Risco climático se soma às perdas provocadas por pragas e à alta dos fretes, enquanto analista recomenda vendas escalonadas e proteção da receita
O possível avanço do El Niño durante a florada do café aumenta o risco de perdas na safra 2027/28 e pode trazer novas pressões para um mercado que já enfrenta redução dos estoques certificados, baixa liquidez, problemas fitossanitários e aumento dos custos logísticos.
A avaliação é do analista de mercado do agronegócio e sócio no Café Raízes, Matheus Magalhães. Segundo ele, a intensidade do fenômeno e seus efeitos sobre as regiões produtoras serão determinantes para definir o impacto sobre as lavouras e os preços. “O risco é real, sim. Nós já temos o El Niño praticamente confirmado entre o final de setembro e o final de janeiro, e ele impacta a florada”, afirma.
Magalhães explica que a abertura das flores não garante, por si só, a formação dos frutos. Depois da florada, condições adequadas de temperatura e umidade são necessárias para o vingamento. Por isso, um período de estresse hídrico ou calor excessivo pode comprometer o potencial produtivo da safra.
“Algumas regiões já estão tendo floradas, principalmente no café conilon. Mas a marcação da florada é uma coisa, e o vingamento é diferente. Se houver estresse climático nessa época, pode haver impacto na safra de 2027/28”, diz.
O analista cita como exemplo o município de Rio Bananal, no norte do Espírito Santo, onde, segundo ele, temperaturas mais baixas durante a florada de 2026 já comprometeram parte do potencial produtivo. Com a possível influência do El Niño, o comportamento das temperaturas e das chuvas volta a ser motivo de atenção.
“Temos que observar com que força o El Niño vai chegar. Como ele se mostra muito forte, pode haver uma complicação na safra de 2027/28, apesar de, até então, as perspectivas estarem boas”, afirma.
Estoques podem amenizar pressão inicial
As estimativas de uma safra nacional recorde convivem com relatos de perdas provocadas pelo clima e por pragas em diferentes regiões do Espírito Santo. Para Magalhães, porém, é necessário separar o desempenho do ciclo atual dos riscos que começam a surgir para a próxima produção.
Embora ainda exista café armazenado, o mercado apresenta baixa liquidez, especialmente no interior. No cenário internacional, a situação é mais apertada entre os cafés arábica, diante do baixo volume de estoques certificados.
“A Conab realmente projetou uma safra recorde, mas houve certa quebra. Vivemos um momento de baixíssima liquidez. Existe café nos armazéns, mas o mercado está pouco líquido. Mundialmente, temos baixos estoques certificados, principalmente de arábica”, explica.
No conilon, os estoques existentes no Brasil podem funcionar como uma reserva capaz de reduzir as pressões imediatas. Essa margem, contudo, pode diminuir caso o El Niño provoque perdas expressivas nas lavouras capixabas e mineiras.
“No momento atual, principalmente no conilon, temos certa gordura para queimar. Os armazéns estão com bastante café. Apesar da baixa liquidez, os estoques ainda existem. Mas, se a safra de 2027/28 vier muito impactada, o mercado pode ter que aumentar os preços pela falta de café”, avalia.
Geopolítica encarece logística
Os riscos para o mercado cafeeiro não se limitam ao clima. As tensões geopolíticas no Oriente Médio e em importantes rotas de navegação aumentaram os custos de seguros, contêineres e fretes marítimos.
Segundo Magalhães, o problema afeta toda a cadeia internacional e não apenas o café produzido no Espírito Santo ou embarcado pelo Porto de Vitória. Os efeitos, porém, são sentidos de maneira diferente conforme a estrutura financeira e o poder de negociação de cada empresa ou produtor.
“Existe uma sobretaxa de risco de guerra nos seguros marítimos por contêiner. Vimos os preços dos fretes e dos contêineres aumentarem drasticamente em momentos de tensão no Estreito de Ormuz ou, anteriormente, no Canal de Suez”, afirma.
A antecedência na contratação do transporte pode fazer uma diferença expressiva. Conforme o analista, empresas que conseguiram fechar os fretes antecipadamente chegaram a pagar até três vezes menos do que aquelas que contrataram o serviço próximo ao embarque.
A elevação dos custos tende a atingir com maior intensidade os agentes com menor capacidade de negociação. Grandes cooperativas e empresas conseguem diluir ou absorver parte das despesas, enquanto pequenos exportadores e produtores isolados ficam mais expostos.
