O jogo do quente-e-frio continua na zona do Euro, trazendo reflexo imediato aos mercados de risco ao redor do mundo.
A semana começou com a Alemanha dizendo que uma solução para a crise de débito soberano da União Européia está longe de ser resolvida – nada de novo até aqui – entretanto como os otimistas têm comprado os mercados apostando em uma recuperação, a reação foi negativa com um recuo das bolsas.
Dizem que um otimista nada mais é do que um pessimista mal informado…
A agência de risco Moody’s alertou a França sobre uma eventual diminuição na nota da dívida do país, que neste instante está no topo. Os bancos franceses, principais financiadores dos mercados de commodities no mundo, são os que estão mais expostos à crise do sul da Europa, e com um possível aumento de reserva de capital (entre outros motivos), muitos estão colocando à venda parte dos seus ativos, incluindo aí o departamento de commodities – o que não ajuda em nada o Brasil e prejudica muito a África e Oriente Médio.
Medidas inócuas foram aprovadas pelo CFTC (órgão que regula os mercados futuros americanos) para imposição de limites aos fundos de investimento. A pressão é mais política do que técnica, dada a falta de prova do efeito perverso sugerido pelos democratas, e da incapacidade de supervisão do órgão no mercado de balcão, que pode voar para fora do território americano.
Por fim uma nova onda de ânimo fechou a semana com o início da reunião de seis dias dos principais líderes da Europa, e rumores circulando sobre um novo mecanismo de 500 bilhões de Euros que pode ser acrescido ao atual plano de estabilização (EFSF) que tem 440 bilhões de Euros.
As bolsas de ações subiram pela terceira semana consecutiva nos Estados Unidos, enquanto na Europa as performances foram mistas e na Ásia negativas com um crescimento menor anunciado pela China.
Os principais índices de commodities cederam nos últimos cinco dias, entretanto o café em Nova Iorque conseguiu fechar com ganhos depois da forte alta na sexta-feira.
Chuvas fortes, e praticamente ininterruptas na região produtora de cafés-suaves da América Latina parecem não apenas terem afetado a questão de infraestrutura como também estarem provocando perdas (que alguns estimam poder atingir até 1 milhão de sacas de 60 quilos). Para causar ainda mais ansiedade aos que precisam colocar compras nos livros, no Vietnã o tempo úmido tem causado transtornos e demora no fluxo de café, ainda que não se fale em perdas por ora.
Com o atraso na entrada da safra-nova dos produtores das regiões mencionadas acima, e com a manutenção dos diferenciais do café brasileiro em níveis historicamente altos, os certificados da ICE voltam a atrair mais interesse e com isso caíram quase 80 mil sacas desde o nosso último comentário. Em tempo o estoque está no menor patamar desde 15 de março de 2000. Os estoques da LIFFE também caíram 293 mil sacas entre os dias 3 e 17 de outubro, mas ainda há 5.84 milhões de sacas disponíveis.
Agências de notícias têm divulgado opiniões de cooperativas brasileiras e analistas que apontam uma florada espetacular, e algumas estimativas de que a produção para a safra 12/13 possa ser entre 57 e 65 milhões de sacas. Enquanto isso na Ásia a expectativa é que o Vietnã produza mais de 22 milhões de sacas do grão. Do outro lado da equação a demanda parece estar se recuperando, algo esperado com a chegada do frio no hemisfério Norte.
Ainda que safras grandes se confirmem para as duas principais origens produtoras, não há um sentimento de tranquilidade em termos de abastecimento. Prova disto é o maior torrador do mundo dizer que os preços do café devem continuar altos, e preocupados com o abastecimento no longo-prazo prometem distribuir mudas de café conillon no Espírito Santo – algo que já é feito em outros países produtores.
Em resumo, continuaremos vendo o café ser influenciado pelo movimento macroeconômico, e uma alteração forte do dólar pode sem dúvida evitar uma continuação da alta. Porém o quadro fundamental está em equilíbrio, e embora as perspectivas de safras tenham aumentado, não há uma folga confortável para acreditarmos em quedas abaixo de US$ 220 centavos por libra em Nova Iorque.
Uma ótima semana e muito bons negócios para todos,
* Rodrigo Corrêa da Costa escreve este relatório sobre café semanalmente como colaborador da Archer Consulting
Fonte: Archer Consulting

