O novo ciclo do café no mundo

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O Brasil fez valer sua força de maior produtor mundial de café ao conseguir, por consenso, conduzir ao cargo de diretor-executivo da Organização Internacional do Café (OIC), o economista mineiro, Robério Oliveira Silva, 48 anos. Seu nome foi unanimidade na indicação nacional para concorrer ao principal posto da OIC, organização intergovernamental, formada por 77 países produtores de café, responsável por defender os interesses da cafeicultura mundial. Os países-membros da OIC são responsáveis por 97% da produção mundial do café e por 80% do consumo do grão em todo o planeta. Com a condução de Robério Silva, o Brasil volta ao cargo depois de nove anos. O último brasileiro diretor-executivo da OIC foi Celsiu Lodder, na gestão 2000/2002. O também brasileiro José Sette, concluiu o mandato do colombiano Néstor Osorio, que deixou a função no início deste ano, para ser o embaixador de seu país na Organização das Nações Unidas (ONU). Robério Silva concorreu com Rodolfo Trampe Taubert, do México, que teve apoio dos Estados Unidos e retirou sua candidatura após constatar que o mineiro tinha 80% dos votos dos países produtores.

O mandato de Robério Silva será de cinco anos, tempo que ele terá para implantar as reformas e inovações que considera necessárias para deixar a OIC uma entidade ainda mais forte e respeitada no mundo e, claro, trabalhar duro para aumentar o consumo de café em todos os países já compradores e incentivar nos países asiáticos, principalmente na China, onde a bebida não é muito popular. “Esta será a principal base de meu mandato. Já me encontrei com representantes da China e de outros países da Ásia. Garantir a entrada do café nestes mercados será um desafio enorme”, assegura Robério Silva, em entrevista exclusiva à Viver Brasil, poucas horas após sua proclamação ao cargo-mor da OIC, em Londres. Para Robério, sua condução à direção-executiva da organização representa o coroamento de uma vida profissional devotada ao café. “Este é o ponto mais alto da minha carreira. Foi uma eleição muito disputada e isto mostra que há interesse mundial redobrado na atuação da OIC. Nunca vi um interesse tão grande assim nos últimos 30 anos”, reforça o mineiro.

A eleição de um brasileiro acontece no momento em que o país – que já é o maior produtor do grão, com 43 milhões de sacas do produto, plantados em 2,2 milhões de hectares, por 300 mil agricultores – caminha para ser também o maior consumidor da bebida, posição que é ocupada pelos Estados Unidos. O Brasil é também o maior exportador de café do mundo, sendo seu principal comprador os Estados Unidos, seguidos pela Alemanha. Aliás, segundo Robério Silva, o apoio dos norte-americanos ao mexicano Taubert – que ocorreu em função dos compromissos dos países que formam o bloco econômico Nafta – não atrapalhará em nada sua relação com os Estados Unidos, que o saudaram pela vitória e prometeram ajudá-lo em seu trabalho na OIC, muito menos com o país latino-americano. “Já me encontrei com o Taubert e me comprometi com ele de que minha primeira visita como diretor-executivo da OIC será ao México”, garante Robério Silva, que resume a necessidade e o anseio de todos os produtores de café do mundo: preços bons e estáveis.

A vitória do mineiro de Pedra Azul, no Vale do Jequitinhonha, fortalece ainda mais o maior estado produtor de café do Brasil, e está sendo comemorada pelo setor cafeeiro nacional. O coordenador do Conselho Nacional do Café (CNC) Maurício Miarelli, considera que a volta do Brasil à direção da OIC não é importante somente para os países produtores de café, mas para os consumidores também, já que Robério Silva tem grande experiência no setor e trânsito em todos estes países. “O governo brasileiro acertou muito em sua indicação. Além de o Brasil retomar a direção da OIC, o mundo do café ganhará muito com o Robério na direção executiva da organização por causa do conhecimento que ele tem do negócio café”, defende. Na opinião de Miarelli, o fato de haver disputa na OIC significa que a organização está prestigiada. “As divergências são muito normais. O Brasil é o maior produtor do mundo e é importante que os Estados Unidos, maior consumidor, tenha suas ponderações a respeito do café.” O coordenador do CNC comemora, ainda, o crescimento da produção de café no Brasil, mas ressalta que mais importante que isto é a elevação do consumo, em todo o mundo, o que contribuiu para reduzir os estoques do produto e elevar os preços da saca de café de 60 quilos, que está custando em torno de 500 reais.

