Soluções para diluir impacto vão além da biotecnologia

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Secas e enchentes mais intensas e frequentes; mudanças na vazão dos rios; fragmentação da floresta e declínio da biodiversidade; aumento do nível do mar; maior ocorrência de temperaturas extremas, altas e baixas. A comunidade científica tem hoje mais certezas do que dúvidas sobre os riscos associados às mudanças climáticas globais em diferentes setores. "A produção agrícola saiu na frente", ressalta o pesquisador Eduardo Assad (à esq. Foto: Luis Ushirobira/Valor), ao mostrar uma bola de cristal que enfeita estante da sala, no Centro de Pesquisas Meteorológicas e Climáticas Aplicadas à Agricultura (Cepagri), da Embrapa, em Campinas (SP). "Ela ajuda a descobrir o que acontecerá com o mundo", brinca o cientista, para quem o desafio envolve tecnologia e questões de competitividade, "mas no campo da adaptação agrícola o Brasil ocupa posição de destaque no mundo".

No corredor vizinho, o cientista Hilton Silveira Pinto (à dir. Foto: Luis Ushirobira/Valor), da Universidade de Campinas (Unicamp), parceiro de Assad nas pesquisas, expõe nas paredes da sala pôsteres de nuvens negras com raios, ao lado de uma vasta coleção de credenciais dos eventos sobre aquecimento global que frequenta mundo afora. "É possível desenvolver cultivares tolerantes à temperatura elevada e à deficiência hídrica, bem como sistemas de produção mais eficientes", afirma Silveira, autor do primeiro zoneamento agrícola de riscos climáticos para suporte ao crédito rural, realizado no país, na década de 1990.

A dupla de cientistas trabalha há mais de oito anos com as condições de adaptação da agricultura a um novo cenário climático. A estratégia foi reunir cérebros e integrar as equipes em um único prédio de laboratórios, no campus da Unicamp. Há economistas, agrobiologistas, fisiologistas florestais, estatísticos e uma gama de novos profissionais demandados frente à questão do clima. No laboratório de modelagem ambiental, 240 computadores armazenam os dados dos cenários desenhados para 43 espécies cultivadas.

Em entrevista ao Valor, os dois pesquisadores aprofundam o debate sobre as reais consequências do aquecimento global na agricultura, indo além do alerta sobre a situação do país, publicado neste ano pelo relatório do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas. O último estudo computacional realizado por Assad e Silveira, a partir de recentes dados climáticos e de produção, está pronto para ser divulgado pelo Banco Mundial. A nova conta do prejuízo à agricultura causado por alterações da temperatura e da chuva confirma a estimativa anterior, anunciada em 2008, de uma perda de pelo menos R$ 7,5 bilhões em 2020.

Valor: A mudança do clima já começou de fato a preocupar o agronegócio no Brasil, atividade responsável por 30% do PIB? Como o mapa da agricultura pode ser afetado?
Eduardo Assad: Sim, o clima virou insumo. O debate começou a tomar corpo em 1988, na Universidade de São Paulo, onde foi realizado o primeiro workshop sobre o tema. Na época, havia muitas dúvidas. Nós mesmos dizíamos que nenhuma mudança estava ocorrendo, até descobrir que olhávamos para o lado errado, apenas para as chuvas. Mudamos de opinião quando descobrimos uma elevação acentuada da temperatura, desde a década de 1960. No ano 2000 começamos a fazer modelagem de cenários, simulando o que aconteceria com a produção de café, no melhor e pior dos casos, a partir de três níveis de aumento da temperatura previstos nos relatórios do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC). Pela primeira vez, descobrimos um impacto concreto, ao prever o futuro deslocamento do café para regiões mais frias. Os métodos de análise evoluíram e em 2010 aplicamos o modelo do Hadley Centre para toda a agricultura brasileira, gerando o trabalho conhecido como "A Nova Geografia da Produção".
Hilton Silveira Pinto: Sim, o mapa mudará. O Brasil é visto como um "hotspot" de aumento de temperatura, especialmente no Nordeste, onde a mandioca sofrerá sérios problemas. Fizemos nova análise do cenário futuro para dez culturas agrícolas, incorporamos produtividade e área plantada, além de dados sobre o comportamento extremo da temperatura e das chuvas, na previsão mínima e máxima, a cada década, até 2050. O objetivo foi definir o balanço hídrico das plantas, ou seja, quanto de água precisam para florescer e produzir.
Assad: Importante lembrar que cada vegetal se comporta de maneira diferente. A cana-de-açúcar não deverá ter problemas, porque ganhará espaço no Sul, mas devemos perder até 24% da soja em 2020, no cenário mais pessimista, se nada for feito. Projeções indicam que ela terá mais chances no Centro-Oeste, desde que cultivada em sistema de plantio direto, devido à redução da água. Também o milho sofre impactos do clima: na última década, foram perdidos 38 milhões de hectares por ano, US$ 5 bilhões de prejuízo.

