Mercado de café vive incerteza sobre oferta e demanda em meio à pandemia

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O mercado de café vive um momento de incerteza, avaliam especialistas e representantes do setor. Em relatórios sobre a conjuntura atual, em meio ao avanço da pandemia de coronavírus, informam haver preocupações, de um lado, sobre como as condições de trabalho na cafeicultura poderão afetar a colheita e a oferta. E, de outro, sobre como a demanda se comportará à medida que a crise avance e o consumo migre dos food services para a casa das pessoas, em isolamento social.

Na semana passada, o mercado futuro do arábica, na Bolsa de Nova York, permaneceu oscilando entre US$ 1,15 e US$ 1,20 por libra-peso nos contratos mais negociados. O vencimento de maio de 2020 fechou a sessão de segunda (13/4) em US$ 1,1975. Na quarta-feira (15/4), encerrou a US$ 1,2020, para, depois de duas baixas seguidas, encerrar a sessão de sexta-feira (17/4) cotado a US$ 1,1605.

O contrato para julho de 2020 seguiu caminho semelhante. Iniciou a semana fechando a US$ 1,2060 por libra-peso na segunda-feira (13/4). Na quarta-feira (15/4), em dia de alta no mercado, encerrou a US$ 1,2120. Mas também acompanhando as baixas das duas últimas sessões, fechou na sexta-feira (17/4) cotado a US$ 1,1755 por libra-peso.

Em seu boletim semanal, divulgado na sexta-feira (17/4), o Conselho Nacional do Café (CNC) considerou que o mercado internacional ficou praticamente estável. De acordo com o CNC, há uma preocupação com a logística nos portos e com a possibilidade de uma paralisação da colheita no Brasil, diante da perspectiva de haver um pico da disseminação do Covid-19 nos próximos meses.

“Do lado da demanda, analistas seguem em dúvida se o aumento do consumo de café em casa será suficiente para suprir o fechamento de cafeterias, bares e restaurantes”, diz o CNC, no boletim.

Em comentário divulgado pela Archer Consulting, Rodrigo Costa avalia que a demanda de curto prazo ainda está positiva. Mas não é tão aquecida como anteriormente, com alguma desaceleração da estocagem de café nos lares. Além disso, a redução do food service, com o isolamento social, não é compensada inteiramente pelo consumo em casa.

“Nada que, por ora, preocupe tanto, haja vista o apoio financeiro oferecido pelos governos a seus cidadãos e considerando que a partir de maio as pessoas comecem a voltar as ruas – seguindo as precauções necessárias”, diz ele, acrescentando que, aparentemente, os preços atuais parecem justos diante da situação atual, enquanto o mercado aguarda novas informações sobre o cenário macroeconômico.

O PIB e o consumo de café
Nas contas da Organização Internacional do Café (OIC), se a economia crescer em um ritmo um ponto percentual menor, a demanda global por café aumentaria 0,95 menos. Significa deixar de aumentar em 1,6 milhão de sacas de 60 quilos.

Ainda de acordo com a instituição, havendo uma perda de ritmo ainda maior no crescimento do PIB, ou, até mesmo, uma situação de recessão global, poderia ocorrer uma estagnação a declínio do consumo de café em relação a anos anteriores à crise, quando crescia a taxas de 2% a 3% ao ano.

Os números estão em um estudo dos efeitos do Covid-19 sobre a demanda, divulgado neste mês, com base em informações sobre os 20 maiores países consumidores da bebida. Esses países, cujos dados analisados eram do período de 1990 a 2018, respondem por 71% da demanda global, segundo a entidade.

No relatório, a própria OIC reconhece que há limitações na pesquisa. Avalia que crises ocorridas em anos anteriores – que faziam parte da série história usada na análise – provavelmente não têm comparação com a atual, na magnitude de seus efeitos sobre a economia global. Medidas tomadas em reação à pandemia, como o distanciamento social, não têm precedentes e podem afetar de forma severa o consumo de café.

“O impacto da pandemia de Covid-19 sobre o setor cafeeiro global provavelmente será profundo, abrangendo produção, consumo e comércio internacional”, diz a OIC, no estudo, que se concentrou nos efeitos da pandemia apenas do lado da demanda global. “Outros efeitos na demanda refletem o impacto das medidas de distanciamento social sobre o consumo fora de casa”, pontua a organização.

De acordo com a OIC, enquanto o consumo caiu de forma significativa fora de casa, aumentou no mercado varejista, sugerindo que os consumidores optaram por armazenar uma quantidade maior de café em um primeiro momento. Mas, depois de um pico inicial, a tendência é de redução da procura nos pontos de venda, à medida que vão sendo utilizados os estoques mantidos nas casas dos consumidores.

“Pode-se esperar um efeito mais profundo na demanda global de café em consequência da recessão global desencadeada por efeitos diretos e indiretos da pandemia do Covid-19. A redução das rendas familiares poderá se traduzir em menor demanda por café, em termos de volume. Além disso, consumidores sensíveis a preços poderão substituir café de valor mais alto por blends ou marcas de menor valor”, analisa a OIC.

Mercado comprador
Mesmo diante das incertezas, o mercado físico brasileiro permaneceu comprador na semana passada, informa em boletim o Escritório Carvalhaes. Mas o volume de café ofertado foi pequeno, de um produto que está nas mãos de produtores mais capitalizados e que resistem em vender nos dias de baixa. A empresa, sediada em Santos (SP), lembra também que a valorização do dólar ajuda a dar suporte aos preços internos.

A procura maior dos compradores tem sido por lotes de melhor qualidade a finos. De acordo com a empresa, um cereja descascado bem preparado era vendido entre R$ 640 e R$ 680 a saca de 60 quilos. Um café fino ou extrafino das regiões da Mogiana ou de Minas era cotado entre R$ 620 e R$ 650 a saca. Abaixo dos R$ 600, cafés de xícaras mais fracas, que variavam de R$ 500 a R$ 530 a saca de 60 quilos.

O Escritório Carvalhaes pontua que as bolsas de café não estão alheias à volatilidade dos mercados ao redor do mundo, que “reagem instantaneamente a cada declaração de um líder mundial ou novos números e informações divulgados na imprensa”. Mas, no mercado da commodity, ainda há um cenário de baixos estoques mundiais e de preocupações com eventuais problemas de logística que a pandemia de coronavírus pode trazer para a colheita, beneficiamento, armazenamento e transporte da safra nova.

“Também são crescentes as preocupações com as dificuldades que os produtores poderão enfrentar para colher a nova safra brasileira, cujo início coincidirá com os meses de agravamento da pandemia no Brasil, maior produtor, maior exportador e segundo maior consumidor de café do mundo. A pandemia começa a se espalhar pela América Latina e Central. A chegada à África alarma as lideranças globais”, alerta a empresa.

Fonte: Revista Globo Rural (Por Raphael Salomão)

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