No Dia Internacional do Café, superintendente comercial da Cooxupé analisa exportações, desafios e oportunidades para o Brasil
Maior produtor e exportador mundial de café, o Brasil tem papel no mercado global e no abastecimento global da bebida. O país tem a produção estimada em 67,6 milhões de sacas beneficiadas em 2026, alta de 19,6% em relação à safra anterior, segundo o terceiro levantamento da Companhia Nacional de Abastecimento – Conab, divulgado em 24 de setembro. Este volume, segundo a estatal, representa o maior da série histórica. A produção do tipo arábica, que corresponde a cerca de 70% do total, está estimada em 48,2 milhões de sacas, crescimento de 34,8% em comparação com 2025.
No comércio exterior, o Brasil exportou 3,8 milhões de sacas de 60 quilos em agosto, o maior volume já registrado para o mês, com crescimento de 43,2% em relação a agosto de 2025. Apesar do resultado, as exportações acumuladas de janeiro a agosto somaram 24,6 milhões de sacas, queda de 6,6% na comparação com o mesmo período do ano anterior, conforme dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC).
Por outro lado, o cenário internacional aponta para o crescimento da oferta e do consumo. Segundo o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), a produção mundial está estimada em 189,7 milhões de sacas na temporada 2026/27, alta de 6,1%. Já o consumo deve alcançar 179,7 milhões de sacas, crescimento de 3,6%, com demanda tanto em mercados tradicionais, como Europa, Estados Unidos e Brasil, quanto em países em expansão, como a China.
Diante desse cenário, o Brasil enfrenta o desafio de manter sua competitividade no mercado internacional. Além da capacidade produtiva, fatores como infraestrutura, custos logísticos, condições climáticas e exigências de sustentabilidade e rastreabilidade influenciam o comércio mundial da bebida.
No Dia Internacional do Café, celebrado em 1º de outubro, para analisar os desafios e as oportunidades para o café brasileiro, o Hub do Café entrevistou Luiz Fernando dos Reis, que está à frente da superintendência comercial da Cooxupé, cooperativa cafeeira com mais de 22 mil cooperados com produção de café arábica em mais de 370 cidades do Sul e Cerrado de Minas Gerais, Matas de Minas e média mogiana do estado de São Paulo.
O superintendente aborda o posicionamento do Brasil no mercado global, os impactos das tarifas comerciais, as novas exigências dos compradores e as perspectivas para os próximos anos.
Desafios do café brasileiro no mercado global
Hub: Em sua visão, hoje, como está o posicionamento do café brasileiro no mercado internacional?
Luiz Fernando dos Reis: O Brasil ocupa uma posição estratégica no mercado global de café pela dimensão da produção, qualidade, diversidade e confiabilidade comercial. Somos um fornecedor fundamental para o abastecimento mundial, com produtos que atendem desde os segmentos comerciais até os de maior valor agregado.
No entanto, essa posição exige investimentos contínuos em produtividade, qualidade, tecnologia e sustentabilidade. O mercado está cada vez mais exigente e precisamos preservar nossa competitividade.
O Brasil possui uma estrutura produtiva e comercial desenvolvida, com produtores, cooperativas e indústrias preparados para atender aos compradores internacionais. Na Cooxupé, mantemos relações de longo prazo com nossos clientes, baseadas na confiança, na qualidade e no compromisso com o fornecimento.
Nosso desafio é continuar como um parceiro confiável para o mercado mundial, agregar valor ao café e garantir que a competitividade também se traduza em renda e sustentabilidade para o produtor.
Hub: Quais são hoje os principais gargalos dentro do Brasil que afetam a competitividade do café brasileiro no exterior e o que precisa avançar para superá-los? No cenário internacional, quais fatores representam os maiores desafios?
LF: Destacaria três grandes desafios: produtividade e resiliência da produção, infraestrutura e logística, além dos custos envolvidos em toda a cadeia.
Na produção, as condições climáticas exigem atenção. Períodos de seca, temperaturas elevadas e irregularidades nas chuvas afetam as lavouras. Precisamos investir em tecnologia, manejo, assistência técnica e renovação dos cafezais para aumentar a eficiência produtiva de maneira economicamente sustentável.