Para o presidente da Federação dos Cafeicultores do Cerrado (Caccer), Francisco Sérgio de Assis, a vitória de Robério Silva mostra a grandeza do país. “Além de abrir caminhos para a nossa cafeicultura, teremos ganhos com a implementação de políticas internacionais para o setor, que poderão ser mais alinhadas com o Brasil.” A única preocupação de Assis, neste momento, é com a longa estiagem, que já começa a dar sinais de que haverá perda na próxima safra. O grande problema é que é muito pequena a área de plantio de café irrigada no país. A região do cerrado mineiro é, proporcionalmente, a que tem maior área de irrigação do Brasil. Dos 180 mil hectares onde são produzidos café, 100 mil têm pivôs de irrigação, o que corresponde a 55% da área total cultivada. Mas, a pequena quantidade de lavouras irrigadas não compromete a qualidade do café produzido por aqui, onde o consumo cresce, em média, 4,5% ao ano, contra a média de 2% no restante do mundo. E a qualidade do produto, segundo o presidente das comissões de café da Faemg e da CNA, Breno Pereira de Mesquita, é uma das grandes preocupações em toda a cadeia produtiva. “O Robério já fez muito pela cafeicultura. Ele não foca somente a produção, representa os interesses de toda a cadeia produtiva”, afirma. 

Para o representante da Faemg e CNA, o passado de Robério no setor cafeeiro o credencia para desenvolver um excelente trabalho. “Tenho certeza de que ele transformará a OIC no que é o anseio de toda a cafeicultura mundial, que é de ter uma organização funcionando muito bem, com comitê de estatísticas atuais e de credibilidade, sendo também responsável pelas políticas cafeeiras do mundo, além de buscar, junto aos países consumidores, políticas que garantam renda aos produtores”, defende Mesquita. 

E melhorar a OIC cada dia mais está nos planos de seu novo diretor-executivo. A intenção de Robério Silva, exposta em seu discurso em Londres, é de fazer da organização um ponto de convergência de todos os debates do setor cafeeiro, para que ela se torne, de fato e de direito, a principal porta-voz e autoridade em matéria de café. “A liderança da OIC será reforçada, certamente, com a busca constante de novos países-membros, com a promoção da cooperação técnica no setor, inclusive com a melhoria das relações com outras organizações internacionais”, garante Robério Silva, que também pretende aprofundar o debate sobre a sustentabilidade, considerando a interdependência entre os seus pilares social, econômico e ambiental. As reformas na OIC também foram abordadas. Robério pretende, entre outras coisas, adequar as estruturas física e de pessoal da organização, reduzindo despesas com aluguel e funcionários sem, entretanto, comprometer seu desempenho. “Sou o gestor do Fundo de Defesa da Economia Cafeeira (Funcafé), que financia a cafeicultura com mais de 1,2 bilhão de dólares e cria condições para o apoio à pesquisa, a promoção e o desenvolvimento da cafeicultura brasileira, com custos mínimos de administração e pessoal. Apenas 12 pessoas trabalham comigo”, justifica.

