Como a Covid-19 mudou o dia-a-dia dos agricultores

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O sul de Minas Gerais é uma das principais produtoras de café do país. A região, que conta com 175 municípios, viu disparar neste ano o número de internações causadas por Síndromes Respiratórias Agudas Graves (SRAG), que é o mesmo tipo de doença causada pelo coronavírus.

Aos poucos, a Covid-19 vai chegando à zona rural e altera a rotina de agricultores e trabalhadores do campo. O Globo Rural visitou o sul mineiro para saber o que mudou após a pandemia.

Na região, a primeira morte causada pelo coronavírus foi ocorreu há cerca de um mês em Pinhalzinho dos Góes, que fica na área rural de Ouro Fino.

A vítima foi um senhor de 70 anos que voltou de um cruzeiro pelo Nordeste. A família, que prefere não dar entrevistas, disse que está sofrendo preconceito da população local.

O funcionário público Mauro Figueiredo mora em uma propriedade próxima à da vítima. Ele cria galinha, peixes e tem uma pequena lavoura de café de 26 hectares.

“Eu pensava que no mato eu estaria protegido, ou seja, nesse ambiente que eu estou aqui, eu estaria protegido e hoje eu vejo que não estou protegido”, lamenta.

Figueiredo é hipertenso e faz parte do grupo de risco da Covid-19, ele já está há mais de um mês sem ter contato com ninguém da cidade.

Internações por síndrome respiratória disparam
O médico infectologista Luiz Carlos Coelho atende pessoas da zona rural há 30 anos e faz um alerta: é falsa a sensação de é mais difícil pegar o coronavírus por causa do ar puro do campo ou pelas área abertas serem maiores.

A Covid-19 é um tipo de síndrome respiratória aguda grave e, do ano passado para cá, nos 175 municípios do sul de Minas, houve um aumento de quase 10 vezes no número de internações.
No campo, as mortes causadas por problemas respiratório são proporcionalmente maiores do que as registradas na área urbana.

Em todo o país, 14% dos pacientes da zona rural internados com alguma doença respiratória morrem. Na cidade, essa taxa é de 10,2%.

“É uma conjunção de fatores. Eu vejo que a gente ainda não tem uma cobertura tão ideal da saúde do trabalhador rural pelo sistema, por uma questão de logística, de distância e tem questões culturais também”, explica Coelho.

“Há uma tendência desse produtor rural de minimizar a síndrome gripal.”

Procura por vacina contra a gripe
Além do isolamento social, outra forma de prevenção tem sido tomar a vacina contra a gripe comum. Embora não previna contra o coronavírus, ela evita que as pessoas tenham sintomas parecidos com o da doença, além de garantir melhor imunidade para o enfrentamento da pandemia.

“A população rural até me espantou que tem respondido muito bem. Nos outros anos, eles não queriam, não aceitavam a vacinação. E este ano não está nem precisando insistir, eles mesmos já param o carro e querem tomar a vacina”, conta a enfermeira Camila Bonini.

Em menos de um mês de vacinação de idosos, gestantes e profissionais de saúde em Ouro Fino, os agentes já conseguiram mais de 87% da meta estabelecida no município.

Cuidado com aglomerações
No sul de Minas Gerais, uma das principais regiões produtoras de café do país, os pés já estão prontos para a colheita, o que gera outra situação de risco para o contágio da doença.

Isso porque é necessária muita mão de obra, o que causa aglomerações, e os trabalhadores costumam vir de várias partes do Brasil.

“Não pode parar nesse momento, mas mantendo o isolamento e a preocupação para não transmitir o vírus”, diz o técnico da Emater Edgar Moreira.

A agricultora Isabela Junqueira e o Ricardo Ribeiro cultivam café em uma propriedade de 160 hectares em Santa Rita do Sapucaí. Eles têm 6 funcionários e vão contratar mais 15 pessoas para a colheita, que deve começar daqui duas semanas.

“Com a colheita do café, a nossa preocupação é com o transporte dos funcionários, e, por causa da Covid, nós vamos tentar mudar o transporte. Em vez de vir de van, a gente tentar mudar, vir em um carro próprio, ou moto, tentar fazer uma coisa mais individualizada”, afirma Ribeiro.

Produtor e profissional de saúde
O agricultor Ronildo Donizete tem uma propriedade em Piranguinho, lá, ele produz café, verduras, milho e uma criação de porcos. Logo que o dia nasce, vai para roça dar conta de tudo.

Por volta das 10h da manhã, Donizete se preparava para uma outra lida, só que agora na cidade. Ele é técnico de enfermagem em uma Unidade Básica de Saúde (UBS) no município.

“Eu amo as duas coisas que eu faço. Eu nasci na roça, por isso que eu não desliguei ainda da roça, mas a enfermagem para mim é tudo também, pelo fato de eu poder estar cuidando do próximo. O coração fica dividido”, conta o enfermeiro produtor rural.

Por causa do novo coronavírus, ele precisou mudar alguns costumes. A roupa do trabalho na cidade vai direto para a lavagem, por exemplo.

Cuidados
A orientação de Clarice Maria de Souza, secretária de Saúde de Piranguinho, é de quem está no campo tome cuidados parecidos, além de muita atenção com a higiene e uso de equipamentos de proteção, como máscaras e luvas.

“A gente precisa se cuidar porque a saúde é fundamental na vida da gente. Não basta sobreviver, a gente tem que buscar qualidade de vida. Você buscar a saúde é uma forma de gratidão. Um abraço a equipe de saúde que tá sempre na linha de frente”, afirma o agricultor aposentado João Batista Coura.

Fonte: Globo Rural

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