Clima seco enfim favorece colheita de café no Brasil, mas trabalhos seguem atrasados na reta final

O mercado internacional de café segue atento à evolução da colheita da safra brasileira 2026/27, que transcorre com atraso desde o início. As chuvas fora de época causadas pelo fenômeno El Niño prejudicaram o andamento da colheita, a secagem e o beneficiamento dos grãos, afetando a qualidade também dos grãos. Porém, o clima está mais favorável agora na reta final dos trabalhos.

Os trabalhos de colheita no Brasil ganharam ritmo na última semana, beneficiados pelo predomínio do tempo seco. Levantamento da Safras & Mercado indica que, até 5 de agosto, 84% da safra brasileira de café 2026/27 havia sido colhida. O percentual representa um avanço de 6 pontos percentuais em relação à semana anterior. Apesar do bom progresso, a colheita continua atrasada, abaixo dos 94% registrados no mesmo período de 2025 e também da média dos últimos cinco anos (2021–2025), de 90%.

A colheita do café canéfora (conilon/robusta) está praticamente concluída, alcançando 99% da produção. O percentual colhido está em linha com o observado no mesmo período do ano passado e acima da média dos últimos cinco anos, de 98%

A colheita do arábica avançou de forma expressiva na última semana, favorecida pelas condições climáticas mais secas, alcançando 77% da produção. Ainda assim, o ritmo permanece significativamente abaixo dos 91% registrados no mesmo período de 2025 e da média dos últimos cinco anos, de 85%.

Segundo o analista de Safras & Mercado, Gil Barabach, o movimento de preços na Bolsa de Nova York no começo de agosto reforça a guinada altista e sinaliza uma mudança importante no eixo da curva de preços. Para ele, parte dessa alta teve origem no fluxo financeiro. A rolagem das posições do contrato setembro/26 para dezembro/26 em Nova York estimulou uma intensa cobertura de posições vendidas. A liquidação dos contratos mais curtos fez com que o setembro/26 registrasse desempenho superior aos demais vencimentos, ampliando o spread negativo entre as posições e intensificando a inversão da curva (backwardation). O rompimento de importantes resistências técnicas também atraiu novas compras e reforçou o movimento de alta, indica Barabach.

Além disso, a contínua queda nos estoques certificados em NY, nos níveis mais baixos em dois anos e meio, sinaliza um aperto na oferta no curto prazo. “A pouca disponibilidade em bolsa mantém os operadores muito mais sensíveis a qualquer risco relacionado ao abastecimento. Esse sentimento cresce principalmente nos períodos de vencimento de contratos futuros e de opções, devido à liquidação dos contratos. Vale lembrar que as opções do contrato setembro/26 vencem no próximo dia 14 de agosto. Enquanto os estoques certificados permanecerem reduzidos, esse componente financeiro deve continuar ampliando a volatilidade do mercado”, avalia o analista de Safras.

Barabach comenta ainda que os fundamentos também ganharam importância, especialmente diante da quebra de expectativas em relação à chegada do café brasileiro ao mercado. “O atraso dos trabalhos de colheita e beneficiamento retardou a entrada efetiva do café novo no mercado. Ao mesmo tempo, aumentaram as preocupações com a qualidade da safra, em função do excesso de umidade durante a colheita, da maior incidência de café de chão e da menor disponibilidade de lotes de melhor bebida e de cafés cereja descascado (semi-washed). Ou seja, além de chegar mais lentamente ao mercado, o café brasileiro também apresenta um perfil de qualidade diferente daquele projetado inicialmente”, ressalta o analista.

O analista coloca ainda que o mercado climático ganhou ainda mais protagonismo, com o fortalecimento do El Niño, que já influencia o padrão de chuvas no Brasil, com destaque ao Sul de Minas, também gerando preocupações com o desenvolvimento da próxima safra mundial, não só no Brasil, mas também em outras origens, em especial na Ásia. Essa combinação adiciona prêmio de risco climático aos preços.

Publicado por: Lessandro Carvalho