“O aumento pune a todos, mas as cooperativas de grande porte conseguem absorver melhor esse custo, tanto pela margem quanto pelo poder de negociação. Sofre o café capixaba, sofre a competitividade, mas também sofrem os demais portos brasileiros e toda a cadeia marítima mundial”, observa.
Venda escalonada reduz exposição
Diante da combinação de riscos climáticos, comerciais e logísticos, Magalhães recomenda que o produtor trate separadamente o café já colhido e a produção futura. Os contratos firmados precisam ser cumpridos, enquanto o volume excedente pode ser negociado de forma escalonada, conforme os custos, as necessidades financeiras e a margem de lucro de cada propriedade.
“O que já foi colhido e está contratado tem que ser entregue. O excedente, aquilo sobre o qual o produtor tem margem para negociar, pode ser travado aos poucos, enquanto se acompanha o mercado. Mas é preciso fazer gestão de risco”, orienta.
O mercado futuro já pode incorporar um prêmio relacionado às ameaças trazidas pelo El Niño. Isso permite ao produtor fixar antecipadamente parte dos preços, sem precisar aguardar a colheita ou a confirmação das perdas.
Caso o fenômeno seja menos intenso do que o esperado, a oferta existente no interior pode limitar novas valorizações. Se os danos forem elevados, porém, os preços poderão apresentar um movimento mais forte de alta.
“O mercado pode ter uma competição positiva, dependendo do tamanho do estrago provocado pelo El Niño. Travar parte da safra diante de um risco futuro pode ser interessante”, afirma.
Gestão deve começar dentro da propriedade
Além da venda escalonada e das operações de hedge, o analista recomenda que o produtor avalie a contratação de seguro agrícola, mantenha a propriedade regularizada e busque certificações capazes de agregar valor ao café.
“O produtor só sai ganhando se deixar a postura de espectador e assumir o protagonismo, tomando decisões estratégicas e com gestão”, diz.
As certificações podem ajudar a elevar a remuneração, principalmente nas negociações com compradores internacionais. O seguro, por sua vez, reduz a exposição financeira em caso de perdas provocadas pelo clima.
“Mesmo que produza menos, quem tem boas certificações pode conseguir um ágio sobre o café na hora da venda, porque o mercado, principalmente o internacional, paga por certificação”, explica.
Para Magalhães, o produtor não pode controlar o comportamento do clima nem as tensões que interferem nos fretes internacionais, mas pode preparar a propriedade para reduzir os prejuízos e proteger sua margem.
“Quem só espera vai ter que torcer pelo clima e por um bom mercado. Quem trava preços, regulariza a documentação e toma decisões antes de o El Niño chegar faz a própria gestão de risco e fica mais bem posicionado do que aqueles que esperaram para ver o que aconteceria”, conclui.
FICC amplia debate sobre o futuro do conilon
Os desafios relacionados ao clima, à comercialização, à logística e à competitividade estarão no centro das discussões da segunda edição da Feira Internacional do Café Conilon (FICC), que será realizada entre os dias 8 e 10 de outubro de 2026, em São Mateus, no norte do Espírito Santo.
Sem retirar o conilon do centro da programação, a feira ampliará o debate para setores que influenciam a economia do norte e do extremo norte capixaba, como produção de especiarias, infraestrutura, comércio exterior, logística e atração de investimentos. A proposta acompanha a importância de São Mateus para essas cadeias produtivas.
O café conilon é a cultura de maior expressão na agricultura do município, segundo o Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper). São Mateus também concentra cerca de 35% da produção estadual de pimenta-do-reino e é conhecido como a Capital das Especiarias do Espírito Santo.
A escolha do município faz parte da proposta itinerante da FICC, que percorre cidades da área de atuação da Agência de Desenvolvimento do Turismo da Região Norte do Espírito Santo (Adetur). A mudança aproxima o evento de um dos principais polos agropecuários do estado.
“Quando a feira chega a São Mateus, ela continua tendo o conilon como sua essência, mas passa a olhar de maneira ainda mais ampla para a economia que existe ao redor dele. Café e pimenta convivem na mesma região e têm desafios e oportunidades em comum. Queremos conectar essas cadeias e discutir o desenvolvimento do norte e do extremo norte do Espírito Santo”, afirma o curador da FICC, Marcus Magalhães.
Publicado por: Fernanda Zandonadi | Conexão Safra





