Turismo impulsiona café especial na Serra da Mantiqueira em Minas Gerais

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A fazenda IP, em Carmo de Minas, sul de Minas Gerais, é especial não apenas porque seus cafés são premiados, vendidos em mais de 40 países. Ao entrar pela porta principal da casa espaçosa, conseguindo ser aconchegante e ao mesmo tempo simples, bem no canto da parede à esquerda, há uma grande foto enquadrada de José Izidro Pereira e sua esposa Nazareth Dias Pereira montados em cavalos. “Eu mesmo tirei essa foto quando eu tinha 24 anos”, diz Luiz Paulo Pereira, cujos olhos se enchem de lágrimas ao ser perguntado o que sentira na década de 1970 ao fazer o retrato dos pais. Filhos de fazendeiros de café da cidade, Izidro e Nazareth deram continuidade no manejo da terra da qual hoje frutifica o Grupo Sertão. Ele morreu cedo, aos 63 anos; ela está com a saúde frágil, com 94 anos. “Em cima do café eles fizeram a vida.”

Luiz Paulo é um dos quatro sócios do grupo, que ainda possui a fazenda Sertão, uma torrefação de café, a exportadora do produto Carmo Coffes e duas cafeterias Unique, que além de servir o nobre produto, revendem-no a outras cafeterias do País. O grupo ainda planta soja, milho e trigo. A altitude de mais de 1,3 mil metros acima do nível do mar, com lavouras subindo e descendo alguns trechos de montanha, faz do café dessa região de Minas Gerais um dos melhores do mundo. “A pós-colheita também entra como um grande diferencial”, explica Luiz Paulo, que consegue colher 35 sacas por hectare.

Luiz Paulo e Hélcio Carneiro, sócios do Grupo Sertão (Foto: Selva Bizarria)

O grupo ganhou fama internacional em 2005, quando a Fazenda Sertão conquistou o prêmio “Cup of Excellence”, que promove o melhor café do mundo, obtendo uma pontuação recorde e ainda não superada. E esse prêmio se deve a uma safra de café especial colhido em um talhão com nada menos de 112 anos, contrariando a tendência de queda de produtividade e qualidade em plantas que alcançam mais de 20 anos. “É o melhor café, não é papo de pescador. É a maior pontuação de café do mundo: 95,85 pontos”, diz Luiz Paulo.

30% da produção de cafés especiais do Grupo Sertão são vendidos para a Nespresso desde 2011 (Foto: Selva Bizarria)

A nota foi concedida pela Specialty Coffee Association (SCA), que em uma escala de zero a cem, avalia dez atributos do café, como fragrância, doçura, acidez, entre outros. Um café é considerado especial quando sua nota ultrapassa os 80 pontos. Com a fama e vários outros prêmios, em 2011, as fazendas IP e Sertão iniciaram a venda de cafés especiais para a Nespresso, empresa da Nestlè pioneira nas cápsulas de café usadas em maquininhas. E esse é um mercado que está na máxima fervura, com novos concorrentes como Melitta e o Grupo CRM, dono da Kopenhagen.

A Rota do Café Especial, que recebe 200 turistas ao mês, é a aposta do Grupo Serão para elevar o consumo de café especial no Brasil (Foto: Selva Bizarria)

Café “caduco”

Segundo Luiz Paulo, 30% dos cafés especiais produzidos nas duas fazendas vão para a Nespresso. “Essa relação nos trouxe muito ânimo e conhecimento”, diz o fazendeiro, uma vez que a companhia tem um grupo de especialistas que orientam os cafeicultores com os quais negocia. “A colheita é fundamental, porque tem que colher o fruto maduro. E depois de colher maduro tem que tratar muito bem para chegar ao final para dar todas as características na xícara”, diz Guilherme Amado, gerente de café verde da Nespresso Brasil, que participa do Programa AAA da companhia, que tem metas de sustentabilidade, qualidade e produtividade.