Valor: Setor produtivo e governo têm incorporado o alerta como algo real ou ainda predomina uma certa resistência? Qual a avaliação sobre o atual ritmo da adaptação?
Assad: Acho que caiu a ficha. Tínhamos previsto perdas de R$ 7,5 bilhões para 2020. Só na última safra, de 2013, o prejuízo do agronegócio brasileiro devido a problemas climáticos atingiu R$ 10 bilhões. A recente onda de calor é exemplo dos eventos extremos previstos no nosso cenário e algumas culturas não estão adaptadas a isso. Já estamos perdendo 2,5% do PIB agrícola devido ao aquecimento global. E o ritmo da adaptação é muito lento, apesar do plano de baixo carbono já existente para o setor, com financiamento de R$ 6 bilhões neste ano. Os discursos no governo federal são conflitantes. Tivemos quatro ministros da Agricultura em quatro anos.
Silveira: Infelizmente, os políticos não entendem que existe mudança climática. Fomos criticados após os estudos prevendo o deslocamento do café de São Paulo para outras regiões.

Valor: Que espaço existe para oportunidades de negócio, nesse horizonte de riscos e perdas?
Assad: Há um campo aberto ao melhoramento genético para novos cultivares, resistentes à maior temperatura e à deficiência hídrica. A Embrapa está para lançar uma soja adaptada à redução de chuvas. A região de Varginha (MG) brevemente ganhará uma variedade de café tolerante. Já existem cultivares de milho mais resistentes, embora menos produtivas.
Silveira: Nessa área, temos posição confortável no mundo, mas falta muito para estarmos adaptados aos impactos do clima. É necessário R$ 1 milhão por ano para o melhoramento genético de cada planta de cultivo comercial. No Brasil, existem 800 delas. No entanto, a solução vai além da biotecnologia. Não basta desenvolver novas plantas, mas investir em melhores sistemas de produção, como plantio direto e sistemas agroflorestais, dentro do conceito da "agricultura de baixo carbono". Há um problema grave: a baixa produtividade e a dificuldade de acesso a técnicas eficientes são reinantes. Para reduzir impactos, é preciso ensinar o povo a plantar direito. A agricultura familiar produz 70% do que comemos, com produtividade reduzida a um terço da que poderia ser. Temos condição de triplicar a atual produção de arroz, feijão, milho e mandioca sem instalar novos cultivos.

Valor: Uma crítica comum é a falta dados regionais, com decisões tomadas com base em referências internacionais, nem sempre aplicáveis à realidade do país. Como a questão evoluiu?
Silveira: Os dados nacionais existiam, mas não tínhamos acesso a eles. Avançamos bastante no diagnóstico brasileiro quando o Instituto Nacional de Meteorologia, após pressões do governo, liberou as informações para nossas pesquisas. Em 2010, fizemos simulações com esses dados e alguns dos 21 modelos globais do IPCC. E descobrimos que as estimativas anteriores, a partir de referências internacionais, eram até otimistas.

Valor: Em que medida as incertezas sobre o clima, muitas vezes justificativa para a inércia de investimentos em mudanças produtivas, estão sendo resolvidas?
Assad: A incerteza sobre aumento da temperatura, maior em 2007, caiu para menos de 5% de margem de erro, em 2010. Mas a chuva continua sendo uma grande dúvida. Porém, os atuais modelos internacionais já incluem dados sobre a relação oceano-atmosfera, com melhora nas indicações sobre precipitação. De todo jeito, temos total segurança no alerta que fazemos há dez anos: atenção para os eventos extremos, para as chuvas irregulares e possível redução de oferta de água. A escassez que ocorre hoje em São Paulo não é novidade para a gente. Isso já foi dito e redito: o volume das chuvas não vai mudar. Não importa saber quanto cairá de água, mas como.
Silveira: Uma lacuna importante, ainda não resolvida, é o efeito da alteração climática na disseminação de pragas. A banana, por exemplo, tem chance de migrar para Santa Catarina, mas pode levar junto uma doença, a Sigatoka Negra. Os americanos estão apavorados com as perdas por pragas, porque as condições de clima estão mudando por lá, e eles têm um período muito curto de plantio.

Valor: Quais as frentes urgentes de ação? Mitigação? Pesquisa?
Assad: O Ministério da Agricultura precisa retomar o zoneamento agrícola de risco climático para a liberação de crédito rural. O trabalho foi interrompido há dois anos, mesmo diante dos impactos da mudança no clima. É prejudicial quebrar a série de dados. Em função da maior temperatura, ao longo do tempo regiões antes de baixo risco se tornam mais vulneráveis ao insucesso da safra.
Silveira: De imediato, é necessário transferir tecnologia para o campo. Acumulamos conhecimento científico e sabemos o grau de vulnerabilidade e fragilidade do sistema agrícola. Estamos bem nisso. Mas falta disseminar os avanços para quem precisa, mediante a extensão rural, como faziam os mais de 4 mil escritórios da Emater na década de 1990. O desafio climático precisa resgatar políticas abandonadas ao longo do tempo. Sem isso, daqui a vinte anos, com a temperatura mais quente, pequenos produtores não saberão o que fazer. Como resultado, aumentará o êxodo para as cidades.

Fonte: Valor Econômico via Rede Social do Café

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