Cafeicultores criam máquinas para economizar água, tempo e dinheiro na lavoura

Inventos desenvolvidos em propriedades rurais de MG e ES mostram como a experiência de quem produz café pode gerar tecnologias acessíveis; desafio agora é ampliar a fabricação e levar as soluções a outros agricultores

A máquina não nasceu em uma indústria, mas da dificuldade de separar o café maduro do verde. Outra surgiu da necessidade de lavar os frutos sem desperdiçar água. Uma terceira foi criada para reunir os grãos caídos no chão, depois que equipamentos disponíveis no mercado se mostraram pesados e caros. Em comum, essas invenções têm a origem. A rotina de quem conhece a cafeicultura por dentro e decidiu construir as próprias soluções.

Em propriedades de Minas Gerais e do Espírito Santo, cafeicultores e pequenos empreendedores estão transformando problemas cotidianos em equipamentos adaptados à realidade de quem produz em menor escala. São iniciativas que aproximam conhecimento prático, criatividade e tecnologia e ajudam a colocar em discussão uma questão importante para a agricultura familiar, que é como mecanizar o trabalho sem depender, necessariamente, de máquinas industriais caras ou estruturas complexas?

Esse movimento ganhou visibilidade nacional em março de 2026, quando a Embrapa premiou 20 soluções no 1º Concurso Nacional de Inventos de Máquinas, Equipamentos e Implementos adaptados à realidade da Agricultura Familiar e de Povos e Comunidades Tradicionais. A iniciativa recebeu 242 inscrições e selecionou dez inventos de agricultores familiares, cinco de pesquisadores e cinco de empreendedores de micro e pequenas empresas. Cada solução premiada recebeu R$ 10 mil. A iniciativa foi realizada em parceria com o Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA) e a Agência Nacional de Assistência Técnica e Extensão Rural (Anater), com apoio da Fundação Banco do Brasil.

Entre os destaques ligados à cafeicultura estão o lavador e descascador de café adaptado para separar frutos por maturação, desenvolvido por Charles Lopes de Souza, em Alto Jequitibá (MG); o lavador ecológico de Paulo Henrique Marquezini Leite, em Poços de Caldas (MG); e o soprador arruador de café, conhecido como “Borrachão”, desenvolvido pela família de Cristiano Costa Bonfim, em Patrocínio (MG). No Espírito Santo, o cafeicultor Marcos Antônio Delpupo, de Afonso Cláudio, conquistou o primeiro lugar com um descascador portátil de café.

As histórias ajudam a entender o que acontece quando o produtor deixa de ser apenas usuário de tecnologia e passa a desenvolvê-la. Em vez de partir de uma máquina pronta para depois adaptá-la à propriedade, esses cafeicultores começam pelo problema que precisam resolver.

Peneira que separa maturações. Solução que conquistou o Caparaó

Em Alto Jequitibá, na região do Caparaó, Charles Lopes de Souza encontrou na adaptação de equipamentos uma maneira de melhorar o processamento dos cafés especiais. Até 2018, ele trabalhava com café commodity. A mudança começou em 2019, quando a família passou a testar novas formas de processamento e percebeu que separar os frutos maduros dos verdes era uma etapa trabalhosa.

A ideia surgiu depois que a mulher, Silmara, conheceu um descascador manual de café durante uma visita a Venda Nova do Imigrante (ES). Charles conseguiu adquirir um equipamento semelhante, mas percebeu que ainda precisava fazer uma seleção prévia dos frutos. Foi daí que veio a solução: uma peneira rolante para separar o café verde do maduro antes do descascamento.

O primeiro protótipo processava 12 balaios por hora. Em 2020, Charles construiu uma versão dupla, cuja capacidade, segundo ele, chegou a 30 balaios por hora. A experiência abriu caminho para outro equipamento, um lavador de café que consome aproximadamente 400 litros de água e pode processar de 50 a 60 balaios por hora, conforme o relato do produtor.

A solução ganhou adeptos na região produtora de cafés especiais entre Minas Gerais e Espírito Santo. Charles conta que outros agricultores se interessaram pela invenção e passaram a reproduzi-la. “Não sou muito de ficar amarrando as coisas”, afirma, ao explicar por que permitiu que colegas copiassem a ideia e compartilhou informações sobre as peças utilizadas.

O custo é outro atrativo. Segundo o inventor, a adaptação pode custar até cinco vezes menos que uma máquina industrial, embora tenha rendimento inferior ao de equipamentos comerciais de maior porte.

Charles não pretende, necessariamente, se tornar fabricante. O interesse continua concentrado na lavoura e na produção de cafés especiais. Para ele, a possibilidade de terceiros fabricarem o equipamento pode ser um caminho para ampliar o acesso à tecnologia sem exigir que o agricultor abandone a própria atividade para se dedicar à indústria.

Menos água descartada, mais funções dentro da propriedade

Em Poços de Caldas, no sul de Minas Gerais, Paulo Henrique Marquezini Leite desenvolveu um lavador ecológico a partir de um modelo já conhecido na cafeicultura: o Lavador Maravilha, cuja construção é orientada em material técnico da Embrapa.