O programa é mantido em 1,2 mil fazendas em Minas Gerais e São Paulo, com 15 agrônomos para dar suporte ao produtor. No mundo são cem mil fazendas cadastradas nesse projeto. “O Brasil é o maior fornecedor de café verde para a Nespresso”, diz Amado, que adquire das fazendas IP e Sertão cafés arábica da variedade Bourbon. “No fornecimento de café, trabalhamos com blends globais, que abastecem todo o mundo. Trabalhamos em mais de 70 países, é uma operação global. E precisamos trabalhar com nossos fornecedores para que seja um fornecimento constante, de qualidade e com uniformidade ano a ano. Essa é a maior mágica: comprar sempre da mesma região, da mesma fazenda, do mesmo produtor.”

Manter a qualidade tem sido um desafio. No ano passado, o agricultor conta que houve muita chuva no inverno, cuja temperatura na região ficou dois graus acima da média, o que provocou prejuízos. O cafezal parece ter ficado desorientado, “caduco mesmo”, diz Luiz Paulo: as plantas deram dez floradas de agosto a janeiro deste ano. O normal é uma ou duas floradas entre setembro e outubro. Isso impediu uma maior uniformidade no número de frutos maduros. São destes que provêm o mais precioso dos cafés. E, neste ano, com a continuidade da chuva, o café está fermentando no pé. “É um ano atípico na lavoura cafeeira. Jamais nós vimos isso. E não é só aqui não, é na história do café”, afirma. “Vamos torcer para não chover até setembro, nenhuma gota d’água.”

Passeios de balão são realizados na Rota do Café Especial em Carmo de Minas, decolando da Fazenda Sertão (Foto: Selva Bizarria)

Rota do Café

Um importante impulso a essas fazendas nasceu de um projeto inspirado no Vale dos Vinhedos, no Rio Grande do Sul, e do Napa Valley, na Califórnia: a Rota do Café Especial. Há sete anos, o grupo começou a convidar os clientes estrangeiros para realizar visitas à região. Com o exemplo do que ocorreu nas vinícolas do sul do país e nos Estados Unidos, o grupo abriu suas fazendas e empresas para visitação ao público leigo. Há cinco anos, o movimento era de uma van por mês. Hoje reúne 200 turistas por mês, número que pode subir em épocas de férias.

“Com as visitas ao Rio Grande do Sul e à Califórnia, vislumbramos que o turismo de experiência poderia viabilizar a cafeicultura de montanha, que é mais cara. E podemos ganhar dinheiro com turismo”, explica Hélcio Carneiro Pinto Júnior, sobrinho de Luiz Paulo e responsável pelas cafeterias Unique. “Apesar de ser um trabalho de formiguinha, o turismo educa o turista, mostra o que é café de boa qualidade. E as pessoas que conhecem podem mudar o hábito de consumo. Não tenho dúvida que o turismo agrega muito valor ao café especial.”

Não tem agência de viagem. A cafeteria Unique é a responsável pelos passeios, que podem ser contratados no site https://www.uniquecafes.com.br/c/rota-do-cafe, que saem da unidade que fica no centro de São Lourenço, cidade vizinha a Carmo de Minas. Os cafeicultores aproveitam a estrutura hoteleira de São Lourenço, conhecida pelas fontes de águas consideradas medicinais. Dentro do belíssimo Parque das Águas, além de um lago imenso e nove fontes de água, há um SPA no Centro Hidroterápico Balneário com massagens nos pés (reflexologia), pedras e banhos relaxantes cujo líquido usado é o próprio café.

“E muita gente gosta de coisas simples, como ver o pôr do sol na fazenda”, diz Hélcio Carneiro Pinto, pai de Hélcio Júnior e cunhado de Luiz Paulo. Ele, que é sócio do Grupo Sertão, explica que o projeto é mantido até hoje sem incentivo, mas em meados de maio eles receberam uma visita de técnicos do Ministério do Turismo. A expectativa é que a rota dê novos frutos. “É com a cara e com a coragem que fazemos, não tem nada de privilégio. É no suor mesmo, tem que acreditar. E a curva é ascendente.”

