DISTORÇÕES CONTRATUAIS DÃO SINAIS NEGATIVOS PARA O CAFÉ

Os mercados acionários permanecem voláteis e mantendo uma correlação em geral positiva com a movimentação dos preços do petróleo. No meio da semana uma nova desvalorização da moeda chinesa impactou negativamente as cotações dos ativos de risco, rapidamente apagando os ganhos provocados por compras de investidores que buscam alguma alternativa para realocar seus recursos.

O nervosismo dos participantes das bolsas se deve ao fato dos Bancos Centrais já estarem com seus balanços inchados após terem criado uma liquidez mundial grande, suficiente para evitar novas recessões, mas não necessariamente impulsionar o crescimento para níveis que os ajudem a começar a drenar um pouco da política monetária expansionista (muito pelo contrário).

Soma-se a isto a queda acelerada das commodities com o efeito deflacionário e a exposição de fundos soberanos de países produtores de petróleo que precisam fazer caixa (vendendo assim ações que tem em carteira nas economias de maior liquidez) e acabamos encontrando poucos corajosos compradores de papéis.

O café esboçou reação na segunda-feira dia 22 de fevereiro, mas falhou em dar sequência nos ganhos e nem mesmo uma melhora no humor macroeconômico conseguiu dar ânimo para as cotações do arábica. O robusta ficou ainda mais pressionado com a proximidade do período de entrega do contrato de Março e com a abertura do spread contra o Maio para US$ 40.00 de desconto – menos em função da falta de interesse de recebimento dos cafés e mais por causa das regras contratuais que dificultam uma demanda mais aguda para o café que é hoje o mais barato disponível no mercado.

Outro ponto confuso foi a fraqueza do arábica na BM&F em frente à entrega do contrato de março, provocando uma abertura grande do spread contra o contrato de setembro e uma fraqueza da arbitragem contra Nova Iorque. Tudo indica que a composição dos estoques certificados locais foi o motivo que afugentou possíveis recebedores, pois como alguns agentes comentaram a bolsa permite a certificação de lotes com 100% peneira moka, distorcendo a correlação com os padrões do físico.

A movimentação nas origens foi tímida com a queda dos terminais e os diferenciais ficaram nominalmente mais caros tanto para o arábica como para o robusta. No Vietnã as exportações de fevereiro estão estimadas em 2.08 milhões de sacas, maior do que há um ano, mas menor do que permitiria os estoques internos – reflexo da resiliência dos produtores cujo comportamento não deve se alterar se os preços não subirem ou eventualmente o Dong desvalorizar. Torradores parecem menos preocupados com a necessidade que tem de cobertura de diferenciais para o segundo semestre de 2016, talvez apostando em uma pressão vendedora com a chegada da safra brasileira, que poucos creem será próxima de 60 milhões de sacas com as escassas chuvas no norte do Espírito Santo.

Um bom exemplo é a estimativa da safra 16/17 da Exportadora Comexim prevendo uma colheita de 56.25 milhões de sacas, sendo 44.35 milhões de arábica e 11.9 milhões de conilon. Segundo a empresa o estoque de passagem será virtualmente inexistente, em linha com grande parte dos números de diversos agentes.

Os estoques em portos Europeus divulgado pela European Coffee Federation totalizavam 11.86 milhões de sacas no fim de Dezembro, pouco mais de 53 mil sacas do inventário de Novembro. Uma vez mais vale salientar que a composição qualitativa não satisfaz o perfil dos que precisam comprar café fino e graúdo.

O fechamento dos terminais Londrino e Nova Iorquino não inspira confiança aos altistas e se o dólar americano se valorizar as chances são grandes de vermos ambos mercados fazerem novas mínimas. Os fundos renovando suas apostas nas baixas vão ajudar os comerciais a estenderem suas coberturas do flat-price, uma ótima oportunidade do ponto de vista fundamental que por ora não tem preocupado os participantes que estão vendidos.

Uma excelente semana e muito bons negócios a todos. 

* Rodrigo Corrêa da Costa escreve este relatório sobre café semanalmente como colaborador da Archer Consulting

Fonte: Archer Consulting – Assessoria em Mercados de Futuros, Opções e Derivativos Ltda

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