Na infraestrutura, as distâncias entre as regiões produtoras e os portos, os custos logísticos, a disponibilidade de contêineres e a capacidade portuária influenciam nossa competitividade. Também precisamos reduzir os custos de produção, financiamento, armazenagem e comercialização.
No cenário internacional, enfrentamos a volatilidade dos preços, as variações cambiais, as condições climáticas nos países produtores e as mudanças nas políticas comerciais. A recomposição dos estoques mundiais também depende de safras favoráveis consecutivas. Uma única boa safra não é suficiente para restabelecer o equilíbrio diante de uma demanda que exige abastecimento regular.
Por isso, planejamento, gestão de risco e eficiência são fundamentais. A competitividade do café brasileiro começa na fazenda e se consolida até a entrega ao consumidor.
Sustentabilidade e rastreabilidade ganham espaço
Hub: ESG, sustentabilidade e rastreabilidade passaram a ter maior destaque no comércio internacional de café. Como essas exigências têm impactado as negociações, a competitividade e o acesso do produto brasileiro aos diferentes mercados?
LF: A sustentabilidade deixou de ser apenas um diferencial e passou a integrar as condições de acesso e permanência em determinados mercados. Os compradores querem conhecer a origem do café, as práticas adotadas nas propriedades e as garantias ambientais, sociais e econômicas.
O Brasil tem condições de atender a essas exigências, pois possui uma cafeicultura profissionalizada e uma estrutura de cooperativas capaz de oferecer suporte aos produtores.
Na Cooxupé, trabalhamos com o Protocolo de Sustentabilidade Gerações, que conecta as boas práticas dos cooperados às demandas dos consumidores. O protocolo contempla mais de 100 requisitos e conta com assistência técnica, orientação e apoio aos produtores.
O desafio é tornar essas exigências economicamente viáveis, principalmente para os pequenos e médios cafeicultores. A sustentabilidade precisa gerar eficiência, acesso a mercados e valor agregado ao café. A rastreabilidade também é fundamental para comprovar a origem e o atendimento aos requisitos dos compradores e da legislação.
A sustentabilidade envolve ainda a viabilidade financeira da propriedade, as condições de trabalho e a sucessão familiar. Nosso papel é apoiar o cooperado diante dessas exigências e transformar as boas práticas em competitividade para toda a cadeia.
Hub: Os Estados Unidos são um mercado estratégico para o café brasileiro. Desde o anúncio das tarifas adicionais em 2025 até a retirada do café dessas sobretaxas, como esse cenário afetou o fluxo das exportações? Houve mudanças nos volumes, nas negociações ou no comportamento dos compradores? Como a Cooxupé avalia hoje esse mercado?
LF: Os Estados Unidos são um mercado estratégico para o café brasileiro e o principal destino do café arábica comercializado pela Cooxupé. O país possui uma indústria torrefadora desenvolvida e depende das importações para atender à demanda interna.
Em 2025, a imposição das tarifas adicionais trouxe incertezas ao setor. A partir de agosto, as sobretaxas reduziram a competitividade do café brasileiro em relação a outros fornecedores e afetaram as negociações. O aumento dos custos de importação interferiu nas decisões de compra, nos preços e no planejamento dos estoques, com impactos reais nos embarques.
A retirada das sobretaxas sobre o café verde brasileiro, anunciada em novembro de 2025, contribuiu para normalizar o comércio e recuperar condições tarifárias mais equilibradas em relação aos concorrentes.
Para a Cooxupé, os Estados Unidos continuam sendo um mercado prioritário, com relações comerciais construídas ao longo de muitos anos. O episódio demonstrou a importância de diversificar os destinos, ampliar as alternativas comerciais e reduzir riscos, sem perder o foco nos mercados tradicionais.
Seguimos atentos às condições tarifárias, à demanda e ao comportamento dos compradores. A previsibilidade é fundamental para planejar as vendas, organizar os embarques e atender nossos clientes com segurança.
