem algumas regiões principais localizadas no Cerrado, na Chapada de Minas, nas Matas de Minas e no Sul de Minas. No Norte de Minas, uma pequena área está em evolução.
Sobre Abaeté, Carvalho avalia que é uma região nova para o café. Mas que existem experiências próximas da região, com um clima muito parecido, e até mais quente, que é o caso de Pirapora. Por isso, ele considera que é perfeitamente possível produzir café na região de Abaeté.
“Já existem outras localidades do país que têm clima semelhante ao de Abaeté e que produzem café muito bem, com altas produtividades e uma boa lucratividade. Além disso, aqui na região de Abaeté já existe um cafeicultor, com boas referências neste ramo”, disse Carvalho.
Potencial do Café Arábica
Para a produção do café Arábica, segundo Carvalho, é preciso observar algumas exigências climáticas. A primeira diz respeito à temperatura média anual que deve estar entre a faixa de preferência de 18 a 23° C. A precipitação anual deve ser bem distribuída, entre a referência de 1.200 e 1.800 mm. O déficit hídrico climatológico deve ser de até 150 mm por ano, como referência de aptidão. Além disso, as temperaturas extremas, a altitude e a sazonalidade das chuvas também importam.
Para isso, Carvalho orienta a adoção criteriosa da irrigação, que representa uma segurança contra a falta de chuva, porém não elimina os efeitos de temperaturas excessivas. “Aqui estamos em uma região mais quente, com menos chuvas do que as regiões tradicionais de café. Por isso, o planejamento de irrigação é necessário, para que seja bem feito. Não há como dispensar a irrigação. Porque se faltar água em alguma fase do ciclo da cultura, vai refletir na produção”, disse o cientista.
Carvalho comentou que “Abaeté apresenta condições para o cultivo do café arábica, respeitadas as limitações climáticas. Além dos critérios de irrigação, a escolha da cultivar e da área são decisivas para o desempenho agronômico e para a longevidade produtiva das lavouras”.
“A viabilidade econômica depende da produtividade sustentável, do manejo eficiente e do controle dos custos. Por isso, a implantação da lavoura deve ser gradual, começando em menor escala, para que se faça a avaliação do desempenho local e a ampliação da lavoura conforme os resultados”, orientou Carvalho.
Potencial do Cofffea Canephora (Conilon e Robusta)
A produção do Coffea canephora, uma espécie de café, é uma boa opção para a região de Abaeté, conforme explicou o engenheiro agrônomo e doutor em genética e melhoramento Alex Campanharo, técnico e pesquisador da Fazenda Experimental da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES, Campus São Mateus), vinculado ao Núcleo de Excelência de Pesquisa em Café Conilon (NEPECC).
As duas variedades mais conhecidas do Coffea canephora são a Conilon e a Robusta (Canéfora). De acordo com Campanharo, conhecer as características de ambos permite fazer a avaliação das opções de produção e compreender os fatores técnicos envolvidos no desenvolvimento desta espécie. “É preciso entender o ambiente para produzir o café Conilon e o Robusta com qualidade. No Espírito Santo, onde resido, próximo à divisa com a Bahia, a nossa produção de café fica a 30 metros de altitude, mas acompanhamos áreas produtivas em até 1100 metros de altitude”, disse Campanharo.
“O Café é uma planta fantástica. Eu costumo falar que a planta aceita muito bem o ambiente, porém pode haver variação em crescimento e produção entre os genótipos plantados. O clima de Abaeté favorece o desenvolvimento da cultura, com verão chuvoso e inverno seco, característico de regiões produtoras de Canéfora. Porém, existe a necessidade de suplementar água no ciclo através de irrigação para garantir o bom desenvolvimento nos diferentes estádios fenológicos da planta. Logo as condições climáticas dessa região são boas para o Canéfora”, confirmou Campanharo.
Para Campanharo, a introdução do Canéfora significa uma oportunidade de diversificar e de melhorar a renda do produtor. “Então, o primeiro fator que é impactado é a renda. Consequentemente, haverá mais um produto sendo explorado na região, influenciando na geração de emprego. As pessoas irão trabalhar com estes cafés, que podem ser conduzidos para atingir uma categoria especial de qualidade, o que é diferente de comercializar uma commoditie. Este fato leva à formação de uma cadeia de valores, pois além da comercialização dos cafés especiais, podem ser gerados atrativos de turismo de experiência”, disse Campanharo.
