Nestlé faz iniciativa mundial para melhorar oferta de café

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Das viçosas florestas de Veracruz, no México, até a Indonésia, a Nestlé SA cultiva um novo investimento: uma iniciativa mundial de US$ 487 milhões para aumentar a quantidade e a qualidade do café.

A Nestlé – a empresa suíça cujo café solúvel Nescafé e as sofisticadas máquinas de expresso Nespresso a tornaram a maior produtora de café do mundo – planeja treinar milhares de agricultores nos próximos dez anos e também fornecer novas plantas cafeeiras. A empresa não controlará as plantações ou forçará contratos de longo prazo, mas o diretor-presidente, Paul Bulcke, acha que o relacionamento que ela desenvolver com os produtores vai motivá-los a vender à Nestlé.

"Não devemos ser apenas a maior compradora de café do mundo, temos que nos envolver na produção", diz Bulcke, que deve apresentar hoje na Cidade do México o "Plano Nescafé". "Estamos fazendo isso para melhorar a qualidade e garantir nossa matéria-prima."

A iniciativa ocorre ao mesmo tempo em que fabricantes de alimentos como a Nestlé, a Unilever e a Kraft Foods Inc. lutam para controlar melhor ingredientes essenciais como café, cacau, trigo e milho. O esforço delas ficou mais urgente nos últimos anos, já que a volatilidade das matérias-primas corroeu suas margens, aumentando o lucro num ano mas derrubando-o no próximo. A cotação do café atingiu recentemente o maior nível em 13 anos por causa do mau tempo.

Mas a indústria cafeeira também enfrenta outros problemas de longo prazo. Os produtores insistem em usar plantas mais velhas que rendem menos e têm qualidade inferior. A Nestlé previu este mês um segundo semestre "desafiador" por causa da alta das commodities.

O investimento da Nestlé em café acompanha uma iniciativa parecida com cacau no ano passado. A empresa se comprometeu a investir US$ 106 milhões para replantar na Costa do Marfim, África Ocidental, variedades mais resistentes de cacaueiro criadas por seus cientistas. A empresa também já teve projetos de plantio em países como México, Tailândia e Filipinas, mas a nova iniciativa envolve mais de dez vezes o número de plantas da última vez.

A Nestlé inventou o café solúvel nos anos 30 para preservar uma safra brasileira extraordinária. Agora, os mercados emergentes estão impulsionado boa parte do crescimento do café instantâneo. Pessoas em países como China, Tailândia e México estão tomando mais café graças ao produto solúvel. Metade das vendas do Nescafé vem atualmente dos países emergentes. Mas a Nestlé também quer acompanhar a tendência de cafés de alta qualidade nos países mais afluentes. O Nespresso, um sistema de máquinas de expresso que usa cápsulas de café moído de alta qualidade, impulsionou a Nestlé para o lucrativo segmento de café premium, em rápido crescimento.

Apesar do alto custo desse café – a partir de R$ 1,90 a dose -, o Nespresso sobreviveu à cautela dos consumidores durante a crise econômica. Isso aconteceu porque os tomadores de café economizavam preparando café em casa, em vez de comprar na rua. As vendas do Nespresso subiram 30% no ano passado. A meta da Nestlé é que o Plano Nescafé impulsione suas vendas. Para se preparar para isso, a Nestlé está construindo sua maior fábrica de café solúvel nos arredores da Cidade do México, para produzir jarras de Nescafé voltadas aos mercados do México, do Canadá e dos Estados Unidos. Apesar do nome do plano, a empresa pretende usar o café dessa fábrica também para seus produtos mais sofisticados.

Parte desse café será plantado na região cafeeira do Estado de Veracruz, no México. Os produtores já estão se preparando para a colheita, que começa mês que vem e vai até março. No povoado de Barrio de Guadalupe, em Veracruz, agricultores humildes preparam uma safra especial de café. Os 100.000 arbustos representam uma nova variedade que a Nestlé desenvolveu combinando outras cepas em seu centro de pesquisa na França. As plantas foram desenvolvidas especialmente para o clima da região, de modo que gerem mais grãos, sejam resistentes a pragas e alcancem um tamanho médio que facilite a colheita manual. A lavoura em Veracruz é crucial, e representa um projeto-piloto que será expandido mundialmente.

"Nenhuma outra torrefação de café do mundo está fazendo isso, nenhuma", diz Orlando García, da Nestlé Commodities and Supply Development, sediada em Marysville, no Estado americano de Ohio. O trabalho de García é se preparar para as próximas décadas e garantir suprimentos em quantidade e qualidade suficiente para continuar produzindo os vários produtos da Nestlé, como as cápsulas Nespresso.

Até pouco tempo atrás, o futuro parecia incerto para a produção cafeeira do México e muitos produtores abandonaram o café quando os preços desabaram. Agora a Nestlé está desenvolvendo uma nova geração de plantas robusta e arábica no México. Das 100.000 plantas na lavoura de Veracruz, 60% são robusta, tipo relativamente barato que é a base para o café solúvel, e 40% são arábica, usados em cafés mais finos mas que só podem ser cultivados em altitude, o que limita seu potencial. Elas representam uma pequena fração dos 220 milhões de plantas que a Nestlé quer distribuir para cafeicultores do mundo nos próximos dez anos.

Alguns produtores temem que a preferência da Nestlé pelos grãos robusta esteja levando o México para o caminho errado. Em vez disso, dizem, os produtores deveriam buscar os mercados de luxo, como o do arábica orgânico, que rende preços acima da média. "É preciso existir um equilíbrio", diz Angelino Espinoza Mata, que dirige a associação de pequenos cafeicultores na região de Huasteco, em Veracruz. "Cada região tem suas próprias características."

Apesar do investimento substancial nas novas plantas, a Nestlé não está fechando contratos com os beneficiados. "Não é possível e não é justo", diz Bulcke, o diretor-presidente da Nestlé. "Queremos construir um relacionamento em que o produtor queira vender para a gente". Para fazer isso, parte do Plano Nescafé envolve consultoria de plantio e colheita para 10.000 produtores mundiais. A Nestlé também vai dobrar o volume de café que compra diretamente, para que passe a adquirir o produto de 170.000 produtores.

Os agricultores de Veracruz parecem estar prontos para retribuir o favor. Hildiberto Escobar, que organiza uma cooperativa local de café, disse que dos 1.000 produtores representados por ele, 600 estão trabalhando com a Nestlé e pretendem vender café para a empresa

Fonte: Valor Econômico

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