Pesquisadores criam gel que retém a água em períodos de estiagem

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A ciência pode ser uma aliada poderosa na busca por soluções para a falta de chuvas. Com a redução das precipitações registradas nos últimos anos, crescem nos centros de pesquisa e nas universidades estudos para otimizar o uso da água. Um desses trabalhos é desenvolvido na Universidade Federal de Lavras (Ufla), em Minas Gerais, e pode representar avanço significativo para a agricultura, setor que mais consome o líquido no Brasil.

A tecnologia foi batizada de polímero hidrorretentor (foto: UFLA Divulgação) e tem obtido resultados positivos no plantio do café e na economia hídrica. Trata-se de um gel que, adicionado às mudas, serve como uma reserva de água em períodos de estiagem, melhorando a qualidade do solo e garantindo altos níveis de produtividade nas lavouras, mesmo com a redução das chuvas. Os cafeicultores sabem muito bem que as chuvas são insubstituíveis, mas esperam contar em breve com uma ferramenta a mais para o sucesso da colheita caso a água das chuvas não venha na medida certa.

No ano passado, em algumas regiões de Minas Gerais, maior estado produtor de café, houve perdas de até 30% da safra cafeeira, afetada pela baixa umidade e pela seca prolongada. O problema atingiu também outras unidades da Federação, reduzindo as colheitas para índices registrados na década de 1960. Devido à má distribuição de chuvas que tem ocorrido na maioria das áreas cafeeiras, há necessidade de se buscar tecnologia alternativa para manter a umidade no solo, evitando altos índices de replantio, o que eleva consideravelmente o custo de produção. Também no caso de lavouras adultas, técnicas que proporcionem um fornecimento de água mais bem distribuído podem evitar grandes perdas, como a que ocorreu na safra de 2014, explica o professor de agricultura da Ufla Rubens José Guimarães, responsável pela pesquisa. Os estudos com os polímeros que retêm água têm sido feitos para vários tipos de culturas. Segundo o pesquisador, nas plantações de eucalipto, os resultados foram positivos, e alguns produtores rurais no Brasil já começam a adotar a tecnologia.

No café, foram encontrados efeitos positivos, desde a formação da muda até a implantação da lavoura. Observou-se que o uso de polímero tem permitido a reposição de água no solo, de forma mais espaçada, sem que as plantas apresentem sintomas de estresse hídrico. Cafeicultores em Minas já usam o polímero, porém, para a utilização em larga escala, são necessários estudos que possam garantir um sistema eficiente e econômico, explica Guimarães. A expectativa é que, com a conclusão dos trabalhos na universidade, o método seja mais difundido entre os cafeicultores nos próximos dois anos.

Nutrientes — O desenvolvimento dos polímeros à base de hidrogéis, além de ajudar a otimizar de forma sustentável a disponibilidade de água para a planta, melhora também a dissolução de nutrientes essenciais para o crescimento das mudas e a drenagem do solo. Os mais usados são os classificados como sintéticos, mas existem também polímeros floculantes, que são utilizados em fraldas e outros artigos sanitários.

A opção pelo uso de géis como armazenadores de água baseia-se na facilidade que as plantas têm de extrair a água do polímero. Isso foi evidenciado em trabalhos que destacaram crescimento das raízes por dentro dos grânulos do polímero hidratado, promovendo maior superfície de contato entre as raízes, a água e os nutrientes, conta Guimarães.

O sucesso da técnica, no entanto, depende também das condições do solo e das características da região em que é adotada. As propriedades físico-químicas do solo, ou mesmo condições climáticas locais, podem estar relacionadas à eficiência dos polímeros hidrorretentores, o que também demanda novos trabalhos e pesquisas, diz o pesquisador. Ele ressalta que, apesar de as novas tecnologias permitirem a ampliação das áreas para o cultivo do produto, não é somente a disponibilidade de água que define uma região como apta ao cultivo do café, uma vez que são levados em conta a temperatura local e outros fatores. O estudo de polímeros voltados para a agricultura desenvolvido na Ufla tem apoio do Consórcio Pesquisa Café, que reúne várias instituições de pesquisa e é coordenado pela Embrapa.

O uso de polímero tem permitido a reposição de água no solo, de forma mais espaçada, sem que as plantas apresentem sintomas de estresse hídrico.

* Rubens José Guimarães, professor de agricultura da Ufla.

Fonte: Correio Braziliense (Marcelo da Fonseca) via CNC

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