IMPRESSÃO DE DÓLARES PUXANDO ATIVOS

O FED americano anunciou na quarta-feira o “afrouxamento quantitativo II” (em inglês: “quantitative easing II” ou “QE2”) que terá US$ 600 bilhões destinados para compra de bonds de médio-prazo, e outros US$ 250 bilhões para compra de títulos ligados à hipoteca. O novo pacote provocou uma forte desvalorização da moeda americana, que negociou no nível mais baixo desde dezembro de 2009. Como consequência inversa os investidores correram para ativos de risco e reais, fazendo com que o índice de ações S&P atingisse o maior nível desde o dia da quebra do Lehman Brothers e os índices de commodities atingissem patamares apenas vistos em outubro de 2008.

A medida gerou reclamações de diversos países, principalmente dos que estão sofrendo com uma valorização acentuada de suas moedas. O próprio Brasil acusou os Estados Unidos de estarem transferindo seus problemas para o resto do mundo. Um contribuidor assíduo comparou o que os americanos estão fazendo com o que o Brasil fazia na década de 80 – bem, a grande diferença é que a moeda brasileira não tinha (tem) o status de reserva como o dólar. Enfim, as reclamações servirão apenas para que a China não faça ajustes na relação de seu superávit da balança com seu PIB sugeridos pelo secretário do tesouro americano.

Uma nova enxurrada de “impressão” de dólares, em um mundo carente de retornos em investimentos menos arriscados, leva investidores a comprar mais títulos de alta-rentabilidade (também chamados de junk-bonds). Outras alternativas têm sido investir em mercados emergentes que estão (por enquanto) indo muito bem, e comprar commodities para se proteger de uma eventual inflação.

Tudo isso serve para explicar os motivos pelos quais o mercado de café reverteu as fortes baixas vistas no começo da semana. A volatilidade, principalmente na recuperação do mercado, foi tão forte que fez com que o contrato de dezembro negociasse de US$ 192.80 centavos na quarta-feira para US$ 209.25 centavos, um dia depois. São US$ 21.76 dólares por saca em menos de 24 horas. Isto não é exclusividade apenas do café, pois o açúcar, e mesmo o mercado de moedas experimentaram volatilidades absurdas em um curtíssimo espaço de tempo.

Bem-vindos mais uma vez a interligação dinâmica dos mercados, que graças a diversos computadores que automaticamente calculam correlações entre dezenas (talvez centenas) de mercados, colocam ordens de compra e venda eletronicamente e acabam trazendo movimentos de curto-prazo que os hedgers não conseguem explicar (e os analistas só conseguem culpando os high-frequency traders e os traders de algoritmos). Enfim, é a realidade atual, e só nos resta nos adaptarmos.

Na bolsa de café em Nova Iorque, e mesmo em Londres, muito embora os preços atingidos sejam os mais altos em 13 anos e 2 anos, respectivamente, o volume negociado não foi grande, salvo na negociação dos spreads. A insana volatilidade no intra-day faz com que produtores, exportadores, comerciantes, e torrefadores (hedgers) participem mais como espectadores do que negociadores na bolsa.

Entre os receios que os comerciais têm, está o de não ter tempo de fazer o hedge no momento da compra ou venda do físico (que tanto pode resultar em melhores como piores fixações) – sair da frente da tela ficou proibido.

No mercado físico o volume negociado foi razoável, porém menor do que se imaginaria com a alta que tivemos dos futuros. Como a saca de café não subiu tanto quanto a bolsa, os diferenciais em geral baratearam, tanto no Brasil, como na América Central, Colômbia, África e Ásia. Ao menos em diferenciais os torradores tem conseguido cobrir parte de suas necessidades. Já com relação ao livro de futuros, os altistas apostam que há muito a ser comprado, e portanto crêem que o mercado subirá ainda mais. Sem falar, claro, que o contrato de Dezembro de 2010 em Nova Iorque entra em período de entrega a partir de 19 de novembro, e deve ter gente que precisa fixar até esta data.

Para finalizar vale registrar que a ICE divulgou que a idade média das 1,819,055 sacas de seu estoque era de 829 dias no fim de outubro. O desconto médio dos cafés era de US$ 13.44 centavos por libra, mas não custa lembrar que há lotes que tem desconto de quase US$ 40 centavos. Muito embora o café é barato, a manutenção dos preços altos dos terminais barateiam ainda mais os cafés novos nas origens, o que pode diminuir o índice de utilização dos certificados da bolsa.

No curto prazo continuaremos vendo a atividade concentrada nas rolagens das posições de dezembro para março. Como este spread chegou rápido nos US$ -2.50 centavos (que mencionamos no comentário da semana passada), e os fundos ainda têm bastante para rolar, devemos ver a diferença abrir para mais de US$ -3.00 centavos – valor que paga os custos até mesmo do carrego nos armazéns da Europa e dos Estados Unidos. A influência do macro continuará grande, assim como o cuidado dos participantes em não aumentar a exposição, tentando minimizar o risco do fluxo de caixa.

Uma ótima semana e muito bons negócios para todos.

* Rodrigo Corrêa da Costa escreve este relatório sobre café semanalmente como colaborador da Archer Consulting 

Fonte: Archer Consulting 

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