Até o café irrigado do Sul de Minas sofreu com a seca

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A seca e o calor dos primeiros meses afetaram o café arábica irrigado no Sul de Minas, mas as perdas são menores que as apuradas em plantações não irrigadas da região. Na fazenda do Café Gourmet Santa Monica, localizada entre os municípios de Machado e Serrania, o percentual de grãos chochos (malformados) é de 10% nesta temporada 2014/15.

O tamanho dos grãos também deverá ser menor, mas Arthur Moscofian Jr., fundador e diretor da empresa, ainda não sabe qual será o percentual de grãos de "peneira mais baixa", os menores da safra. Com 89 hectares em produção, a fazenda Santa Monica cultiva cafés especiais (cereja natural) das variedades Catuaí e Mundo Novo. A colheita é mecanizada e toda a produção é fertirrigada.

Mesmo com a fertirrigação, o forte calor registrado no início do ano aumentou tanto a perda de água do solo por evaporação quanto a perda de água da planta por transpiração. Este ano, cada pé de café da fazenda deverá render de 5 a 10 litros de café, mas no próximo ano esse rendimento poderá subir para 20 a 25 litros. Moscofian Jr. não revela, contudo, o volume estimado para a colheita deste ano, que deverá terminar em setembro. No ciclo 2013/14, a produção foi de 5,3 mil sacas, e a projeção para 2015/16 é de 8 mil sacas.

Na fazenda Santa Monica, os galhos estão com entre sete e nove internódios (onde vão nascer os botões florais que darão origem aos frutos no próximo ano). Em uma fazenda vizinha, que não usa irrigação, aparecem apenas três internódios, mostrou Moscofian Jr., durante visita no início deste mês.

Todavia, na avaliação do diretor do Café Santa Monica, os problemas resultantes do clima desfavorável, este ano, como os grãos chochos, não deverão representar prejuízo para a empresa, que industrializa cerca de 60% da produção. "Vai tirar parte do lucro, mas não terá prejuízo", afirma ele.

O sistema de fertirrigação e manejo, como a "safra zero" – podas laterais e superiores que aumentam a produção de ramos laterais das plantas e, consequentemente, a de grãos -, possibilitam um maior percentual de cafés especiais em uma colheita. Esse índice pode chegar a 80%, ante os usuais 20% a 30% da produção de uma fazenda, conforme Moscofian Jr.

Nas fazendas da Ipanema Coffees na região de Alfenas, também no Sul mineiro, as perdas estão estimadas em 15% a 20% da safra projetada para este ano, que deverá totalizar cerca de 65 mil sacas.

Na temporada 2013/14, quando o ciclo do arábica das fazendas da empresa foi de bienalidade positiva (quando o rendimento é normalmente maior do que na colheita anterior), a produção da empresa totalizou 125 mil sacas, diz Washington Rodrigues, presidente da Ipanema. Segundo ele, para esta safra já era esperada uma redução de cerca de 25% a 30% em função da bienalidade – que é invertida em relação ao restante do país -, mas haverá uma perda ainda maior no rendimento em função da seca.

Cerca de 40% das áreas da Ipanema, que também produzem cafés especiais principalmente para exportação, são irrigadas. A expectativa é atingir 70% até 2017/18. Conforme Rodrigues, em função da seca e do calor que provocaram a "escaldadura" das plantas – quando elas queimam em função da luz e das temperaturas -, haverá um grande volume de café de menor tamanho (peneiras 13 e 14). As peneiras altas (17 e 18) deverão representar menos de 20% da safra, ante o percentual usual 40% verificado nas propriedades da companhia. Isso representa queda do preço do produto, já que os grãos maiores são mais caros.

"Há uma conjugação de pequenas perdas. Mas, quando somadas, o impacto para os produtores da região está sendo muito forte", diz Rodrigues. Apesar disso, o presidente da Ipanema Coffees também considera que a companhia não deverá registrar perda de rentabilidade, já que muitos contratos foram firmados com preços favoráveis – quando "bateram" os US$ 2 por libra-peso este ano na bolsa de Nova York -, embora o volume disponível para exportação seja cerca de 15% menor. "Se estivesse melhor [mais volume], o preço seria outro", afirma.

José Braz Matiello, consultor e pesquisador da Fundação Procafé, visitou recentemente algumas regiões produtoras de café do país, como o Sul de Minas, e diz que em algumas áreas não haverá produção de grãos mais graúdos (peneira 17 ou mais), quando o percentual de colheita desse tipo de produto normalmente fica em torno de 15%.

Com grãos menores e mais leves, será preciso maior quantidade para formar uma saca de 60 quilos. Já se fala que serão necessários de 600 a 700 litros para completar uma saca do grão, ante uma média usual de 450 a 500 litros. O número perfaz uma média de cerca de 30% de queda na produção – o percentual estimado pela Procafé para o Sul de Minas em geral.

O percentual de grãos chochos varia de 15% a 20%, observa o pesquisador, quando o índice usual é de 5%, e eles podem ser resultado de problemas na fecundação ou deficiência de nutrientes. Mas em algumas lavouras do Sul de Minas, o índice alcançou expressivos 90%, de acordo com Matiello (Valor, 20/6/14)

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