Um ano melhor para o café, mas nem tanto

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Apesar das incertezas que cercam o quadro global de fundamentos de oferta e demanda e alimentam uma forte volatilidade dos preços do café, 2013 tende a deixar mais saudades aos produtores brasileiros do que o ano passado. As cotações internacionais não deverão voltar a alcançar as máximas de 2011, mas especialistas veem espaço para valorizações em relação aos patamares de 2012. Com isso, são boas as perspectivas de que a próxima safra nacional seja pelo menos mais rentável que a passada.

Com uma oferta mundial confortável, em parte graças ao Brasil, o preço médio anual do café arábica recuou 30,8% no ano passado na bolsa de Nova York sobre a média recorde de 2011, conforme cálculos do Valor Data baseados nos contratos futuros de segunda posição de entrega, normalmente os de maior liquidez. Ainda assim foi a segunda maior média anual da história, mas no último trimestre a média alcançada foi quase 24% menor que a do primeiro, o que ajuda a alimentar as estimativas mais pessimistas.

Encerrada a colheita recorde da safra 2012/13, boa parte dos agentes desse mercado esperava uma recuperação de preços no fim do ano passado, mas estoques em níveis considerados satisfatórios evitaram qualquer reação. A expectativa de boa disponibilidade do produto também em 2013/14 no Brasil, cuja colheita começará em maio, também ajudou a conter valorizações. Líder mundial em café arábica, o país viverá o ciclo de baixa na bienalidade que marca a cultura, mas as primeiras previsões para a temporada foram negativas para os preços.
 

A Terra Forte Exportação, por exemplo, chegou a divulgar em dezembro que a colheita brasileira chegaria a 53,39 milhões de sacas em 2013/14, maior até que a do ciclo de alta de 2012/13, estimado pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) em 50,83 milhões de sacas. Mas o número foi rechaçado pelo setor produtivo. Projeção do Conselho Nacional do Café (CNC) a partir de dados de cooperativas indica que a produção de 2013/14 será 10% inferior a de 2012/13 – entre 44 milhões e 45 milhões de sacas.

Eduardo Carvalhaes, sócio-diretor do Escritório Carvalhaes, de Santos, calcula a safra 2012/13 em 50 milhões de sacas, para um consumo interno estimado pela Associação Brasileira da Indústria de Café (Abic) em 20,5 milhões de sacas e exportações de 28 a 29 milhões. Assim, diz, sobram menos de 2 milhões de sacas. Como Carvalhaes também prevê que o próximo ciclo será menor, considera que existe um equilíbrio precário entre oferta e demanda no Brasil e no mundo, o que pode abrir espaço para altas das cotações.
 
Em seu último relatório mensal, a Organização Internacional do Café (OIC) estimou a produção mundial em 2012/13 (outubro de 2012 a setembro de 2013) em 146 milhões de sacas, 8,4% mais que em 2011/12. Para o consumo global, que foi de 139 milhões de sacas em 2011, a entidade não fez projeções, mas lembrou que o crescimento médio anual tem sido de 2,4% desde 2001. Nesse contexto, o CNC não trabalha com a perspectiva de escassez global significativa de café nos próximos anos.

Ao mesmo tempo em que o tamanho da próxima safra brasileira gera dúvidas, o Vietnã, líder em café robusta (variedade de qualidade inferior), também provoca especulações. A demanda pelo robusta cresceu com a disparada do arábica em 2011 e o produto ganhou peso nos "blends", o que valorizou ainda mais o papel do Vietnã no mercado. Em 2012/13, a colheita do país tende a ser de 1 milhão a 2 milhões de sacas menor que a anterior, estimada entre 24 milhões e 27 milhões de sacas.

Com o arábica brasileiro mais caro em relação ao de outras origens durante boa parte do ano e maior procura pelo robusta – além das dificuldades de torrefadores europeus em obter crédito e da redução de grãos brasileiros de qualidade em função das chuvas na colheita -, as exportações do país foram 5 milhões de sacas menores em 2012 do que no ano anterior, quando os embarques atingiram 33,5 milhões de sacas, segundo o Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé). Guilherme Braga, diretor-geral da entidade, estima que 2,5 milhões de sacas que deixaram de ser exportadas em 2012 devem engordar os embarques do país até março.
 
Mas, mesmo diante dessas variáveis, o setor produtivo brasileiro, de forma geral, crê em recuperação dos preços este ano. "Não teremos preços explosivos, mas remuneradores", prevê Silas Brasileiro, presidente do CNC. De acordo com ele, R$ 400 a saca é um valor remunerador.

"Acredito que teremos preços melhores em 2013, mas não nos níveis de 2011", afirma Carlos Alberto Paulino da Costa (foto ao lado: Valor Econômico), presidente da mineira Cooxupé, maior cooperativa de café do mundo. O dirigente também diz que o produtor não está "segurando tanto" sua colheita, como muitos agentes de mercado propagam, mas confirma que os estoques da cooperativa são superiores aos de anos anteriores – entre 20% e 25%, também em função da colheita abundante.

Conforme Rodrigo Costa, diretor da trading Caturra Coffees, reforça que o grande volume de café estocado no mundo limita a recuperação dos preços. "Acho que vai passar por um período de difícil recuperação. Os ganhos não serão significativos neste primeiro trimestre. [A commodity] vai "sofrer" um pouco para voltar acima de US$ 1,60 e US$ 1,70 a libra-peso [em Nova York]". Pelas suas previsões, será preciso esperar dois anos para um novo ciclo de preços significativamente maiores.

Fonte: Valor Econômico

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