Indústrias de café do país disputam matéria-prima

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Seca e altas temperaturas no Espírito Santo no período de desenvolvimento do café conilon e chuvas na colheita do grão arábica em Minas Gerais e em São Paulo geram incertezas no setor no país na safra 2016/17. Empresas que produzem café solúvel e que se abastecem sobretudo com conilon já têm dificuldade para comprar a matéria-prima. No caso do arábica, as chuvas derrubaram grãos dos cafezais e a oferta de café de qualidade superior, o mais demandando para exportação, deve ser menor.

Nesse ambiente, aumenta a disputa pelos grãos por parte das indústrias, e os preços das duas espécies vêm se valorizando no mercado doméstico. Em 12 meses, a saca do café conilon já subiu 27,86% enquanto a do arábica teve valorização de 15,83%, conforme os indicadores Cepea/Esalq para os dois produtos.

A escassez de café para a indústria de solúvel reflete principalmente a situação da safra 2016/17 no Espírito Santo, maior produtor nacional da espécie, onde a colheita já terminou.

Segundo Edimilsom Calegari, gerente geral da Cooperativa dos Cafeicultores de São Gabriel (Cooabriel), de São Gabriel da Palha (ES), a colheita capixaba está estimada em 4 milhões a 5 milhões de sacas, 50% abaixo da safra anterior. Em fevereiro, a Cooabriel, maior cooperativa de conilon do país, estimava que a produção ficaria entre 6 milhões e 7 milhões de sacas. Em sua primeira estimativa, em janeiro, a Conab previu produção de 7,697 milhões de sacas no Espírito Santo, mas reduziu a previsão para 5,953 milhões de sacas em maio.

“Foi pior do que imaginávamos”, diz Calegari. Segundo ele, a forte insolação afetou mesmo os cafés das áreas irrigadas no Estado, e a formação dos grãos foi prejudicada. Isso significa grãos menores e menos rendimento.

A indústria de café solúvel já acusou o golpe. “De 15 dias para cá, a situação da oferta se agravou bastante. Além disso, os preços do conilon subiram de forma preocupante”, afirma Aguinaldo José de Lima (foto: arquivo CNC), diretor de relações institucionais da Associação Brasileira da Indústria de Café Solúvel (Abics).

Ele explica que diante da escassez de oferta de conilon no mercado, a indústria não pode simplesmente migrar para o arábica. O solúvel pode ser produzido também a partir do arábica, mas isso significa custo maior, não apenas por conta do valor mais alto. “A eficiência do conilon na extração de sólidos solúveis é 20% superior ao do arábica. Se usar arábica, o custo aumenta e a competitividade cai”, argumenta. De uma maneira geral, os blends de solúvel têm 80% de conilon e 20% de arábica.

Embora admita dificuldades na oferta, Lima garante que “não há falta do produto” e que “as indústrias se programaram”. Para agravar o quadro de baixa disponibilidade, o segmento de solúvel tem de disputar conilon com a indústria de torrado e moído, que também mistura o conilon a seus blends e com as exportações do grão verde.

Outra preocupação, segundo o diretor da Abics, é que se o conilon brasileiro ficar muito mais caro que o de outros países fornecedores, como Vietnã, a competitividade do solúvel produzido aqui em relação ao de outras origens vai diminuir. “Como o Brasil exporta 80% da produção de café solúvel, a indústria pode perder espaço no mercado internacional”, diz. O setor no país demanda 4,5 milhões de sacas do grão para a produção de café solúvel.

“Não vai ter café conilon suficiente”, afirma Nathan Herszkowicz, diretor-executivo da Associação Brasileira da Indústria de Café (Abic), que reúne a indústria de café torrado e moído. Esse segmento demandou 7 milhões de sacas de conilon no ano passado para uso em seus blends. Mas este ano, a conta não vai fechar, considerando ainda que há as exportações de grão verde. Conforme a estimativa de maio da Conab, a produção nacional de café conilon deve somar 9,4 milhões de sacas.

De acordo com Herszkowicz, diante da escassez de oferta e da alta dos preços, já há empresas de torrado e moído deixando de usar conilon em seu blends.

No caso do arábica, o receio é com a qualidade, já que as chuvas durante a colheita entre o fim de maio e começo de junho derrubaram parcela dos grãos dos cafeeiros na região Sudeste.

Na Cooperativa Regional de Cafeicultores em Guaxupé (MG), maior cooperativa exportadora de café do mundo, a estimativa é que 21,9% dos grãos que estavam para ser colhidos na área de atuação da cooperativa caíram em decorrência das fortes chuvas. Dessa forma, devem ter a qualidade prejudicada. O presidente da Cooxupé, Carlos Alberto Paulino da Costa, observa que quando o levantamento foi feito, semana passada, a colheita havia atingido 18% do total previsto.

A Cooxupé estima que seus cooperados devem colher 7,8 milhões de sacas nesta safra. Já na área de atuação da cooperativa (inclui cafeicultores associados e não associados), com 200 municípios, no sul de Minas, Cerrado, Vale do Rio Pardo, em São Paulo, a produção deve ser de 19 milhões de sacas.

Costa admite que o percentual afetado é relevante. No entanto, argumenta ele, haverá prejuízo para a qualidade, porém o grão não será perdido. O dirigente afirma ainda que a exportação da Cooxupé, estimada em 4,8 milhões de sacas de café, não deve ser afetada.

A qualidade do café que cai em decorrência da chuva é prejudicada, geralmente, porque os grãos não são retirados imediatamente do chão e, durante esse período, ficam sujeitos a fungos que afetam a qualidade.

De acordo com o presidente da Cooxupé, café arábica de qualidade inferior já está sendo usado como substituto do conilon, pois está mais competitivo. “A indústria vai ter de pagar mais. Não está sobrando café”, defende Costa. Nathan Herszkowicz, da Abic, afirma que algumas empresas “não têm fôlego para aguentar a alta dos custos”. “Em algum momento, será repassada” para o produto final.

No mercado, há estimativas de que 15% a 20% da safra brasileira de arábica tenha a qualidade afetada em consequência das chuvas. Mas José Edgard Pinto Paiva, presidente da Fundação Procafé, evita fazer previsões. Segundo ele, à medida que a colheita avançar e que o café que caiu no chão for beneficiado e submetido à prova é que será possível saber a intensidade do impacto sobre a qualidade.

Fonte: Valor Econômico (Por Alda do Amaral Rocha)

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