O produtor adaptou a estrutura às dimensões e à logística da propriedade. A principal diferença está no sistema de recirculação da água, que passa por um filtro físico e biológico antes de ser reutilizada ou destinada a outras finalidades.

O equipamento separa os frutos por flutuação. O café cereja e o verde afundam, enquanto os frutos boia permanecem na superfície, seguindo por calhas diferentes. A adaptação feita por Paulo permite que a separação ocorra a partir da alimentação direta do equipamento, de acordo com a configuração do lavador que ele já utilizava.

A motivação foi substituir a separação manual em caixas-d’água, evitar o investimento em uma máquina de alta produtividade incompatível com o tamanho da lavoura e reduzir a demanda por água. “Eu pensei em fazer no Maravilha, só que eu não teria volume suficiente de água e teria que dar um jeito de descartar essa água”, explica.

A solução também segue uma lógica de integração. A bomba utilizada no lavador pode abastecer outras estruturas do sítio, enquanto a água tratada é aproveitada na irrigação do viveiro e da lavoura de café. Assim, o equipamento atende a mais de uma necessidade da propriedade.

Paulo Leite conta que levou cerca de uma semana de trabalho na oficina para desenvolver a estrutura, a partir de pesquisas e testes. No segundo ano de uso, o equipamento continuava em funcionamento, com ajustes ainda planejados.

O produtor estima que o processo de lavagem seja de 20 a 30 vezes mais rápido do que a operação manual em caixa-d’água. A comparação é uma avaliação da experiência na propriedade, e não um resultado de ensaio técnico independente.

Ele também inscreveu outras máquinas no concurso e considera buscar proteção intelectual para algumas delas. O lavador premiado, porém, utiliza princípios já conhecidos e divulgados, razão pela qual não vê, neste momento, a patente como prioridade.

A participação no concurso também foi uma oportunidade de conhecer outras iniciativas e trocar experiências com agricultores que enfrentam desafios semelhantes no campo. Para Paulo, o encontro foi importante para “conhecer os outros inventores, pegar a dica de invenção” e reunir pessoas da agricultura familiar que desenvolvem máquinas para facilitar a rotina nas propriedades.

Máquina criada por pai e filhos mantém legado familiar

Em Patrocínio, no Cerrado mineiro, a história do soprador arruador de café, conhecido como “Borrachão”, começa por volta de 2010, quando Ariovaldo Bonfim decidiu enfrentar uma dificuldade recorrente na colheita, a de reunir os grãos que caem no chão para facilitar o recolhimento.

As máquinas disponíveis eram pesadas e caras. A alternativa foi construir um equipamento a partir de um chassi reaproveitado de uma esqueletadeira, testar a estrutura na lavoura e fazer melhorias sucessivas.

Ariovaldo desenvolveu o projeto ao lado dos filhos Cristiano e Gabriel Bonfim. Depois de anos de aperfeiçoamentos, a invenção foi patenteada em 2015 e passou por cinco atualizações, segundo Cristiano.

Em 2021, a família perdeu Ariovaldo para a Covid-19. A produção foi interrompida naquele ano, mas os filhos decidiram manter o projeto vivo. O equipamento passou a se chamar “Rastelos Ari”, em homenagem ao pai. “Não poderíamos deixar que esse projeto tão grandioso ficasse parado”, afirma Cristiano.

A participação no concurso de inventos da Embrapa ajudou a financiar uma nova atualização do equipamento, mas a fabricação ainda é pequena. A família produzia cerca de quatro máquinas por ano, em parceria com uma empresa, também de Patrocínio. Recentemente, havia um pedido de dez unidades. O próximo desafio é atender à demanda sem perder a capacidade de adaptar o equipamento às necessidades dos produtores.

O que falta para as invenções chegarem a mais cafeicultores

A existência de protótipos funcionais não garante, por si só, que uma tecnologia esteja pronta para ser produzida em escala ou utilizada em diferentes condições de campo. É necessário avaliar segurança, durabilidade, desempenho, custo de fabricação e manutenção, além de entender como o equipamento se comporta em lavouras com características distintas.

Para Daniel Portioli Sampaio, analista da Embrapa Instrumentação e engenheiro mecânico que atua no desenvolvimento de máquinas e implementos agrícolas, a principal contribuição dessas iniciativas é oferecer alternativas compatíveis com a realidade econômica e operacional da agricultura familiar.

“São eles que identificaram as demandas, desenvolveram soluções e realizaram os ajustes necessários para que os equipamentos atendam às condições reais de uso nas propriedades rurais”, observa.

Na pós-colheita, explica o especialista, equipamentos que separam os frutos por maturação podem contribuir para uma matéria-prima mais uniforme, com potencial de melhorar a padronização e a qualidade do café. Os resultados, entretanto, precisam ser confirmados por avaliações técnicas realizadas em condições reais de campo.

A dificuldade também está em transformar uma ideia funcional em produto comercial. O inventor pode dominar a construção e o uso da máquina, mas não necessariamente dispor de recursos, estrutura industrial ou tempo para fabricar e vender em escala. “Nem sempre o inventor tem interesse ou estrutura para atuar como fabricante”, afirma Sampaio.

