Entre perdas e conquistas, famílias produtoras revelam os desafios dos cafés especiais

Safra de 2026 frustra expectativas no Caparaó, enquanto produtores do Noroeste fluminense destacam avanços na qualidade e valorização dos grãos

A produção de cafés especiais exige investimentos, dedicação e conhecimento. No entanto, nem sempre o resultado acompanha o esforço dos cafeicultores. Em 2026, famílias produtoras da região do Caparaó enfrentam dificuldades provocadas pelo excesso de chuva durante a colheita. Ao mesmo tempo, o crescimento do mercado de cafés especiais abre oportunidades para propriedades que apostam em qualidade e inovação.

No Sítio Cordilheiras, o casal Denerval Vieira e Rosa Vieira começou o ano com expectativas positivas. As lavouras estavam carregadas e indicavam uma boa produção de arábica. Porém, dois fatores comprometeram os resultados: a maturação desuniforme dos frutos e as chuvas prolongadas entre julho e setembro.

Segundo Denerval, a irregularidade na maturação exigiu uma colheita mais lenta. Quando os frutos começaram a atingir o ponto ideal, as condições climáticas dificultaram o trabalho. Além disso, o relevo íngreme e as estradas prejudicadas pela chuva impediram o acesso a partes da lavoura.

“Tivemos perdas para café especial de mais de 50% dessa safra”, relata o produtor.

Denerval conta que, em mais de 30 anos, não se lembra de uma situação semelhante na região. Apesar das dificuldades, a família conseguiu colher pequenas quantidades dos diferentes perfis de café que comercializa. Entretanto, o volume ficou abaixo do planejado, o que frustrou os investimentos e as expectativas para o ano.

A situação também exigiu mudanças na rotina familiar. Rosa Vieira, que participa da administração do negócio, divide o tempo entre os cuidados com a casa, o atendimento aos visitantes, a preparação dos pedidos e as atividades comerciais da propriedade.

Mesmo diante das incertezas, ela procura manter o trabalho e a convivência familiar sem permitir que as dificuldades da safra dominem o cotidiano.

“É vivendo um dia de cada vez e vivendo feliz”, afirma Rosa.

A decisão do casal ganhou uma definição que resume a forma como a família enfrenta os problemas.

“Apesar da colheita difícil, decidimos sermos felizes”, afirmam Denerval e Rosa.

Inovação e novas oportunidades

Enquanto o clima desafia a produção no Caparaó, o avanço do mercado de cafés especiais também revela transformações importantes na cafeicultura regional.

Em Varre-Sai, no Noroeste do Rio de Janeiro, o casal Fidélis José de Oliveira Rodolphi e Alyne Chrysla Rodolphi desenvolve um trabalho voltado à produção de grãos de qualidade no Sítio Vai e Volta.

Fidélis pertence a uma família centenária de cafeicultores. Há 15 anos, ele trabalha com cafés especiais e investe em novas técnicas, variedades e práticas sustentáveis. Nesse período, a propriedade também estabeleceu parcerias com instituições como Sebrae, órgãos do governo estadual e entidades de pesquisa.

“Nós somos a geração que inovamos na cafeicultura. Eu cresci vendo meu avô, meu pai produzindo café, trabalhei com eles quando criança, já lidava ali no meio”, conta.

O reconhecimento desse trabalho levou o produtor à primeira edição do Arabica Coffee Festival, em Manhuaçu, Minas Gerais. Além de participar do evento, Fidélis recebeu o convite para atuar como embaixador do Prêmio Terra Brasil, representando o Rio de Janeiro.

A proximidade entre Varre-Sai, o Caparaó e a região de Manhuaçu também favorece a troca de experiências. No Sítio Vai e Volta, a implantação de um viveiro de mudas ampliou essa integração. Hoje, cafeicultores interessados em variedades voltadas à produção de grãos especiais procuram a propriedade fluminense.

Consumidor mais exigente

Para Alyne Chrysla Rodolphi, uma das principais mudanças dos últimos anos ocorreu fora das lavouras. O consumidor brasileiro passou a conhecer melhor os cafés especiais e a valorizar características que antes recebiam pouca atenção.

Ela lembra que, no início do trabalho, a família precisava explicar ao público que o café poderia apresentar doçura natural, aromas diferenciados e maior complexidade de sabores.

“Quando a gente começou, o nosso trabalho era de convencer as pessoas de que existia um café bom, um café de qualidade, que o café podia ser doce, que ele podia ter complexidade de sabores e aromas”, recorda.

Atualmente, segundo Alyne, o cenário é diferente. Os consumidores demonstram mais interesse por métodos de processamento, fermentações e novas experiências sensoriais. Por isso, alguns lotes despertam procura antes mesmo de ficarem prontos para comercialização.

A produtora também acredita que o crescimento de outras propriedades dedicadas aos cafés especiais fortalece a atividade. Afinal, quanto mais produtores investirem na qualidade, maior tende a ser a visibilidade das regiões produtoras.

As experiências das duas famílias mostram realidades que convivem na cafeicultura. De um lado, os riscos climáticos e as perdas que podem comprometer o planejamento de uma safra inteira. De outro, a inovação, a valorização do produto e a conquista de novos consumidores. Entre desafios e oportunidades, os produtores seguem construindo o futuro dos cafés especiais.

Publicado por: Kátia Quedevez e Fernanda Zandonadi | Portal Conexão Safra