Café arborizado no Caparaó: pesquisa do Incaper mostra que árvores e café andam juntos

Plantar café debaixo de árvores parece contraintuitivo para quem passou décadas otimizando a lavoura para o máximo de sol. Mas uma pesquisa conduzida pelo Incaper em parceria com a Embrapa e a Universidade Federal do Espírito Santo no Sul-Caparaó vem demonstrando que o sistema de café arborizado tem resultados que vão além da sustentabilidade ambiental e que o mercado premium internacional está disposto a pagar por eles.

O projeto “Desempenho Agronômico e Econômico do Cafeeiro em Sistemas Arborizados” avalia a performance de cafeeiros arábica e conilon cultivados em consórcio com espécies arbóreas em Unidades de Pesquisa Participativa (UPPs) instaladas em propriedades reais de agricultores familiares nos municípios de Alegre, Ibitirama e Iúna. Os resultados preliminares foram apresentados em seminário recente, com a participação de agricultores, pesquisadores, extensionistas e professores.

O extensionista Ricardo Eugênio, coordenador do projeto, explica que os indicadores de sustentabilidade estão diretamente ligados à percepção dos próprios agricultores.

“Por meio da percepção e experiência dos agricultores familiares, conseguimos compreender os pontos críticos tecnológicos, econômicos e sociais que limitam a implantação de sistemas arborizados na região e construímos consórcios adequados”, afirma Eugênio.

Na prática, o sistema funciona assim: o café é plantado em consórcio com espécies arbóreas de múltiplo uso, como ingá, bananeira, seringueira e outras espécies nativas, que fornecem sombra parcial, proteção contra geadas e ventos, aumento da umidade do 

solo, matéria orgânica via folhagem e habitat para inimigos naturais de pragas. Os resultados observados nas UPPs incluem solo mais rico em minhocas e matéria orgânica, maior diversidade de plantas, mais umidade retida e menor necessidade de insumos externos.

“Com a visita na propriedade do produtor Júlio Celio de Mendonça, comparando com a visita do ano anterior, pude observar que o solo está enriquecendo com a cobertura morta e existe mais umidade no solo da área do sistema. Isso mostra que está aumentando a sustentabilidade do sistema”, afirma o extensionista.

O impacto na qualidade do café é um dos resultados mais relevantes para o mercado. Pesquisa realizada na região do Caparaó demonstrou que a associação de árvores com o cafeeiro melhora a qualidade sensorial da bebida em comparação com o cultivo a pleno sol. O café produzido à sombra tem menor estresse hídrico durante o desenvolvimento dos grãos, maior tempo de maturação e características sensoriais, acidez, dulçor, complexidade, que o mercado de cafés especiais e premium reconhece e remunera.

Para o arábica de altitude do Caparaó, que já tem terroir reconhecido, o sistema arborizado pode ser o diferencial adicional que eleva a pontuação na avaliação sensorial e abre portas para mercados ainda mais exigentes.

O momento para essa pesquisa chegar ao campo capixaba não poderia ser mais oportuno. O Regulamento Europeu de Desmatamento (EUDR) que entra em vigor ainda em 2026 exige que produtos como o café comprovem que não contribuíram para o desmatamento.

O café arborizado, cultivado em sistema que aumenta a biodiversidade e a cobertura vegetal da propriedade, é naturalmente mais adaptado a essa exigência. Enquanto o produtor convencional terá que demonstrar que não desmatou, o produtor que cultiva café em sistema agroflorestal demonstra que foi além, que regenerou e enriqueceu o ecossistema. É exatamente o tipo de argumento que os compradores europeus de café premium querem ouvir.

Para o cafeicultor capixaba do Sul-Caparaó, que produz arábica de altitude com identidade geográfica e crescente reputação no mercado de especialidades, o sistema arborizado representa uma convergência de interesses: mais sustentabilidade ambiental, melhor qualidade sensorial, maior resistência às mudanças climáticas e melhor posicionamento frente às exigências do mercado europeu.

A pesquisa do Incaper ainda está em fase de resultados preliminares, mas o que os agricultores que participam das UPPs já observam em suas propriedades é suficiente para justificar a atenção de quem produz café de qualidade na Serra Capixaba.

Publicado por: Stefany Sampaio / Folha Vitória