Nos passeios, que duram quatro horas, é possível conhecer as fazendas IP ou Sertão, o modo de produção e torrefação do café. Quem tiver sorte de visitar a fazenda IP ainda poderá ver na sala da família não apenas o quadro da matriarca, que está com 94 anos, mas também quadros de Maria Rogéria Costa Pereira, esposa de Luiz Paulo, com cenas de natureza, fazendas e… café! “Quando comecei, nunca imaginei que poderia conseguir pintar”, diz. “Quando não tinha mais onde colocar quadro, parei. Uma vez veio um moço que quis comprar um quadro por R$ 1.500. Eu falei não, deixa ele quieto aqui mesmo!” Os turistas podem ainda se deliciar com pães de queijo, goiabada, queijos e bolos em suas visitas. E, claro, cafés especiais. Na fazenda Sertão há ainda um museu na casa principal.

A Fazenda IP tem um total de 700 hectares, nos quais 146 são plantados café arábica da variedade bourbon (Foto: Selva Bizarria)

Foi Maria Rogéria que também plantou as flores da fazenda IP e dez palmeiras imperiais e outras palmeiras de leque. O topo das montanhas, que chegam a 1,4 mil metros de altura, é guardado por florestas e a água das nascentes, protegida. A cidade de Carmo de Minas é simples, mas tem seu charme. Há uma casa do início do século 20 que virou rodoviária e o antigo prédio da Pharmácia do Carmo, que se bem trabalhadas, poderiam servir para visitação de turistas. “É onde trabalhava o Zezé do Juca, é um farmacêutico que faz parte de nossa história. A vida inteira trabalhou alí, faleceu há mais de 20 anos”, diz Carneiro Pinto.

Sabor do vento

Pela Rota do Café Especial é possível ainda sobrevoar a área por meio de balões, que decolam da Fazenda Sertão, em cima do terreiro de café. As cenas da Serra da Mantiqueira, quadriculada ora por cafezais, neblina e uma exuberante floresta são belíssimas. E o balão, muitas vezes, desce em uma fazenda de café. A reportagem da Globo Rural fez o passeio e pousou na Fazenda Água Limpa, em Cristina, cidade que ganhou esse nome em homenagem à princesa Isabel, que já se hospedara por essas paragens. “Depende muito do vento, mas o balão já parou aqui quatro vezes”, diz o fazendeiro Jorge Makssur, cuja família planta café há mais de 80 anos. A fazenda produz mais café popular vendido no Brasil, mas tem uma pequena produção de café especial. A propriedade, no entanto, ainda não faz parte do projeto da Rota do Café Especial.

A decolagem ocorre em um terreiro de café na Fazenda Sertão e, invariavelmente, o pouso ocorre em outras fazendas da região (Foto: Selva Bizarria)

A água que desce da montanha nessa fazenda não é recomendada para beber. Makssur explica que há risco de contaminação com agrotóxicos e dejetos do gado. Apesar dos desafios, o sonho de Carneiro Pinto Júnior é que mais fazendeiros integrem essa rota. Mineiro é muito desconfiado e tem receio de quem pode conhecer o seu cantinho. “Acho que, futuramente, os fazendeiros locais poderão ter a consciência de abrir suas fazendas para visitação, como ocorre nas vinícolas no sul do País. Nosso sonho é que as pessoas abram a fazenda para receber as pessoas, mostrar o seu café. Tem muita fazenda legal aqui, mas as pessoas ficam um pouco desconfiadas. E nossa ideia é estruturar isso para que vire um Vale do Café, para que as pessoas possam degustar cafés diferentes.”

Fonte: Revista Globo Rural (Por Roger Marzochi – O jornalista viajou a convite da Nespresso)

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