REAL FIRMA SEM CONSEGUIR SEGURAR O CAFÉ

A imprensa americana, sempre muito criativa em interpretar dados econômicos, destaca que o índice S&P teve a melhor performance em um primeiro trimestre desde 1998, ou seja em 13 anos. O número de novos postos de trabalhos no mês de março, divulgado na sexta-feira, foi acima do esperado e a taxa de desemprego caiu 0.1% nos Estados Unidos, dando mais otimismo para os investidores.

Na Europa os títulos de Portugal foram mais uma vez rebaixados, a 2ª vez em uma semana, e as contas do país estão complicadas pois a estimativa é de que o caixa do tesouro seja de apenas 5 bilhões de euros para pagar vencimentos até junho que totalizam cerca de 9 bilhões de euros, ou seja logo veremos um novo pacote de ajuda.

Os mercados tiveram uma movimentação positiva na semana, ajudados também pela retomada de produção de várias indústrias japonesas que tinham suspendido suas operações desde o terremoto/tsunami.

As commodities tiveram uma forte puxada, lideradas pelos grãos, que segundo mostrou o relatório do USDA o consumo nos Estados Unidos foi maior do que estimado provocando uma queda maior do que esperada dos estoques. A diminuição da área plantada para a soja e o incremento menor do que esperado para a área plantada do milho ajudaram a puxar os produtos.

O destaque da semana ficou por conta do governo brasileiro ter sinalizado que concentrará seus esforços em lutar contra a inflação, deixando momentaneamente (aparentemente) para segundo plano a luta contra a valorização do real. Com isto a moeda brasileira atingiu o nível mais forte desde 14 de agosto de 2008 (contra o dólar). Os altistas no café acreditavam que a firmeza do real daria suporte para os preços do terminal, sem falar do surpreendente equilíbrio do Euro e da falta de continuação da recuperação do índice do dólar (cesta de moedas). Nada disto entretanto foi suficiente para evitar o fechamento do contrato “C” no menor nível desde 11 de fevereiro último.

Outro sinal negativo, e talvez mais importante, foi o enfraquecimento da estrutura do café na ICE, ou seja a curva de preços voltando de uma inversão e ficando plana (“flat”). O spread de maio/julho abriu para um desconto de US$ 2.75 centavos por libra com o começo das rolagens dos fundos de índice. Fato é que o fechamento semanal com queda de 8,70 dólares por saca em Nova Iorque, 11 dólares por saca em Londres, e 9,75 em São Paulo, pode desencorajar novas compras.

O relatório de participantes, COT, divulgado na sexta-feira mostrou que os fundos liquidaram 3,400 lotes de suas posições compradas, e os comerciais não compraram quase nada e sim liquidaram suas posições vendidas, ou seja, a queda pode não ter acabado ainda.

No mercado físico nota-se um aumento da certificação de café em Londres (LIFFE), movimento justificado por alguns agentes estarem se aproveitando do “squeeze” no maio/julho. No FOB há preços atrativos para compradores na África (para o arábica), e houveram algumas janelas curtas de ofertas atrativas dos suaves centro-americanos, encontrando compradores prontamente.

No Brasil o preço no mercado interno caiu levemente, e a procura por parte dos exportadores diminuiu, talvez demonstrando que não há mais necessidade imediata de cobertura de embarques.

Volto a ressaltar que o curto prazo está vulnerável, indicando que novas baixas possam acontecer. A discussão salutar da semana, talvez proveniente de termos levantado a bola em nossos comentários, foi relativa a quantidade de fixação da safra-nova brasileira feita até o momento. Os números variam de 10% a 40%, com uma concentração de opiniões ao redor de 15%. Para o arábica o percentual é menor do que para o conilon (a opinião de nosso leitor é bem-vinda).

Um outro ponto interessante que devemos lembrar é que a qualidade da safra 11/12, caso não chova, será melhor do que a 10/11, que teve diversas floradas causando maturação desuniforme. Isto não necessariamente é negativo, já que o mercado internacional absorveu a safra independentemente da qualidade disponível. Na verdade creio que uma produção de melhor qualidade e uma recuperação das lavouras na Colômbia, são notícias positivas para o longo-prazo, pois continuará estimulando os consumidores a tomarem uma segunda xícara de café após se deliciarem da primeira, assumindo uma melhora na qualidade dos blends.

Nova Iorque precisa se manter acima de 258.00 centavos para evitar uma nova onda de vendas.

* Rodrigo Corrêa da Costa escreve este relatório sobre café semanalmente como colaborador da Archer Consulting 

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