Desafios e oportunidades para os próximos anos
Hub: Olhando para os próximos anos, quais movimentos devem influenciar o comércio mundial de café? Onde estão as principais oportunidades para o Brasil ampliar sua presença internacional, ganhar competitividade e atender às novas exigências dos mercados compradores?
LF: Acredito que o comércio mundial de café será influenciado por três movimentos: as mudanças climáticas, a evolução do consumo e o aumento das exigências dos mercados compradores.
O Brasil tem um papel fundamental no abastecimento mundial, mas precisa investir continuamente em produtividade e resiliência para enfrentar os desafios climáticos. No consumo, os mercados tradicionais, como Estados Unidos e Europa, continuam relevantes, enquanto os países asiáticos apresentam oportunidades de expansão.
Também observamos uma valorização crescente da origem, da rastreabilidade e da sustentabilidade. Os compradores querem mais informações e segurança sobre os produtos que adquirem.
Vejo oportunidades para o Brasil na ampliação dos segmentos de cafés diferenciados e especiais, na diversificação dos mercados e nos investimentos em pesquisa, tecnologia, manejo e assistência técnica. Também precisamos avançar na organização dos dados da produção e na comprovação das boas práticas.
O cooperativismo tem um papel importante nesse processo, pois proporciona escala, eficiência logística, acesso à informação e maior capacidade de negociação. Na Cooxupé, entendemos que o crescimento internacional precisa caminhar junto com a valorização do cooperado. Não basta ampliar as exportações. É necessário garantir condições para que o produtor continue investindo na atividade e para que o café brasileiro mantenha sua qualidade e confiabilidade.
Hub: Como a regulamentação europeia sobre produtos livres de desmatamento (EUDR) impacta o comércio internacional de café e quais são os principais desafios para os produtores brasileiros atenderem às novas exigências?
LF: A regulamentação europeia sobre produtos livres de desmatamento representa uma mudança importante na comercialização internacional de produtos agrícolas. Para o café brasileiro, as exigências de rastreabilidade e comprovação de origem precisam ser tratadas com responsabilidade, transparência e diálogo entre os países e os diferentes elos da cadeia.
O Brasil tem condições de demonstrar a origem do seu café e o trabalho dos produtores. Entretanto, os mecanismos de implementação precisam ser claros, tecnicamente viáveis e proporcionais à realidade dos cafeicultores, especialmente os pequenos e médios.
Na Cooxupé, nosso papel é apoiar o cooperado, organizar as informações necessárias e garantir condições para que ele continue tendo acesso aos mercados internacionais.
A sustentabilidade deve ser um compromisso compartilhado entre produtores, cooperativas, indústria, governos e consumidores, de forma a conciliar a proteção ambiental, a segurança do abastecimento e a viabilidade econômica da cafeicultura.
Sucessão familiar e continuidade da cafeicultura
Hub: Recentemente, a Cooxupé anunciou um programa voltado à sucessão familiar. Qual é o principal objetivo da iniciativa e qual a importância da permanência das novas gerações no campo para a continuidade da produção e para o futuro da oferta de café brasileiro?
LF: Esse projeto, chamado Gerações do Café: Semeando um Futuro Sustentável, foi desenvolvido ao longo de mais de um ano, em parceria entre a Cooxupé e a JDE Peet’s. O objetivo é capacitar 700 jovens cafeicultores ao longo de cinco anos em temas como gestão, agricultura regenerativa, cooperativismo, liderança e inovação. Selecionamos produtores cooperados que já estão envolvidos no processo de sucessão familiar para participar de um encontro voltado à troca de conhecimentos e experiências entre as gerações.
Nosso objetivo é garantir a continuidade da cafeicultura e preservar o patrimônio construído pelas famílias ao longo dos anos. Estamos em um momento de transformação, com a chegada de uma nova geração que possui diferentes perspectivas e maior familiaridade com a tecnologia.
Ao mesmo tempo, não podemos deixar de lado a tradição e os conhecimentos que contribuíram para o desenvolvimento da cafeicultura. Queremos criar um ambiente favorável para que as duas gerações caminhem juntas, unindo experiência e inovação para garantir a continuidade da atividade no campo.
Publicado por: Hub do Café





