Venda de café especial cresce no Japão e grão do Brasil é valorizado

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A cada dez xícaras servidas nas cafeterias do Japão, três são com café brasileiro. Segundo a Agência de Estatísticas Alfandegárias do Ministério das Finanças do país asiático, o Brasil é o principal fornecedor do produto e vem mantendo essa participação de mercado de 30% há uma década. Mas como o preço pago pelo grão sofre queda significativa – de uma média de US$ 3,9 o quilo, em 2015, para US$ 2,9 em 2018 -, o volume se mantém, mas o faturamento em dólar é cada vez menor.

Para tentar reverter essa tendência e evitar a instabilidade com a volatilidade das cotações na bolsa de Nova York, os cafeicultores brasileiros contam com o forte crescimento do segmento de cafés especiais no país asiático. A importação de grãos verdes de alta qualidade, que representava de 1% a 3% do mercado há dez anos, já responde por 11%, de acordo com dados da Associação de Cafés Especiais do Japão.

O país importou 48,9 mil toneladas de grãos finos no ano passado, por preços que variaram de US$ 3,3 a US$ 163,6 o quilo. O volume comercializado é menor, mas o faturamento é muito maior. A pesquisa da entidade indica tendências do mercado, mas não informa com precisão o preço total das importações do segmento. Isso porque muitos importadores preferem não revelar valores num nicho onde se destacam os “caçadores de cafés”, profissionais que viajam aos rincões do mundo em busca de pequenos agricultores capazes de garantir o fornecimento de grãos especiais aos exigentes consumidores japoneses dispostos a pagar até US$ 25 por uma xícara.

No produto convencional, o volume de compras é que influencia diretamente o preço. No caso dos cafés especiais, porém, a qualidade é mais valorizada, porque o comércio acontece muitas vezes por meio de leilões. Os grãos recebem pontuações que levam em conta fatores como limpeza, acidez, característica própria de sabor, além de comentários de especialistas, explica Hidekazu Odake, responsável pelo departamento de compras da Toa Coffee, uma das grandes importadoras japonesas de cafés brasileiros.

Com experiência de 20 anos no segmento, Odake passa boa parte do ano viajando por países produtores em busca de grãos especiais e visita fazendas brasileiras pelo menos uma vez por ano. Ele acredita que a adoção dos métodos de classificação por meio de impressão sensorial melhorou ainda mais o valor dos cafés finos.

Kentaro Maruyama, um dos primeiros “caçadores de café” do mundo, viaja constantemente em busca de grãos de qualidade — Foto: AP

A característica mais notável do café brasileiro de alta qualidade é a o sabor doce e suave. Comparada com os produtos da América Central e da África, a acidez é inferior, mas a doçura e a textura são excelentes, explica o especialista, que também participa como jurado do prestigioso concurso internacional da Cup of Excellence, que indica os melhores grãos do mundo.

De acordo com José Augusto Rizental, que atua há seis anos no segmento de desenvolvimento de negócios da Nucoffee, nos Estados Unidos, a demanda japonesa ajudou a influenciar as cotações no mercado de cafés especiais e hoje é referência para os produtores, principalmente quando se trata de remuneração sustentável. Nesse sentido, a grande indústria também passou a reconhecer o trabalho de grãos de alta qualidade.

Rizental descreve os caçadores de café como pessoas apaixonadas pelo trabalho, por novidades, viagens e dispostos a conhecer lugares novos e exóticos. Normalmente, são jovens com estilos próprios. Os mais experientes não buscam apenas café de qualidade, mas também regiões que tenham potencial para produzir os melhores grãos. Nesse caso, chegam a participar dos projetos de desenvolvimento das áreas de plantio. Ele acredita que a maioria trabalha para redes de cafeterias gourmet que estão crescendo e procuram um diferencial. São, principalmente, excelentes compradores de café.

O japonês Kentaro Maruyama é considerado um dos primeiros caçadores de café do mundo, e o principal responsável pela disparada das cotações dos cafés especiais. Em 2002, quando era proprietário de uma cafeteria, adotou postura arrojada e criativa. Formou um consórcio de empresários e pagou o valor recorde de US$ 28,2 pelo quilo do premiado café da fazenda mineira Água Limpa. Atualmente, não é raro o quilo do grão de alta qualidade ser vendido por US$ 220. E Maruyama cresceu. Suas nove lojas registram faturamento de cerca de US$ 18 milhões por ano, segundo estimativas.

O bom desempenho, agora, conta com a ajuda de fundos de capitalização que possibilitam contratos de compra antecipada de café. A corretora Music Securities monta cerca de cinco projetos de investimentos por ano para a rede, que variam de US$ 200 mil a US$ 500 mil. O retorno atrelado ao lucro varia de 5% a 10%, com tempo de maturação de até dez anos. Ou seja, o investidor recebe em média de 0,5% a 1% ao ano. Com os juros bancários anuais abaixo de meio por cento, o investimento é considerado atraente no Japão.

“Temos uma carteira de 100 mil clientes que fazem aplicações de pequeno porte, com cotas que variam de 25 mil yens (RS 950) a 30 mil yens (RS 1.140). Também limitamos os investimentos para que não fiquem excessivamente expostos. Geralmente nossos fundos não aceitam mais de 5 milhões de yens (RS 19 mil) por cliente. Investimentos em algumas empresas tradicionais de pequeno e médio portes, como centenários produtores de saquê, têm tanta demanda que o próprio empresário não permite que o investidor compre mais de uma cota”, explica Taichi Watanabe, executivo da Music Securities.

Com o mercado ainda em expansão, os caçadores de café japoneses não poupam esforços para garantir o fornecimento de grãos de qualidade. Visitam regiões perigosas próximas a territórios dominados por traficantes nas montanhas da Colômbia, Bolívia e Equador, e países da América Central, da África e do Sudeste Asiático com pouca estabilidade política. O risco, calculado na ponta do lápis, deve valer a pena. Afinal, os japoneses não ficam mais assustados quando veem no cardápio das melhores casas de café uma xícara por RS 100.

Fonte: Valor Econômico (Por Shinichiro Nakaba)

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