INCERTEZAS E PREENSÕES NO MERCADO CAMBIAL

Visando conter a valorização do real, o governo acaba de dobrar (de 2% para 4%) o valor do IOF sobre o capital externo a ser aplicado em renda fixa no Brasil. Será que essa medida terá algum efeito prático? É intenção deste artigo discutir um pouco essa questão, dada sua importância no preço do café a nível de produtor.

Inicialmente, gostaria de analisar, mesmo que superficialmente, os fatores que estão levando a esta valorização. Podemos resumí-los em três grupos:

a) os fatores relacionados com os altos juros internos;
b) bom momento da nossa economia;
c) dificuldades atuais da economia mundial.

Os juros internos (mais altos do mundo) são o fator determinante da valorização do real, exercendo forte atração sobre capitais externos especulativos. Até importadores, que já são beneficiados pelo real valorizado, tem tirado mais proveito da situação: pagam suas importações em dólares tomados por empréstimos no exterior (a juros baixíssimos) e o valor correspondente em reais é aplicado no Brasil, procedimento esse que lhes renderá mais dólares que os tomados lá fora, graças aos altos juros internos.

A boa imagem do Brasil, como país seguro para investir e em pleno crescimento, é outro fator de valorização. As elevadas reservas cambiais (já perto de US$ 300 bilhões) e as medidas anticíclicas tomadas na recente crise reforçam essa imagem positiva. O sucesso na capitalização da Petrobrás deve ser atribuído não só ao que representa o setor de energia em si, mas também ao ambiente interno favorável. Investidores externos estão de olho no Brasil e a antiga ideia de transformá-lo em uma plataforma de exportação pode se concretizar.

Mas a valorização do real está associada também a outras causas que nada têm a ver com o nosso país. Entre elas, a desvalorização do próprio dólar americano, processo iniciado antes mesmo da crise de 2008 (fruto de uma política deliberada, mas não declarada dos EUA, e necessária para reequilibrar sua economia com enormes problemas internos, como por exemplo, os elevados déficits nas contas externas). Com a desvalorização da moeda, consegue-se ao mesmo tempo, reduzir as importações e tornar suas exportações mais competitivas.

Outro fator externo que ajuda na valorização do real é a volta das incertezas e preocupações com a recaída da economia nos EUA, Europa e Japão. Para enfrentar o problema (e preocupados com o índice de empregos), esses países ricos vêm reduzindo suas taxas de juros à quase zero, provocando a “fuga” de capitais para países como o Brasil, onde os retornos sobre aplicações financeiras são as mais alta do mundo. E neste contexto mundial deve-se dar especial destaque à China, com sua política de paridade cambial, que visa neutralizar os efeitos da desvalorização do dólar. Com essa postura, ela mantém sua moeda artificialmente desvalorizada, o que torna seus produtos mais competitivos no mercado global. Mas essa “invasão” em países emergentes com moedas já valorizadas (como o Brasil) representa uma ameaça adicional ao risco de desestabilização de suas indústrias. A chamada “guerra cambial” tem tudo a ver com essas políticas dos países ricos em relação a juros e à postura da China pelos impactos na economia global.

É neste contexto que deve ser analisada a questão do câmbio no Brasil. Se a medida que dobra o IOF surtirá ou não efeito só o tempo dirá. Nós nos colocamos entre os cépticos em relação a quaisquer medidas momentâneas, visando impedir a valorização do real, pois isso não depende só de nossa vontade. Será que as medidas tomadas no exterior para reativar o crescimento terão a eficácia esperada? Algumas dessas medidas têm sido duramente questionadas por economistas, como o ex- Prêmio Nobel Joseph Stiglitz; e para alguns analistas, a bolha imobiliária que deu início à crise em 2008 nos EUA, não teria completado o ciclo de baixa, podendo cair ainda mais 20%, antes de atingir o ponto de equilíbrio no setor.

Uma nova ameaça ainda paira no horizonte: o governo dos EUA poderá despejar mais dólares no seu sistema econômico, caso se confirme o aumento de desemprego apontado pelos seus indicadores econômicos, o que pressionará ainda mais para baixo seus juros e aumentará o fluxo de capitais para o Brasil. É possível que isso venha acontecer, pois, diferentemente do Banco Central no Brasil, que só se preocupa com inflação, o FED dos EUA deve se preocupar, também, com o nível de emprego na economia, o que justificaria a decisão. Em relação à situação interna do Brasil, existem também muitas incertezas. Apesar dos questionamentos em relação à dose de juros, o BC sempre argumentou que os mesmos eram calibrados, tendo em vista a inflação. Nesse sentido, há motivos para se preocupar, já que há indicadores apontando para uma inflação maior em 2011, o que, de acordo com a lógica do BC, fará subir a taxa Selic, e poderá aumentar ainda mais a diferença entre juros internos e externos. Mas o que também nos preocupa é que a raiz do problema não está sendo atacada, ou seja, os nossos elevados juros decorrem de um problema estrutural que é a grande dívida pública financiada pela venda de títulos públicos à taxa Selic. Assim, só um forte ajuste fiscal, ou seja, um conjunto de medidas visando equilibrar receitas e despesas públicas é que poderia reduzir a dívida pública e derrubar os juros.

Um outro problema estrutural responsável pela valorização do real é a nossa baixa poupança domestica (poupamos apenas 16% do PIB, contra 30 e 50% na Índia e China). .É preciso portanto encontrar formas de aumentar a poupança doméstica e assim não depender tanto do capital externo para financiar nossos projetos de desenvolvimento (pré-sal, infraestrutura, educação etc), apesar da conjuntura externa favorável à obtenção de recursos para investimentos.

* Luiz Moricochi – Eng. agrônomo, ex-pesquisador científico, pós-graduado em economia pela ESALQ/USP e associado da Cocapec

Fonte: Revista Cocapec, edição 70 set/out

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