Fim de inverno continua seco na maior parte do Brasil

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Por Williams Ferreira¹ e Marcelo Ribeiro²

No Brasil, as chuvas até esse momento do mês de agosto têm se concentrado no extremo norte dos estados do Amazonas, Pará, Noroeste do Maranhão e ao longo do litoral do Espírito Santo até a Paraíba. Nas demais partes do país, prevalece o tempo seco.

As temperaturas têm aumentado gradativamente, o que poderá favorecer a próxima safra de verão, principalmente no Sudeste e no Centro Oeste do Brasil, apesar de algumas regiões do Paraná e do Rio Grande do Sul ainda continuarem um pouco abaixo da média do mês. O tempo favoravelmente mais quente voltou ao Sul do país.

O fenômeno ENOS

Nas últimas semanas, o sistema oceano-atmosfera tem refletido as condições ENSO-neutras, com anomalias na intensidade dos ventos alísios, os quais se tornaram mais fortes, na parte centro-leste do Oceano Pacífico.

Os modelos do Grupo Multi-Model norte-americano (Figura 1) indicam que as atuais condições de neutralidade deverão persistir até o final de setembro, com possibilidade do início de um evento La Niña fraco entre agosto e outubro, o qual poderá durar até o próximo verão, em 2022.

Todavia, apesar de nos próximos meses as águas mais profundas e mais frias observadas em julho na porção mais centro-leste do Oceano Pacífico equatorial (elipse em roxo na Figura 1) deverem se deslocar para a porção mais a leste do Pacífico; vindo, assim, reduzir a temperatura da superfície nessa região; esperamos que o evento La Niña não venha se configurar nos próximos meses, permanecendo, assim, as condições de neutralidade até verão 2022, que se iniciará no final de dezembro de 2021.

As chuvas nos próximos meses

Para Minas Gerais, é esperado que em setembro a chuva ocorra dentro da média normal para o período. Em outubro, as chuvas poderão ocorrer um pouco abaixo da média do mês em Pouso Alegre e em Itajubá, no Sul de Minas; na região de Campinas, em São Paulo; bem como nas regiões Sul e central do Espírito Santo. Em novembro, é esperado chuvas acima da média em todo o estado de Minas, com exceção da parte mais Oeste do Triângulo Mineiro e o extremo Norte do Vale do Jequitinhonha.

Para o trimestre que vai de setembro a novembro, é esperado chover pouco acima da média no Vale do Rio Doce e no norte da Zona da Mata, em Minas Gerais. No Rio Grande do Sul e Santa Catarina, é esperado que as chuvas ocorram abaixo da média. Já no Mato Grosso e na Bahia, é espera chuva acima da média no trimestre.

Neste ano, para a região Sudeste do Brasil, considerando as atuais condições climáticas e a possibilidade de continuidade das condições ENSO-neutras, o trimestre esperado como o mais chuvoso poderá ser outubro, novembro e dezembro.

As temperaturas nos próximos meses

Em setembro, é esperado que as temperaturas ocorram acima da média em todo o estado de Minas Gerais. Em outubro, espera-se que as temperaturas ocorram dentro da média, com exceção do Triângulo e do Noroeste de Minas, regiões onde as temperaturas poderão ocorrer acima da média, bem como nas regiões do Sul e do Centro Sul baiano.

Em novembro, é esperado que as temperaturas ocorram um pouco abaixo da média do mês na parte mais ao Sul da Zona da Mata mineira e nos municípios de Andrelândia, São Lourenço, Itajubá e Santa Rita do Sapucaí, no Sul de Minas, e também na região do Campo das Vertentes. Considerando o trimestre de setembro a novembro, é esperado que as temperaturas ocorram um pouco abaixo da média nos municípios de Ubá, Cataguases e Viçosa, na região da Zona da Mata mineira.

A umidade do solo na região das Matas de Minas

Em 2021, em Manhuaçu, o armazenamento de água no solo se manteve com níveis adequados até os primeiros dez dias de março. Isso ocorreu devido ao solo já se encontar com níveis adequados desde dezembro de 2020, bem como em janeiro ter chovido 368 mm, em sua maior parte nos primeiros dez dias do mês, mantendo o solo moderadamente úmido até março.

