Café fumegante cede espaço às versões geladas

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Para muitos brasileiros, ser recebido com uma xícara de café frio ainda é sinônimo de desfeita. Afinal, o cafezinho tradicional é aquele que chega às mãos do convidado fumegante. “Frio, não anima ninguém”, diz o provérbio popular. Mas, verdade seja dita, devagar essa história vem mudando. Diante das altas temperaturas do verão, muita gente vem descobrindo que bebidas cafeinadas servidas geladas descem muito bem, obrigado.

Embora frise que o café gelado e as bebidas servidas geladas que levam café ainda não sejam habitués no cotidiano do brasileiro, o barista Felipe Brazza, sócio do Café das Amoras, reconhece que há cada vez mais gente disposta a experimentar drinks que, na verdade, nem são exatamente uma novidade. “As pessoas estão experimentando mais – e gostando. O sabor agrada muito, e é uma quebra de paradigma”.

Se considerarmos que no ano passado o Brasil se tornou o campeão no consumo da bebida, somando estimadas 839 xícaras de café/pessoa consumidas ao longo dos 12 meses, fica claro que o grão está presente nos mais diversos lares brasileiros. E na medida em que avança no gosto popular, a bebida servida gelada também ganha novas caras e combinações – em BH, é fácil encontrar até casamentos improváveis, como café, água de coco e açaí.

Quem garante que o consumo dos drinks vem arrebanhando adeptos é Bruno Taunay, sócio-fundador da instigante cafeteria Copo Café. “Na verdade, a gente completou um ano em novembro. E, experimentando combinações, descobrimos o quão sazonal o café pode ser”, garante ele. É que, com a mudança dos ares e o calor tropical que acompanha o verão, “a procura pelos cafés gelados aumenta muito, ao ponto de a gente ter dificuldades em produzir gelo”. Essa dificuldade se explica em razão do tamanho da cafeteria, adianta Taunay: com 2,3 m², “ela é minúscula, a menor do mundo… Até que se prove o contrário”, brinca.

E é lá, neste pequeno balcão no coração da Savassi, que o consumidor encontra, entre outras possibilidades, a Açaína, a mistura de expresso, água de coco e açaí citada. O amálgama inusitado tem agradado à freguesia, garante ele. A aposta é justamente na surpresa. “Noto que, quando se fala em um café gelado, a tendência é que as pessoas ainda se assustem. Apesar disso, ficam curiosas e acabam querendo experimentar”, diz Taunay.

Pequena, sim, mas não exatamente discreta, a charmosa minicafeteria serve uma média de 1.500 copos de café por mês. E Taunay acredita que a saída de bebidas frias tende a aumentar. Hoje, mesmo sob sol escaldante, ainda são os copos quentes que têm mais saída – mas os frios vêm conquistando adeptos. Antes de inaugurar o empreendimento, Taunay circulou pelos EUA e pela Europa. Nestes lugares, descobriu todo um universo a ser explorado em matéria de sabores. Por isso, recentemente adquiriu uma máquina com cara de chopeira. De suas torneiras saem o cold brew, bebida que extraí o café a frio e que conquistou o paladar do mundo – e, desde 2014, do Brasil. “Vejo que as cafeterias precisam ter esse clique: quando vira a estação, mudar o que é servido e partir do café para preparar outras bebidas. Já tem um tempo que nós, baristas, estamos buscando essas experimentações”, comenta Brazza, que, além do Café das Amoras, também é sócio da Copo Café.

Já há algum tempo, o cold brew também já é uma aposta no Coffee & Joy. “É uma ótima opção para quem procura praticidade no dia a dia ou mesmo formas de refrescar, aproveitando o sabor e a energia dos cafés especiais”, afiança Débora Azevedo Reis, cofundadora, referindo-se ao fato de a bebida poder ser feita em grande quantidade, já que dura até sete dias na geladeira. Para efeito de explicação, o cold brew é um café extraído a frio, que não precisa de água quente. “Consiste em, basicamente, juntar o café e a água em uma garrafa, que ficará em infusão por 12 a 18 horas. É bem simples de fazer. O segredo está em usar grãos de café de qualidade na moagem grossa e deixar descansar por algumas horas na geladeira”, explica Débora. “Fica bem saboroso e com textura licorosa, parecendo um uísque”, acrescenta. Ela adverte que o café, quando gelado, potencializa as suas características “boas e ruins”. Por isso, volta à questão de usar grãos de qualidade, “para realçar notas frutadas, por exemplo, encontradas em cafés especiais”. Débora destaca que, em alguns países, é possível encontrar, em supermercados, a mistura já pronta para tomar. “No Brasil, na verdade, desde o fim de 2014 já vem se falando mais do consumo dela, e a expectativa deste verão é que ganhe ainda mais destaque, pela sua versatilidade, sabor e pelos benefícios para a saúde”.

Débora Azevedo Reis lembra que “o café é um estimulante natural, antioxidante, com poucas calorias e que acelera o metabolismo”. “Por isso, a receita pode ser até uma opção de pré-treino”. No Coffee & Joy, a procura maior recai sobre os cafés mais frutados e com maior acidez, como o Príncipe de Ouro e o Aurora Boreal. Pronto, o cold brew pode ser base de misturas que levam água tônica, limão e até caldo de cana, “que transformam o drink e o deixam ainda mais interessante”.

