Oferta restrita de café gera escalada de preços no setor

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 A situação de abastecimento da indústria de café do país tem piorado nas últimas semanas, segundo o setor, porque a oferta do grão continua restrita apesar do avanço da colheita de arábica do ciclo 2016/17 e de a colheita de conilon na temporada já estar praticamente terminada. Esse cenário de aperto está se refletindo nos preços da matéria-prima e do produto final e já levou a cadeia produtiva a pedir que o governo leiloe café dos estoques oficiais.

Nos últimos meses, o consumidor vem pagando mais pelo café torrado e moído. Em um ano, a valorização é de 22,1% em termos nominais, conforme levantamento do Sindicafé/SP. Em termos reais, considerando uma inflação de 8,17% no período, a alta foi de 12,8%, de acordo com o Valor Data. A pesquisa, feita em supermercados da cidade de São Paulo, considera os preços de três categorias de café (tradicional, superior e gourmet) no varejo e calcula uma média geral.

Embora o aumento no varejo seja expressivo, a matéria-prima subiu mais no mesmo período, o que significa que a indústria ainda deve buscar mais repasses. Conforme acompanhamento da Associação Brasileira da Indústria de Café (Abic), o café conilon subiu 38,8% e o arábica, 43%, em termos nominais, entre julho de 2015 e julho deste ano. Em termos reais, a alta foi de 31,7% para o arábica e de 27,8% para o conilon, levando em uma conta uma inflação de 8,61% no período.

“A indústria não está conseguindo as quantidades mínimas de café que precisa”, afirma Nathan Herszkowicz, diretor-executivo da Abic. “É uma situação que não se via há uns 20 anos”, afirma. De acordo com o executivo, o “preço de matéria-prima está subindo a cada dia”.

São vários os motivos para esse cenário de restrição pontual, segundo Herszkowicz. Com a quebra da safra de conilon no Espírito Santo, maior produtor nacional da espécie, os preços do grão, que é usado nos blends pelas indústrias, subiu, levando as torrefadoras a se voltarem para o arábica. Em consequência, o arábica também se valorizou.

Ao mesmo tempo, as chuvas entre o fim de maio e início de junho afetaram a colheita de arábica no Sudeste, atrasando a entrada de café no mercado. Ele elenca ainda dois outros fatores: os estoques baixos de café no país e o fato de 20% a 30% da safra ter sido comercializada com base em contratos futuros da BM&FBovespa, o que reduz a disponibilidade no mercado spot. As recentes altas na bolsa de Nova York, por causa da valorização do real ante o dólar e de preocupações com a safra brasileira, também têm sustentado os preços domésticos. Ontem, os contratos com vencimento em setembro fecharam com alta de 190 pontos, a US$ 1,4945 por libra-peso.

“O aumento de custos é insuportável para a indústria se manter. É preciso repassar para os preços de venda”, defende o diretor-executivo da Abic.

Nesse ambiente, a “margem média do setor vem diminuindo”, segundo ele. A situação é mais difícil para as indústrias de café “de consumo de “massa”, que já têm margens apertadas. “A margem da indústria de café de consumo de massa é pequena, de 2% a 5%. Em momentos como o atual, zera ou fica negativa”, diz Herszkowicz.

Sydney Marques de Paiva, CEO da Café Bom Dia, afirma que o setor terá de fazer mais repasses aos produtos finais. Segundo ele, a indústria “segurou aumentos desde o começo do ano porque acreditava que os preços da matéria-prima iriam se estabilizar”. No entanto, diz, a expectativa inicial de “uma belíssima” safra de café em 2016/17 não se confirmou.

Para o executivo, o preço da matéria-prima deve se manter em níveis elevados já que os estoques do grão são baixos no mundo. Assim, qualquer problema climático pode interferir nas cotações. “É preciso repassar porque a perspectiva de que o preço volte é pequena”, observa.

Diante desse quadro de oferta apertada, a cadeia produtiva pediu, em reunião com o ministro da Agricultura Blairo Maggi, na semana passada, a realização de leilões dos estoques de café do governo. A medida está em estudo. Conforme Herszkowicz, os estoques oficiais têm hoje 1,5 milhão de sacas de arábica, volume bem inferior às necessidades do setor no país, considerando uma demanda total de 4,5 milhões de sacas por mês (sendo cerca de 3 milhões para exportação e 1,5 milhão para consumo doméstico).

Na indústria de café solúvel, que utiliza principalmente conilon como matéria-prima, continua a haver disputa pelo produto. Aguinaldo José de Lima, diretor de relações institucionais da Associação Brasileira da Indústria de Café Solúvel (Abics), afirma que a “situação continua difícil”, mas que a indústria “vem administrando os estoques”. Ele observa que “se o conilon subir muito, a indústria de torrado e moído deixa de comprar o grão e vai para o arábica”, o que pode dar alguma folga para a oferta.

Por Alda do Amaral Rocha

Fonte: Valor Econômico

 

 

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