E, de economia Robério Silva realmente entende. Ele é formado pela Faculdade de Ciências Econômicas da UFMG. Mas, foi como office-boy da agência do Banco do Brasil, na rua Rio de Janeiro, em Belo Horizonte, que ele começou a trabalhar, aos 14 anos. A sua relação com a área de café foi selada com amor à primeira vista, que nunca mais acabou. Robério trabalhou por longos anos com a Federação Brasileira dos Exportadores de Café; por oito anos, foi secretário geral da associação dos países produtores de café, em Londres. Mas foi no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) que esse romance bem-sucedido com o setor cafeeiro foi iniciado e já dura mais de duas décadas. “Comecei a trabalhar com café no setor privado. O pessoal do Mapa ficou impressionado com meu desempenho e me convidou para atuar neste segmento, no setor público. Depois disto, nunca mais consegui abandonar a área, que é muito apaixonante. Já trabalhei até com moda, mas o café jamais saiu do holofote da minha vida profissional”, diz.   

O café no Brasil
• Chegada do café ao país: em 1727, no Pará, vindo da Guiana Francesa
• Hectares plantados: 2,2 milhões
• Quantidade de produtores: 300 mil, em 11 regiões
• Safra 2010: 48,1 milhões de sacas, segundo a Conab
• Empregos gerados no agronegócio café: aproximadamente 8 milhões 

Regiões produtoras e suas características

• MINAS GERAIS: é o maior estado produtor de café do Brasil. É responsável por 50% da produção nacional e é uma das principais fontes de cafés especiais do país. Praticamente 100% das plantações são de café arábica, cultivado em quatro regiões: sul, cerrado, chapada e matas de Minas, que exportam seus cafés pelos portos de Santos, Rio de Janeiro e Vitória

• ESPÍRITO SANTO: é o segundo maior estado produtor de café do país e o principal produtor de conilon (robusta). Com plantações de café conilon nas áreas mais quentes ao norte, região chamada de conilon capixaba, e de arábica ao sul, na região das montanhas do Espírito Santo. O estado é grande fornecedor do mercado brasileiro e escoa seus cafés especiais pelo porto de Vitória

• SÃO PAULO: é um dos mais tradicionais no cultivo de café. Sua produção é exclusivamente de arábica, distribuída em duas regiões: mogiana e centro-oeste paulista, que alternam fazendas com pequenas propriedades e produzem cafés especiais em áreas específicas. São Paulo abriga o porto de Santos, que escoa cerca de 2/3 das exportações brasileiras

• BAHIA: são duas as regiões produtoras de café no estado: planalto da Bahia e cerrado, onde se cultiva arábica. Ao sul do estado também há áreas onde se produz café conilon (robusta)

• PARANÁ: é o estado produtor de café localizado mais ao sul do país. Apenas café arábica é cultivado em plantações adensadas, que usam variedades adequadas ao clima mais frio da região. Outrora o maior estado produtor do país, vem recuperando sua produção com forte ênfase no cereja descascado

• RONDÔNIA: com produção anual de aproximadamente 2 milhões de sacas, o estado produz exclusivamente café conilon (robusta). A cafeicultura é tradicional e familiar, e ocorre em pequenas propriedades

Currículo

• Nasceu em Pedra Azul, Minas Gerais, tem 48 anos
• É economista formado pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) 
• Secretário-geral da Associação dos Países Produtores de Café, em Londres
• Membro da Força-Tarefa do Banco Mundial sobre gerenciamento dos riscos de commodities 
• Secretário de Produtos de Base do Ministério do Desenvolvimento (gestão Celso Lafer)
• Diretor-gerente do Fundo de Promoção da Organização Internacional do Café, em Londres
• Secretário-geral da Federação Brasileira dos Exportadores de Café
• Coordenador na Sub-Chefia para Assuntos Institucionais do Gabinete Civil da Presidência da República (gestão Ronaldo Costa Couto)
• Secretário-geral adjunto e chefe de Gabinete do ministro da Indústria e Comércio (gestão José Hugo Castelo Branco)
• Assessor da Secretaria Especial de Assuntos Econômicos do Ministério da Fazenda
• Professor de economia brasileira no Instituto Rio Branco

Fonte: Revista Viver Brasil

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