Pequeno mamífero ajuda na produção de café especial no ES

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Um bichinho que vive na Mata Atlântica tem ajudado a produzir um café especial, no Espírito Santo. É uma história que ilustra muito bem as vantagens da agricultura que respeita o meio ambiente. O lucro e a preservação juntos.

O caminhão que sobe o morro, em Domingos Martins, na região serrana do Espírito Santo, leva os trabalhadores para a colheita. Ou seria um garimpo?

“Já é um café especial. Vale outro, praticamente”, diz um homem.

Vale muito mesmo. Bem mais do que os cafés especiais produzidos por lá. E pensar que eles estão atrás dos grãos que já estão no chão, sem a casca e nem a poupa da fruta.

O bicho que passou pela plantação na noite anterior roeu o café e deixou os grãos para trás poderia ser considerado uma praga. Poderia.

Foi por meio de uma investigação que um problema na lavoura começou a virar solução. Há pouco mais de um ano, o pessoal da colheita observou que algum animal estava invadindo a plantação. O café ruído, sem casca, começou a aparecer no chão, embaixo das folhas. Foi observar com mais atenção para perceber a presença de um bichinho arisco, que gosta de aparecer à noite. Ele normalmente procura o fruto maduro, com mais sabor.

É por isso que o olho do bicho cresce ainda mais. O pequeno mamífero cuíca parece um ratinho, vive na Mata Atlântica. Quando ele entra na lavoura, vai direto para os pés que guardam o melhor café. É uma seleção natural.

“Ele só quer café que não tenha pinta, nem mancha. Tem que estar no ponto”, destaca Rogério Lenke, gerente da fazenda.

A plantação é orgânica, não recebe agrotóxico, e divide espaço com a Mata Atlântica. Um prato cheio para a cuíca.

“Não tem agrotóxico, não se sente ameaçado. Aí ele vai e come normalmente”, acrescenta Rogério.

Em uma colheita, onde não se cultiva o desperdício, o café retirado dos galhos vai para a peneira. Os grãos adocicados, que a cuíca roeu e depois jogou fora, são recolhidos do chão, separados e levados para uma estufa. Secam por 10, 12 dias, e depois descansam no depósito. Quando vão para a máquina para eliminar as impurezas, estão a caminho do consumo. Uma pequena e valiosa produção, que este ano não passa de 100 quilos.

Os grãos que passaram pela boca da cuíca também passaram por testes. Qual é a temperatura e o tempo ideal de torra? Uma pequena xícara desse café deve valer seis vezes mais que qualquer outro cafezinho. Será que vale tudo isso? Cada detalhe é analisado. A consistência, o aroma, o sabor. O que falar do café que, na prática, foi provado primeiro por esse bichinho?

“A cuíca tem essa facilidade de fazer a seleção dos grãos perfeitos, que apresentam uma acidez agradável”, explica Evair Vieira de Melo, presidente do Incaper.

Para o especialista, tão importante quanto sabor e aroma, é a história do produto. Um café brasileiro que exala preservação.

“Possível ter agricultura, colher café. Dentro do bioma da Mata Atlântica, uma boa relação com o meio ambiente. Esse café só é possível porque nessa propriedade tem florestas, tem outras frutas. O bicho consegue sobreviver. É possível ter esse conceito macro da sustentabilidade”, completa ele.

Fonte: Jornal Nacional

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