Saiba mais

O cold brew, lembra Débora, vem ganhando força no Brasil principalmente por conta da nova onda de consumo de cafés especiais. Uma outra particularidade é que o café extraído e coado a frio tende a ficar menos ácido, portanto, é indicado a quem tem problemas com a bebida em sua forma tradicional (quente) por esse motivo. Não bastasse, contém menos cafeína. Bem, para além da extração a frio, o café preparado nos moldes tradicionais é usado, depois de resfriado, em sorvetes, shakes, frappuccinos, doces (como o tiramisù) etc.

Aprenda como fazer o cold brew, bem como uma receita tropical bem fácil

COLD BREW TRADICIONAL*
Ingredientes
10 g café especial
100 mL de água mineral ou filtrada
Como preparar
Moa o café (em moagem grossa). Em uma garrafa, junte o café com a água gelada. Feche com a própria tampa, se tiver, ou com plástico filme ou papel-alumínio. Misture bem e deixe na geladeira por 12 a 18 horas. Coe todo o líquido em filtro de papel. Se preferir, utilize equipamentos específicos para cold brew ou separe na própria prensa francesa. Prontinho!

COLD BREW PIÑA COLADA

200 mL de cold brew
1 rodela de abacaxi picado em cubos
2 a 3 colheres de leite de coco
Gelo a gosto
Como preparar
Aperte o abacaxi com uma colher para soltar o suco. Adicione os demais ingredientes, menos o leite de coco, que deve ser adicionado devagar, por cima, para ficar na superfície. Veja as cores e os sabores se misturarem!

*Receitas elaboradas pela barista Débora Azevedo Reis junto a Aline Carbonera, assinante do clube de cafés especiais Coffee & Joy

Com açúcar, com afeto… e com gelo a gosto

COM LIMÃO/LARANJA

200mL de cold brew
2 rodelas de limão (tahiti ou siciliano) ou laranja
Gelo a gosto
Como preparar
Adicione tudo em um copo!

COM ALECRIM

200 mL de cold brew
2 rodelas de limão ou laranja
1 raminho de alecrim
Gelo a gosto
Como preparar
Em um copo, adicione gelo e o cold brew. Em seguida, o limão ou laranja e um ramo de alecrim.

COM CALDO DE CANA
100 mL de cold brew
100 mL de caldo de cana
2 rodelas de limão
Gelo a gosto
Como Preparar
Coloque o caldo de cana, o limão e o gelo em um copo de boca larga. Adicione lentamente o cold brew, em cima do gelo, para separar os líquidos.

COM TÔNICA

150 mL de cold brew
150 mL de água tônica gelada
2 rodelas de limão
2 folhas de hortelã
Gelo a gosto
Como preparar
Amasse as folhas do hortelã e coloque no fundo do copo ou taça. Coloque a água tônica, o limão e o gelo. Adicione lentamente o cold brew, mirando em cima de uma pedra de gelo, para dar o efeito bicolor e separar os líquidos.

*Receitas Coffee & Joy

Açaína

A bebida gelada à base de café criada pelo Copo Café tem como ponto de partida o café espresso. Na sequência, acrescenta-se o açaí e água de coco, já gelados.

Para quem quiser se aventurar e reproduzir a receita em casa, a dica é ir adicionando os últimos dois ingredientes aos poucos, de modo a dosar a quantidade conforme o gosto.

Novidade, não é, mas a febre do consumo, sim

Embora possa soar como novidade, o cold<CW3> brew, na verdade, é um modo de preparo secular. Há registros desse tipo de extração no Japão por volta do século XVII. Mas parece ter sido da Guatemala que a bebida oriunda desse método ampliou seus horizontes: consta que o engenheiro químico Todd Simpson provou a infusão durante uma passagem pelo país e, extasiado que só, resolveu replicar o resultado – não por outro motivo, a máquina mais conhecida para essa extração é a Toddy, que é comercializada em vários sites, a preços acessíveis.

Embora o gosto do cold brew seja apontado como amargo, ainda que com notas similares ao caramelo, a infusão, vale ressaltar mais uma vez, é usada como a base da bebida – ou seja, são os demais ingredientes (e a quantidade desses) que vão direcionar o sabor para o ponto desejado pelo consumidor.

Já há algum tempo, redes poderosas como a Starbucks passaram a comercializar opções de bebidas à base do cold brew em alguns países. Na verdade, foi nos Estados Unidos que a febre recente começou, há coisa de uma década. Há quatro anos, a moda desembarcou com tudo no Reino Unido, e de lá vem espraiando-se por outros países do continente. No Brasil, vem ganhando cada vez mais terreno. O clima, vamos combinar, propicia.
Abaixo, alguns dos vários locais da cidade onde o café gelado também é vedete no cardápio…

Academia do Café. Rua Grão Pará, 1024, Funcionários. (31) 3223-8565.
Rua Antonio de Albuquerque, 749, Savassi. (31) 3789-1385

Oop Café. Rua Fernandes Tourinho, 143, Funcionários. (31) 3786-7888

Copo Café. Rua Antônio de Albuquerque, 626, Funcionários.

Café Juarez. Rua Álvares Maciel, 379, Santa Efigênia. (31) 3564-2855

Slow Coffee. Rua Sena Madureira, 88, Ouro Preto, Pampulha.
(31) 3498-3502

Fonte: O Tempo (Por Alex Bessas e Patrícia Cassese)

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