O café na corda bamba: fundamentos que derrubam e seguram os preços!

Síntese do Mercado Procafé – Setembro 2026

Entre forças que derrubam e forças que seguram as cotações, o café atravessou o 3º trimestre de 2026 em delicado equilíbrio.

Fatores baixistas: A perspectiva de safra recorde no Brasil e no mundo, apontada pelo USDA e reforçada pelas revisões da StoneX e da Conab, somou-se às exportações brasileiras em níveis históricos, à iminente oferta do Vietnã, da América Central e da África, à redução das posições compradas dos fundos, levando o Arábica em Nova Iorque da máxima de 341,65 cents/lb, em agosto, para perto de 270,00 cents/lb em setembro. O dólar mais forte no exterior, após a primeira alta de juros nos EUA desde 2023, e as floradas favoráveis para 2027 também contribuíram para esse movimento.
Fatores altistas: Mesmo com a safra recorde, os estoques certificados seguem em níveis baixos, e os estoques globais de passagem devem continuar apertados ao final do ciclo 2026/27, equivalentes a menos de dois meses de consumo. Soma-se a isso o El Niño, que, com chances elevadas de atingir intensidade histórica, mantém o clima como uma ameaça constante à oferta futura, como demonstrou a recuperação dos preços provocada por apenas cinco dias de calor e estiagem no fim de setembro. Completam o quadro a perspectiva de valorização dos diferenciais dos cafés finos para o 1º semestre/2027 e a volatilidade do câmbio, influenciada pelo corte da Selic e pelo cenário eleitoral.

MENSAGEM AOS CAFEICULTORES

“O aumento da oferta, impulsionado pelo ritmo mais forte das exportações brasileiras e pela chegada da nova safra de outras origens relevantes, como Vietnã, América Central e África, segue como o principal fator de pressão sobre os preços. Ainda assim, os estoques reduzidos e o risco climático associado a um El Niño cada vez mais intenso devem manter o mercado volátil, pois, como demonstrado ao longo deste boletim, mesmo com a safra recorde os estoques de passagem continuarão curtos, e qualquer adversidade climática pode levar os agentes a embutir novamente um prêmio de risco pelo abastecimento. Volatilidade sempre traz oportunidades, a questão é: como aproveitá-las na prática? O ponto de partida é conhecer o custo de produção e as necessidades de caixa até a próxima colheita, evitando vendas às pressas em dias de queda.
A partir daí, recomenda-se organizar a comercialização em duas frentes simples. A primeira é a venda escalonada, guiada por níveis técnicos e por gatilhos definidos com antecedência: uma parcela de 30% a 40% do café restante pode ser negociada no curto prazo, aproveitando os repiques próximos às resistências de 300,00 a 305,00 cents/lb, já que exportações recordes, a safra vietnamita, o aumento dos estoques certificados e a saída dos fundos podem levar os preços a 270,00 cents/lb ou menos. Outra parcela, de 30% a 40%, pode ser vendida por metas de preço escalonadas, como R$ 1.700,00, R$ 1.800,00 e R$ 1.900,00 para um café tipo 6/7, bebida dura, capturando eventuais altas rápidas provocadas por sustos climáticos; e os 20% a 30% restantes podem ser mantidos como reserva para captura de altas mais intensas, desde que haja uma regra de saída caso Nova Iorque rompa os 270,00 cents/lb e a safra 2027 se confirme boa. A segunda frente é a segmentação por qualidade: os lotes de bebida inferior, cujos diferenciais vêm se deteriorando rapidamente, devem ser vendidos primeiro, enquanto os cafés finos, com bases em tendência de valorização, são mais indicados para a reserva ou para a venda a termo com entrega no 1º semestre/2027, que hoje permite capturar até R$ 40,00 por saca a mais. Por fim,acompanhar os fundamentos, a situação das lavouras, as cotações nas bolsas, o câmbio, definir metas em reais por saca e revisar a estratégia mensalmente são atitudes fundamentais: disciplina e vendas fracionadas protegem o resultado sem abrir mão das oportunidades trazidas pela volatilidade. Ótimos negócios a todos!

Publicado por: João Marcelo Oliveira de Aguiar | Fundação Procafé