Uso de bioestimulantes contribui para reduzir perdas com geadas

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Produtores de café de Minas Gerais conseguiram reduzir prejuízos com as fortes geadas ocorridas em julho deste ano com a utilização de bioestimulantes. Trata-se de substâncias complementares aos fertilizantes tradicionais, que melhoram a carga de nutrientes das plantas, reforçando sua resistência a baixas temperaturas e também a pragas e insetos, entre outras vantagens. O frio extremo verificado no Estado deve resultar em perda de pelo menos 5%, ou 3 milhões de sacas da próxima safra de café, cuja colheita será feita entre maio e agosto do ano que vem. A estimativa é da Minasul, cooperativa de Varginha, sul mineiro.

O efeito de “queimada” provocado nas lavouras por causa da geada ocorre pelo ressecamento das plantas devido às baixas temperaturas. Os bioestimulantes atuam na estrutura molecular vegetal. O produto fortalece a membrana das células, evitando a perda de água, e consequentemente a “queimada” da plantação. Contra pragas, os bioestimulantes atuam como fortificante do sistema de autodefesa das plantas.

O cafeicultor Gilberto França, que possui 150 mil cafeeiros em Passos, sudoeste de MG, aplicou bioestimulantes em 34 mil pés para proteção contra as baixas temperaturas no inverno 2019. “Cheguei na lavoura no dia seguinte à geada e vi que as plantas não haviam queimado. Não sei se foi 100% pela atuação do produto, mas que ajudou, ajudou”, relata. O produtor utilizou a tecnologia em pés mais jovens. “Meu irmão não fez a proteção e teve parte da lavoura destruída”, acrescenta França. A aplicação do produto é feita por pulverização ou diretamente no solo, com a utilização de máquinas, no caso do café.

O engenheiro agrônomo Caio César Coimbra, da Federação da Agricultura do Estado de Minas Gerais (Faemg), afirma não haver idade específica da cultura de café para aplicação do produto. “A necessidade da planta é constante ao longo do ciclo produtivo, seja em pés mais jovens, com até seis ou sete meses, ou mais estabilizados, por volta dos três anos”, diz.

O cafeicultor José Marcos Rafael Magalhães, presidente da Minasul, com fazendas no sul de MG, afirma que a melhor técnica para comprovar a eficácia do bioestimulante é a que utiliza plantas “testemunhas”. “O cafeicultor deixa de aplicar o produto em parte delas (as testemunhas) e, depois da geada, confere os efeitos onde a proteção foi e não foi feita.” Magalhães também afirma ter conseguido bons resultados com o bioestimulante aplicado em plantas novas. “Muitos colegas não utilizaram e tiveram problemas com o frio intenso.”

Essa técnica da planta testemunha é a ideal, na opinião do engenheiro agrônomo Caio Coimbra. “Se constatado o efeito positivo, usa-se na plantação inteira. É uma dica, porque não é algo barato”, diz. Por isso ele recomenda cautela na aplicação, tanto em relação a garantir a sua eficácia quanto ao aumento do custo de produção. “É como funciona com o ser humano, no caso do uso de vitaminas. Se tomar em doses elevadas, pode sobrecarregar o organismo. Tem sempre que ver a dose recomendada e a bula do fabricante, porque cada bioestimulante tem suas características”, ressalta. Sobre o custo-benefício, a atenção deve ser em razão do preço. “O valor por litro é de aproximadamente R$ 70. Geralmente se gasta 1 litro por hectare”, afirma.

O agrônomo diz que, além de contribuir para proteger as plantas contra geadas por reforçarem o sistema imunológico das plantas, os bioestimulantes, naturais ou sintéticos, também contribuem para o cafezal se proteger de pragas e doenças. “A lavoura vai ficar mais tolerante a geadas e também a fungos e insetos, o que pode reduzir custos com a utilização de pesticidas”, afirma o técnico.

Mercado novo
O mercado de bioestimulantes no Brasil é recente. O grupo de “nutrição vegetal”, no qual o produto está incluso, movimenta cerca de R$ 6 bilhões no Brasil. No segmento, a parte de bioestimulantes contribui com R$ 1,5 bilhão a R$ 2 bilhões deste total, conforme o gerente de Desenvolvimento de Mercado da Valagro, uma das fabricantes de bioestimulantes no Brasil, Chryz Melimski Serciloto. “As primeiras empresas chegaram aqui em meados dos anos 1990. No início, houve muita resistência por parte dos produtores. Antes, o que se fazia era só aplicar fertilizantes nas lavouras”, diz.

O representante da empresa, que tem sede na Itália e fábrica em Pirassununga, interior de São Paulo, afirma que os bioestimulantes que produz têm origem natural e são derivados de extratos, por exemplo, de algas. “O produto não vai substituir o fertilizante. É um complemento que deixa as lavouras mais equilibradas nutricionalmente e inibe os efeitos prejudiciais das geadas”, explica.

Leonardo Augusto, especial para a Agência Estado

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