Uma alternativa é conectar agricultores inventores a instituições de pesquisa, cooperativas, centros de inovação, agentes financeiros e empresas do setor de máquinas agrícolas. Essas parcerias podem apoiar a validação técnica, o aperfeiçoamento dos equipamentos, a proteção da propriedade intelectual e a fabricação comercial.

O caminho também depende de uma escolha do próprio inventor. Produzir e comercializar diretamente, licenciar a tecnologia ou estabelecer uma parceria com quem já possui estrutura industrial. São possibilidades diferentes, que exigem avaliação técnica, jurídica e econômica para cada caso.

A tecnologia precisa caber no orçamento

A adoção de máquinas no campo não depende apenas de sua eficiência. Para o pequeno cafeicultor, a decisão envolve o custo de aquisição, a disponibilidade de crédito, a mão de obra necessária para operar o equipamento e o retorno esperado ao longo das safras.

O superintendente de Agronegócio e Inovação do Sistema Faemg Senar, Bruno Rocha, destaca que a disposição para inovar não elimina as limitações financeiras e estruturais enfrentadas pelos produtores.

Na avaliação dele, a assistência técnica e a capacitação ajudam a identificar se vale mais a pena comprar uma máquina, contratar um serviço ou dividir o investimento com outros agricultores. O planejamento também permite avaliar os custos de produção e verificar se os ganhos esperados justificam a aquisição.

A etapa de pós-colheita também exige atenção aos custos e à qualidade do café. Como explica o analista da Embrapa Instrumentação, Daniel Portioli Sampaio, equipamentos que separam os frutos por maturação podem melhorar a uniformidade da matéria-prima. “Há potencial para melhorar a qualidade e a padronização dos grãos”, afirma. Segundo ele, esses resultados precisam ser avaliados em condições reais de campo, considerando o desempenho das tecnologias e seus efeitos sobre a produção.

O desafio, portanto, é fazer com que a inovação deixe de ser uma solução isolada, construída para resolver um problema individual, e se torne uma alternativa viável para outras propriedades. Para isso, a experiência de quem inventa precisa caminhar junto com pesquisa, assistência técnica, financiamento e canais de comercialização.

Da necessidade na lavoura às medalhas internacionais

Em Vargem Alta, na região serrana do Espírito Santo, Anatalício dos Reis Silva representa outra face da criatividade rural. O cafeicultor desenvolve equipamentos a partir das dificuldades que enfrenta no trabalho e vem conquistando reconhecimento fora do país. A trajetória do produtor não está ligada à premiação do concurso da Embrapa abordado nesta reportagem, mas amplia a discussão sobre como invenções desenvolvidas no campo podem alcançar outros mercados.

Em setembro de 2026, Anatalício conquistou medalhas de ouro e prata na 15ª edição da InnovaCities, realizada em Foz do Iguaçu (PR). A peneira meia-lua, criada para auxiliar a colheita do café conilon, recebeu ouro; o abanador portátil de café, voltado ao beneficiamento do arábica, ficou com a prata. Os dois reconhecimentos se somaram à medalha de bronze conquistada em agosto no “Silicon Valley International Invention Festival”, na Califórnia (EUA).

As máquinas foram desenvolvidas a partir de problemas vivenciados pelo agricultor ao longo de décadas na cafeicultura. O abanador portátil, por exemplo, nasceu da necessidade de facilitar o trabalho e reduzir o esforço físico. Já a peneira meia-lua passou por seis a sete anos de testes e aperfeiçoamentos até chegar à etapa final de desenvolvimento.

“É um orgulho estar representando, sim, nosso Espírito Santo, nosso estado, o país em nível internacional”, afirma Anatalício, ao falar sobre a participação em competições internacionais.

O agricultor também trabalha em novos projetos, incluindo uma solução que descreve como um possível defensivo natural, ainda em fase de testes. Por se tratar de uma tecnologia em desenvolvimento, a eficácia e a segurança precisam ser comprovadas antes de qualquer recomendação de uso ou afirmação de que poderia substituir produtos convencionais.

Patente, pesquisa e parceria para produzir em escala

A trajetória de Anatalício Silva mostra que o reconhecimento em concursos é apenas uma etapa. Para que as invenções cheguem a outros cafeicultores, é necessário estruturar a proteção intelectual, aperfeiçoar os projetos e encontrar parceiros capazes de fabricar os equipamentos a custos acessíveis.

A máquina para peneirar, limpar e ensacar café, registrada sob o número BR 10 2016 026113 9, tem patente ativa, com vigência até 8 de novembro de 2036, conforme as informações levantadas para esta reportagem junto à assessoria do Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes).

Há ainda um segundo pedido, o de Modelo de Utilidade MU 20 2023 015784 5, referente à disposição construtiva da máquina. O pedido saiu do período de sigilo em 18 de fevereiro de 2025 e segue em tramitação, aguardando exame. Nesse processo, o Ifes figura como titular, e Anatalício, como um dos autores.

Publicado por: Leandro Fidelis | Portal Conexão Safra