Mineiras contam como a paixão pelo grão virou profissão e negócio, em cafeterias, marcas e empreendimentos que ajudam a movimentar a cena na capital
Para algumas pessoas, o café é uma pausa. Para outras, um ritual, um ofício, um encontro ou uma oportunidade de negócio. Em Belo Horizonte, mulheres à frente de cafeterias, marcas, torrefações e outros projetos têm construído diferentes trajetórias no mercado de cafés, um setor em que a participação feminina ainda é minoritária. Segundo levantamento da Embrapa publicado em 2023, com base no Censo Agropecuário de 2017, mais de 40 mil estabelecimentos produtores de café no Brasil eram dirigidos por mulheres, o equivalente a 13,2% do total. Desse conjunto, 72% estavam no Sudeste, principalmente em Minas Gerais e no Espírito Santo.
As histórias começam de maneiras distintas: na cozinha de casa, em negócios familiares, em viagens, em cursos ou no contato cotidiano com a bebida. Em comum, essas mulheres transformaram o interesse pelo café em iniciativas próprias, que envolvem desde a escolha dos grãos e dos métodos de preparo até a gestão de equipes e a criação de marcas.
Um dia depois do Dia Internacional do Café, celebrado em 1º de outubro, o Gastrô reúne algumas dessas empreendedoras para conhecer suas histórias, os caminhos que percorreram até chegar ao mercado, suas preferências de grãos e métodos de extração e os lugares de Belo Horizonte que fazem parte de suas experiências com o café.
Júlia Fortini (Academia do Café)
Júlia Fortini, 35, nasceu na quinta geração de uma família produtora de café. Aos 8 anos, mudou-se com os pais para os Estados Unidos, onde eles criaram uma empresa de importação com a missão de mostrar ao mercado internacional que o Brasil podia ser reconhecido pela qualidade, e não apenas pelo volume produzido do café. Aos 12, fez seu primeiro curso de barista; aos 15, teve o primeiro emprego, como auxiliar em uma cafeteria. O café, portanto, nunca foi exatamente uma escolha – era parte da vida. Até que virou profissão.
De volta ao Brasil aos 17 anos, Júlia seguiu os estudos, mas não se afastou da bebida. Durante um intercâmbio na Espanha, trabalhou em uma torrefação em Barcelona, em 2012. “Quando voltei, tinha certeza absoluta de que era com isso que queria trabalhar pro resto da vida!”, conta. Foi então que sua trajetória se encontrou profissionalmente com a Academia do Café, projeto dos pais criado em 2011 para aproximar produtores do conhecimento sobre qualidade e ajudar a valorizar o café brasileiro.
Hoje, a Academia reúne cafeteria, escola, torrefação e uma casa de experiências. Tudo, diz Júlia, com o mesmo propósito: aproximar as pessoas “do café e de tudo que existe por trás dele”. A própria relação com a bebida é feita de histórias e transformação. Ela gosta de filtrados, especialmente V60 e Origami, e de cafés doces, de torra média-clara. Guarda na memória um café de Brejetuba (ES), de 2013, com notas de mingau de milho verde, e os cafés da fazenda do pai, vendida no ano passado, carregados de memória afetiva.
Entre as conquistas, celebra ter ficado entre as dez melhores do mundo em um campeonato internacional e, sobretudo, ter visto nascer a nova Academia do Café, projeto construído ao longo de anos. Depois de uma vida inteira cercada por grãos, produtores e xícaras, Júlia chegou a uma certeza que também resume seu jeito de enxergar o setor: “não existe regra! Não existe ‘o melhor’. Tudo depende!”.
Bárbara Cobra (OOP)
Desacelerar é parte do negócio de Bárbara Cobra. Aos 24 anos, ela está à frente do OOP, cafeteria e torrefação que nasceu em 2016 pelas mãos de sua mãe, Adriene Cobra. A relação com o café, porém, ganhou novos contornos três anos depois, quando Bárbara passou a acompanhar mais de perto a torrefação. “O café juntou duas coisas que eu amo: estar perto de toda a cadeia produtiva e carregar um traço familiar”, disse.
