Cafés colhidos mais cedo apresentaram menos doçura, corpo e acidez; frutos em diferentes estágios na mesma lavoura também dificultam colheita e manejo
Frutos maduros, verdes e secos dividem espaço com botões, flores e pequenos frutos na mesma lavoura. A cena, registrada em propriedades capixabas nesta safra, mostra como a irregularidade do clima tem alterado o ciclo do café e aumentado o desafio para quem busca produzir grãos de alta qualidade.
No Centro de Cafés Especiais do Espírito Santo (Cecafes), em Venda Nova do Imigrante, as análises da safra de 2026 já mostram reflexos desse cenário. Segundo o coordenador do Cecafes, Douglas Gonzaga de Sousa, 2,4 mil amostras passaram pelo laboratório neste ano. A expectativa é chegar a aproximadamente 4 mil até dezembro.
A avaliação feita até agora aponta diferenças principalmente nos cafés que amadureceram primeiro. Segundo Gonzaga, os lotes mais precoces apresentaram menor intensidade de atributos importantes para a qualidade da bebida.
“Está faltando um pouco de doçura, de acidez e de corpo, principalmente nos cafés que chegaram até agora. Às vezes, o café apresenta um perfil interessante de fragrância e aroma, mas não entrega toda essa complexidade na xícara”, explica.
Por outro lado, os cafés mais tardios começaram a apresentar resultados melhores. Gonzaga relaciona essa diferença ao maior período de permanência dos frutos na planta e, consequentemente, ao tempo maior de formação dos grãos.
“Nos últimos meses, percebemos que os cafés mais tardios estão melhorando esses atributos. Aqueles que ficam mais tempo na planta, com um período maior de granação, estão chegando com uma complexidade sensorial maior”, afirma.
Clima bagunça ciclo da lavoura
Na lavoura, o cafeicultor Hélio Moreno, de Ibatiba, observa outro efeito do clima. Em uma mesma plantação, ele encontra cafés em diferentes fases do ciclo produtivo ao mesmo tempo.
“Você vai à lavoura e encontra chumbinho, florada caindo, florada nova, botão, fruto maduro, fruto verde e fruto seco. Isso tudo, neste ano, está influenciando demais a qualidade”, relata.
Segundo Moreno, frio, chuva e calor fora do padrão dificultam ainda mais o trabalho do produtor, principalmente na hora de definir o momento da colheita. Além disso, a presença simultânea de frutos em diferentes estágios aumenta o risco de colher cafés com graus distintos de maturação.
Gonzaga também identifica esse problema nas amostras que chegam ao Cecafes. Para ele, a irregularidade do desenvolvimento dos frutos tornou o manejo mais complexo.
“Você tem fruto maduro, fruto seco, fruto verde e agora já tem florada. É um cenário desafiador para o produtor conseguir gerir e controlar tudo isso”, afirma.
Umidade também prejudicou cafés
Além das temperaturas elevadas e da irregularidade das chuvas, a umidade trouxe dificuldades para a safra deste ano. De acordo com Gonzaga, várias amostras chegaram ao laboratório com teor de umidade acima do ideal.
Em alguns períodos, chuva, frio e elevada umidade do ar dificultaram a secagem. O problema pesa principalmente para produtores que não possuem secadores nas propriedades e dependem mais das condições naturais para concluir essa etapa.
“Chegou muito café ao laboratório com umidade um pouco acima. O produtor, em alguns momentos, não conseguiu atingir o ponto ideal. Tivemos muita chuva, muita umidade e também períodos de frio, o que dificulta o processo de secagem”, explica.
Calor pode alterar bebida
Gonzaga também relaciona parte das mudanças encontradas na xícara ao estresse sofrido pelo cafeeiro. Segundo ele, temperaturas elevadas podem alterar o funcionamento da planta e a composição química dos grãos.
“O café é uma cultura muito sensível à temperatura. Em determinados momentos, temperaturas altas podem até paralisar atividades da planta e aumentar, por exemplo, a produção de cafeína e ácido clorogênico, que podem conferir mais amargor à bebida”, explica.
Por isso, reduzir o estresse da planta pode ajudar a preservar características como doçura, corpo, aromas e sabores. Isso não significa, segundo Gonzaga, que todo produtor precise transformar a lavoura em um sistema sombreado ou agroflorestal.
Há medidas mais simples que podem ajudar a melhorar o microclima dentro da propriedade.
“O produtor pode fazer um bom manejo do solo, evitar capinar demais e deixar o solo muito exposto, manter cobertura vegetal e repor matéria orgânica quando possível. Também pode utilizar plantas nas bordaduras, como banana ou abacate, quando forem recomendadas para aquela região”, afirma.
Essas práticas ajudam a reduzir a temperatura próxima às plantas e a conservar umidade no solo. Além disso, Gonzaga destaca a importância da nutrição e do planejamento da irrigação.
“Uma planta bem nutrida e bem estruturada, dentro de uma lavoura bem cuidada, tende a sentir menos os efeitos do estresse do que uma planta já debilitada”, diz.
Para o coordenador do Cecafes, o desafio agora é adaptar o manejo a um ambiente de maior irregularidade climática. Ao melhorar as condições dentro da própria lavoura, o produtor não controla o clima, mas pode reduzir parte dos impactos sobre a planta e, consequentemente, sobre a qualidade do café que chega à xícara.
Publicado por: Portal Conexão Safra





