ABIC: Concentração no mercado de café deve prosseguir

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O diretor executivo da Associação Brasileira da Indústria de Café (Abic), Nathan Herszkowicz, prevê que o movimento de concentração do setor de torrado e moído deve continuar em 2010, principalmente entre as empresas melhor posicionadas no mercado. "Podemos esperar continuidade do processo de consolidação do setor, com aquisições entre as empresas", afirma.

Com a expectativa de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB), aguarda-se também uma elevação da renda da população e o consequente aumento do consumo. Por isso, a Abic tem esperança de manter o ritmo de crescimento de 6%, como constatado preliminarmente em 2009, "dentro do cenário de forçada mudança do perfil do negócio, tentando alternativas de lucratividade".

A Abic estima que o Brasil deverá alcançar os Estados Unidos em 2012 como maior consumidor mundial de café, totalizando 21 milhões de sacas. Por outro lado, a exportação de café torrado e moído, de maior valor agregado, custa a deslanchar.

Em 2009, conforme dados da Abic, o resultado em termos de receita foi cerca de 20% inferior ao ano anterior. As indústrias faturaram cerca de US$ 30 milhões, em comparação aos US$ 35,6 milhões de 2008. Conforme Nathan, a redução é reflexo da crise no principal mercado, os Estados Unidos.

"Com a crise, a primeira reação nos Estados Unidos foi a redução da importação e consumo dos estoques." No fim do primeiro semestre, as vendas se recuperaram, mas não a tempo de reverter o desempenho negativo no ano.

O executivo da Abic salienta que uma nova estratégia foi adotada em 2009, primeiramente no Chile. "A idéia foi inserir a indústria de torrado e moído no canal da alta gastronomia, em vez da rede varejista. O trabalho pode ser considerado bem sucedido."

Em 2010, a proposta é testar outros mercados, como o Uruguai, numa parceria com a Agência de Promoção de Exportações (Apex). Com essa iniciativa e esperando a retomada de mercados tradicionais, a expectativa é de que o setor volte a apresentar os resultados de 2008.

Liberar importação

A Abic considera, ainda, que é fundamental o governo liberar a importação de café, pelo regime de draw back (importação de matéria-prima para reexportação de produto com maior valor agregado). "Isso poderia alavancar a demanda no exterior", diz Nathan.

Essa também é uma antiga reivindicação da indústria de solúvel. A indústria estima que, para atender a demanda, seria necessária a importação de cerca de 200 mil sacas de 60 kg, o que corresponde a menos de 0,5% da safra média brasileira.

De acordo com a Abic, não há risco para o produtor, por causa do baixo volume importado. Nathan afastou, ainda, riscos sanitários, que seriam eliminados pelo trabalho técnico do próprio Ministério da Agricultura. A impossibilidade de se realizar operações de draw back, mesmo que restrito e controlado, "prejudica o resultado da exportação da indústria nacional", afirma ele.

Safra deste ano está prejudicada

O clima é uma preocupação para o setor cafeeiro em 2010. O excesso de chuvas no segundo semestre de 2009 comprometeu a formação dos brotos florais nos cafezais e o resultado foram floradas irregulares com baixo "pegamento" dos frutos.

"A safra deste ano é cheia, mas pode não ser tão exuberante como se imaginava inicialmente", diz o especialista Celso Luis Vegro, do Instituto de Economia Agrícola (IEA), da Secretaria de Agricultura e Abastecimento de São Paulo.

"A safra 2010/11 deverá ser trabalhosa, custosa e a qualidade talvez seja até inferior à deste ano, que já não foi boa por causa das chuvas durante a época de colheita", avalia o pesquisador.

O presidente do Conselho Nacional do Café (CNC), Gilson Ximenes, endossa que a cafeicultura deve ter dificuldades em 2010. De acordo com ele, o produtor está descapitalizado, sem condições de tratar a lavoura. "O excesso de chuva provocou floradas irregulares, o que deve reduzir a próxima safra, apesar de cheia."

Mercado

Em relação às perspectivas de comercialização, Vegro diz que regiões tradicionais consumidoras – Estados Unidos, Japão e União Européia – ainda não se recuperaram totalmente da crise financeira de 2008.

O desemprego provocou a descapitalização das famílias, o que, na avaliação de Vegro, deve levar a uma mudança no hábito de consumo, que tende a se voltar para marcas mais baratas. A consequência é "a redução do valor agregado pela cadeia", explica o especialista.

Nos últimos cinco anos a saca de 60 kg de café tem sido cotada entre R$ 250/R$ 260, quando o ideal, em termos de rentabilidade para o setor, seria preço acima de R$ 300. De acordo com Vegro, é possível que a cotação alcance R$ 300 ainda no primeiro trimestre de 2010, mas não deve se sustentar, em virtude da entrada da safra brasileira no mercado.

Apesar do efeito perverso das baixas cotações, Vegro salienta que a cafeicultura está em momento crucial para discutir o modelo produtivo. "Talvez fosse a hora de se adotar maciçamente tecnologias agronômicas já disponíveis, como adensamento e colheita mecanizada." 

* Tomas Okuda

Fonte: Agência Estado 

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