Cresce demanda de café conilon em cafeterias

Um café que durante décadas foi visto como ingrediente de mistura está chegando às gôndolas e às máquinas de espresso das cafeterias capixabas. O movimento ainda é discreto, mas consistente. O conilon especial começa a ocupar espaço em Vitória e quem está conectando produtores e cafeterias percebe que o interesse do mercado é real.

“Ainda de um jeito bastante discreto, mas tem crescido. Aonde eu tenho levado conilons, especialmente para expressos, o feedback do público tem sido muito positivo. Já estou entregando em cafeterias em Linhares e Vitória”, conta Kissia Dal’Orto, produtora rural, mestre de torra e proprietária da Fazenda Flor de Lis, em Linhares.

Kissia é uma das fundadoras da Pro-Conilon, associação que reúne dezenas de produtores de conilon especial em municípios como Linhares, Jaguaré e Rio Bananal, e atua ativamente na conexão entre campo e mercado. “Esse trabalho de conectar os produtores a esses locais já esta sendo recorrente. Muita demanda”, afirma.

Uma das primeiras cafeterias a buscar o conilon especial de forma intencional foi o Quinto Aroma, em Vitória. Wagner Carmo, sócio do espaço, conta que a decisão de incluir o conilon na carta não foi óbvia, foi uma escolha.

“Nós queríamos que as pessoas que aqui viessem tivessem a experiência de conhecer cafés. E eu falei: não abro mão de termos o conilon aqui, seja para tomá-lo, seja para fazer blends, seja para vendê-lo”, afirma.

A experiência de Wagner com o conilon começa em 2019, numa cafeteria em Colatina. Criado no Caparaó, berço do arábica capixaba, ele carregava o preconceito comum entre os capixabas do sul: o conilon era visto como café mais duro, voltado para misturas industriais, não para a xícara. Uma oferta mudou tudo. “A proprietária me ofereceu um conilon e disse: tome esse e você vai se surpreender. E eu me surpreendi.”

Hoje, no Quinto Aroma, o conilon está disponível para consumo e para compra na gôndola, e Wagner quer ter pelo menos três ou quatro marcas da espécie na cafeteria.

O que ele encontrou ao buscar esses cafés no mercado confirma uma transformação que acontece silenciosamente no campo capixaba. “Do plantio à torra, encontrei um profissionalismo sem precedente. Um grupo de produtores empenhados em produzir um café aromático, um café especial. Os produtores de conilon entenderam o mercado mundial, entenderam melhor o processo de cultivo, de colheita e de torra para a produção de cafés especiais e estão entregando cafés muito aromáticos”, afirma.

A distinção entre conilon e arábica, para Wagner, não é mais de qualidade. É de perfil sensorial. “O café conilon especial hoje não perde em absolutamente nada para o arábica. O que vai mudar é apenas o gosto de quem consome. Se quer mais cafeína, vai no conilon. Se quer um café mais achocolatado, vai no conilon. Se quer algo mais mel, mais frutado, vai no arábica. Ambos vão oferecer qualidade no final da taça.”

O Espírito Santo é o maior produtor de conilon do Brasil, com mais de 49 mil propriedades e 67% da produção nacional da espécie. Por décadas, esse volume saiu quase inteiramente como commodity, grão verde para indústria de solúvel ou mistura. O que está acontecendo agora em cafeterias como o Quinto Aroma é diferente: o conilon chegando ao consumidor final com identidade, origem e torra cuidada. É o mesmo caminho que o arábica percorreu para se tornar especial. O conilon capixaba está começando a trilhá-lo.

Publicado por: Stefany Sampaio – Folha Vitória