Equador: a última fronteira do café sul-americano?

De todos os países sul-americanos que produzem café, o Equador talvez seja aquele cuja produção ainda é subestimada. O país está encurralado entre tradicionais produtores, como a Colômbia ao norte e o Peru ao sul, além da cordilheira dos andes e da floresta amazônica.

Origens como El Salvador e Ruanda são bem conhecidas, principalmente no mundo dos cafés especiais, e o país andino chega a produzir cerca de 50% a mais do que El Salvador e três vezes mais do que Ruanda, segundo dados da Organização Internacional do Café (OIC).

Além disso, é um dos poucos países com produções viáveis e funcionais de arábica e de robusta. A produção anual gira em torno de 700 mil sacas, o que coloca os equatorianos em um honroso posto entre os vinte maiores produtores de café do mundo. Se considerarmos apenas os países produtores de arábica e de robusta, o Equador sai com um ainda mais honroso posto de oitavo maior produtor do mundo. 

Mas como é possível um país ter uma produção tão diversa? Ou ainda, como é possível que a maioria do público leigo, e até mesmo boa parte do público especializado do café, não conheça muito bem esta origem? Existe café de qualidade por lá? Estas três perguntas não são tão simples de responder, e envolvem fatores diversos como a geografia, a economia e, até mesmo, a criminalidade do país. 

Comecemos pela da diversidade da produção. O Equador tem três zonas geográficas bem definidas: litoral, serra e costa. No litoral está Guayaquil, a cidade mais rica e populosa. Esta região costeira tem clima tropical parecido com o das regiões costeiras do Brasil e abriga o porto mais importante do Pacífico equatoriano. Além disso, o terreno na zona costeira é relativamente plano e de fácil manejo. Portanto, a produção do café robusta em larga escala pode prosperar, apesar da enorme tradição regional no cultivo de frutas e, principalmente, do cacau, do qual o país é o maior produtor mundial, com nada menos do que o dobro da produção brasileira. Também, as regiões amazônicas equatorianas contam com produção de robusta, restando ao arábica as zonas serranas que cortam ao país no sentido norte-sul.

A maioria do público entusiasta de café não conhece o Equador justamente pela proximidade do país com seus vizinhos e pela estrutura do mercado de café local. Com fronteiras extensas e muitas vezes tomadas por serras e florestas, o tráfico de café do Equador para a Colômbia e o Peru acontece de maneira exacerbada. E, ainda, as torrefações locais não têm condições de competir com as empresas colombianas. Assim, o consumidor equatoriano acaba tomando seu próprio café torrado e empacotado na Colômbia ou, até mesmo, no Peru. 

Além disso, o conhecimento de cafés especiais tanto por parte dos consumidores como dos produtores é limitado, o que dificulta o desenvolvimento da cadeia de especialidade. A única exceção acaba sendo, de certa maneira, o café solúvel, que tem no Equador uma indústria organizada e capaz de atender as demandas internas e, até mesmo, exportadora.

Por último, vale dizer que o terroir equatoriano não difere, em larga medida, do colombiano nem do peruano. Portanto, o país tem um enorme potencial de produção e de consumo de cafés especiais. Além do mais, o país tem um diferencial para a comercialização de cafés especiais de dar inveja a qualquer outro produtor: o café produzido nas Ilhas Galápagos. Isso tudo sem falar da complexa cadeia de vulcões espalhada pelo país e que oferece solos ricos e experiências complementares no consumo do café.

Mesmo que o país ainda tenha um longo caminho a percorrer para melhorar a qualidade dos seus grãos, já se pode notar algumas marcas tentando elevar o nível do produto ofertado e algumas cafeterias especializadas surgindo por Quito, a capital do país, que tem 1,8 milhões de habitantes – dez por cento da população equatoriana. 

De suma importância para o desenvolvimento da cafeicultura local é a demografia equatoriana, que conta com uma população jovem, cada vez mais urbana e vivendo em uma economia dolarizada. Se, por um lado, o jovem urbano está mais interessado pelo consumo da bebida, ele acaba fazendo falta no trabalho do campo e na sucessão rural. A questão da economia dolarizada acaba influenciando, e muito, os hábitos de consumo do país – nem sempre de modo positivo. Mas este seria um tema para uma próxima coluna.

Fonte: CaféPoint