Para ilustrar a viabilidade de produzir café em Abaeté, Campanharo lembrou a história da cidade, conhecida por ser onde foi encontrado o maior diamante do Brasil, no século XVIII. “Tem um outro diamante, o café, que pode ser plantado e muito bem aproveitado, se forem utilizadas as técnicas corretas. Esta região já tem uma área com o café Canéfora, com potencial produtivo”, disse.
Investimento com segurança
O cafeicultor José Lúcio Campos, de Quartel Geral, Minas Gerais, contou sua experiência com o café arábica, enfatizando os cuidados com o manejo do café e com os investimentos. “Estou no mercado de café há 45 anos. Comecei com oito hectares de café, nessa região de sequeiro, e percebi que havia a necessidade do investimento em irrigação”, descreveu.
“Porém, o café aqui é altamente produtivo. Hoje, a produção média em minha propriedade é de 42 sacos por hectare, mas tenho todos os tipos de irrigação. Para a nossa região, considero que o gotejo é o melhor processo, para manter a qualidade do grão, porque aqui é uma região quente e temos várias épocas de floradas”, disse Campos.
Campos enfatizou que é importante iniciar a produção de café em pequenas quantidades para aprender o manejo e evitar perdas. “O começo da atividade do café está na qualidade das mudas, na variedade de plantio e, principalmente, na qualidade de preparo do solo, onde nasce uma grande lavoura. Além disso, é imprescindível ter o assessoramento de um técnico que entenda profundamente de café irrigado”, analisou Campos.
O presidente do Conselho Administrativo do Sicoob Credinacional, Artur Andrade, disse que objetivo do workshop foi justamente promover esta troca de experiências entre as pessoas que já atuam neste ramo do agronegócio e aqueles que buscam conhecer a cafeicultura. “Começamos visitando a Semana Internacional do Café (SIC). Em 2025, formamos uma comitiva, composta de produtores rurais, associados, secretários de agricultura das prefeituras vizinhas e técnicos para conhecer esta feira e aprender sobre o café. E agora, trouxemos para nosso público a grandiosidade desta cultura”, disse Andrade.
Para o engenheiro agrônomo da Embrapa Milho e Sorgo, Sinval Resende Lopes, como em qualquer empreendimento de alto impacto, o workshop buscou enfatizar a centralidade do diagnóstico preliminar, da estruturação do modelo de negócios e da elaboração do plano de negócios como bases indispensáveis para a tomada de decisão. “Na implantação da cafeicultura, a integração desses três instrumentos deixa de ser mera formalidade e torna-se um imperativo estratégico para viabilizar a intensificação sustentável da atividade”, expressou Lopes.
Além dos aspectos técnicos, relacionados ao cultivo do café, o acesso ao crédito é um fator fundamental para transformar as oportunidades em projetos viáveis. O gerente regional de Agronegócios do Sicoob Credinacional, Jefferson Calixto Ferreira, explicou que as soluções financeiras devem estar adequadas às necessidades do produtor.
“O crédito rural bem escolhido preserva a liquidez, respeita o ciclo e financia o resultado. Um projeto bem feito faz toda a diferença. Antes de decidir e antes de usar o caixa, o produtor deve comparar quatro coisas: a taxa, ou seja, quanto custa o crédito. O prazo, para saber se o vencimento acompanha a receita. O risco, para analisar se a produção, o preço e o pagamento estão protegidos. E o capital preservado, que diz respeito a quanto vale manter liquidez e o dinheiro rendendo. Portanto, a melhor decisão não começa na taxa. Começa no objetivo”, orientou Ferreira.
“Se queremos construir um negócio sustentável, precisamos conhecer muito sobre a atividade, considerando que haverá pontos altos e baixos. Mas, hoje, mais do que nunca, aliar investimento e conhecimento é o que vai nos direcionar para um futuro sustentável”, destacou Artur Andrade.
“A realização do encontro reforça a proximidade da cooperativa com os produtores e o compromisso de contribuir para o desenvolvimento do agronegócio regional”, concluiu o engenheiro agrônomo do Sicoob Credinacional, Eduardo Nogueira.
Durante o evento foram servidos cafés especiais Arábica, Conilon e Robusta, café tradicional e quitandas doces e salgadas feitas com farinha de sorgo, para mostrar a diversidade das bebidas e dos alimentos saudáveis produzidos com o cereal.
Este workshop integrou atividades no projeto de cooperação técnica “Agricultura tecnificada como suporte à pecuária leiteira na região de Abaeté” entre o Sicoob Credinacional e a Embrapa Milho e Sorgo, liderado pelo engenheiro Lopes. Participam do Projeto a Embrapa Milho e Sorgo e o Sicoob Credinacional.
Publicado por: Sandra Brito | Embrapa