Hoje, ela conduz o negócio com a ideia de slow down – um convite para respeitar o tempo de cada etapa, da lavoura à xícara. A proposta ganhou uma nova frente com o OOP Curadoria, dedicado a grãos selecionados e métodos filtrados. “Café, para a gente, é processo humanizado”, define.
No paladar, Bárbara gosta dos cafés frutados e tem se rendido ao UFO, método que conheceu ao trazê-lo para a casa. Mas um café baiano, produzido por Tai Bittencourt, ficou especialmente guardado na memória. “Era bem fermentado e frutado. Nunca esqueço do dia em que ele chegou no OOP e eu tomei, parecia Danoninho!”, conta. Se tivesse que resumir tudo o que o café lhe trouxe até aqui, escolheria uma palavra: conexão.
Victoria Veloso (Velvy Coffee)
As primeiras lembranças de Victoria Veloso, 30, têm cheiro de café. Nascida em Carmo do Paranaíba, no Cerrado Mineiro, ela cresceu entre cafezais e três gerações da família dedicadas à produção. “Todas as manhãs, o pão de sal molhado na xícara; nos fins de semana, as tardes brincando com meus primos entre os cafezais e os secadores”, relembra.
Dessa relação com o café e com a história da família nasceu, em 2024, a Velvy Coffee, marca mineira de cafés especiais criada por Victoria para dar continuidade a uma tradição que começou na fazenda. No mesmo ano, a empresa conquistou o reconhecimento de melhor café fermentado do Cerrado Mineiro com o Café Licor do Cerrado.
O Cerrado Mineiro continua sendo sua referência de sabor. Os cafés da região, com notas de chocolate, caramelo e castanhas, têm “gosto de casa”. No dia a dia, ela prefere torra média, grãos moídos na hora e preparo na V60. Mas a relação com o café também ampliou seu olhar para a terra. A partir da produção, Victoria se aproximou de questões ambientais e da agricultura regenerativa, buscando práticas mais sustentáveis e levando adiante um ensinamento do pai: “se cuidarmos da terra, ela cuida da gente de volta”, conta.
O que mais a orgulha, porém, é ver o legado da sua própria família chegar à mesa de outras pessoas. Para ela, o café é o encontro, autocuidado e memória – e, sobretudo, o lugar “onde a minha história começa”, completa.
Marília Balzani (Café Magrí e Duplex)
O café entrou na vida de Marília Balzani, 37, por acaso. Funcionária de uma loja de presentes, em BH, que queria implementar uma operação de café, ela era a única da equipe que bebia a bebida – e ganhou, em 2016, por isso, um curso de barista como incentivo. “Foi um universo de descobertas no mundo dos cafés especiais que eu nem imaginava existir”, rel,ebra. A experiência mudou sua trajetória e também despertou o desejo de empreender.
Hoje, Marília divide-se entre dois negócios de propostas diferentes. No Café Magrí, seu primeiro negócio aberto em 2018, aposta em cafés mais “fora da caixinha”, capazes de desafiar paladares tradicionais. No Duplex, onde é sócia, aberto neste ano, busca apresentar “o clássico muito bem feito, cafés confortáveis, extrações de excelência e padrão”, conta.
Entre suas paixões estão os canéforas, espécie que “mudou minha relação com o café”, despertando o interesse pelo estudo e pela diversidade. Os robustas amazônicos ganharam lugar especial – pelo sabor e pelas relações que surgiram nesse caminho.
A experimentação também orienta sua maneira de empreender. Entre as conquistas que mais a orgulham está justamente “não ter engessado”, diz ela que compara café à palavra “movimento”. Marília prefere questionar padrões e experimentar, em vez de seguir verdades absolutas. “O café me proporcionou me descobrir no empreendedorismo, me descobrir na versatilidade, na curiosidade, nos estudos”, finaliza.
Publicado por: O TEMPO | GASTRONOMIA