Em fevereiro, a chuva também foi boa, sendo que, dessa vez, os 365 mm caíram mais concentrados nos últimos vinte dias do mês. Em março choveu mais 131 mm, nos primeiros dez dias. Essa distribuição de chuva no início desse ano deixou o solo com níveis adequados para a cafeicultura no município de Manhuaçu (Figura 3).

A partir do final de abril, considerando a redução do volume de chuvas, e ao longo de maio e junho, o solo passa a apresentar volume limitado de água. Devido a falta de chuvas, o mês de julho apresenta com insuficiência hídrica.

Desde dezembro de 2020, os municípios de Espera Feliz, Santa Margarida e Lajinha já apresentavam redução no armazenamento de água no solo. Esses municípios, além de Divino, vêm apresentando redução hídrica desde março, estando também desde julho em condições de insuficiência hídrica.

Apesar do menor volume de chuvas ocorridas em 2021, o município de Ervália, quando comparado aos demais municípios analisados, apresentou condição de insuficiência hídrica apenas a partir dos últimos dez dias de julho. Isso ocorreu devido a melhores condições hídricas em dezembro de 2020, bem como a melhor distribuição das chuvas ao longo de fevereiro e março.

Café 

A florada do café, esperada para os próximos meses, poderá ser afetada caso a previsão de tempo seco e a elevação das temperaturas na região cafeeira venha a se confirmar nos próximos meses. Tal fato, que preocupa os produtores, poderá contribuir negativamente para a próxima safra, que já foi afetada pela seca, que reduziu o desenvolvimento de ramos produtivos, pela geada, e pela severa desfolhacausada pelo bicho mineiro e pela ferrugem. Porém, ainda é cedo para mais estimativas. É preciso aguardar as próximas floradas.

Nas regiões onde ocorreu geada em julho, os produtores devem aguardar as novas brotações para decidirem sobre a necessidade da realização de podas. Nas regiões onde não ocorreu geada, as podas devem ser realizadas o mais rápido possível nas lavouras em avançada condição de depauperamento.

O início das podas deve ocorrer pelos talhões que já vêm apresentando novas brotações e, posteriormente, nos talhões que apresentarem alto desfolhamento. Considerando que a próxima safra é de bienalidade alta, os cafeicultores devem podar o mínimo possível as lavouras. Além disso, devem aproveitar a mão de obra da pós-colheita e realizar as desbrotas nas lavouras que foram podadas no ano anterior.

Nesse período, é também recomendado a coleta e a análise de solos para o planejamento das futuras adubações, mesmo diante da possibilidade de poucas chuvas no início da próxima estação chuvosa.

Outra atividade que deve ser feita neste período pós-colheita e com poucas chuvas é a calagem, a qual deve ser realizada com base nos resultados de uma análise de solos. Nessa atividade, o produtor deve estar atento para que o calcário seja distribuído, principalmente sob a saia do cafeeiro.

Finalmente, o uso de irrigação, quando disponível, poderá também favorecer a lavoura nesse período de estresse hídrico.

Prognóstico

As análises e os prognósticos climáticos aqui apresentados foram elaborados com base nas estatísticas e nos históricos da ocorrência de fenômenos climáticos globais, principalmente daqueles atuantes na América do Sul.

Considerou-se, também, as informações disponibilizadas livremente pelo NOAA; Instituto Internacional de Pesquisas sobre Clima e Sociedade — IRI; Met Office Hadley Centre; Centro Europeu de Previsão de Tempo de Médio Prazo — ECMWF; Boletim Climático da Amazônia elaborado pela Divisão de Meteorologia (DIVMET) do Sistema de Proteção da Amazônia (Sipam) e com base nos dados climáticos disponibilizados pelo INMET. (5º Disme) / CPTEC-Inpe.

O prognóstico climático faz referência a fenômenos da natureza que apresentam características caóticas e são passíveis de mudanças drásticas. Desta forma, a Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (EPAMIG) e a Embrapa Café não se responsabilizam por qualquer dano ou prejuízo que o leitor possa sofrer, ou vir a causar a terceiros, pelo uso indevido das informações contidas no texto. Portanto, é de total responsabilidade do leitor o uso das informações aqui disponibilizadas.

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  1. Williams Ferreira é pesquisador da Embrapa Café/EPAMIG Sudeste na área de Agrometeorologia e Climatologia, atua principalmente em pesquisas voltadas para o tema Mudanças Climáticas Globais e cafeicultura. – williams.ferreira@embrapa.br .
  2. Marcelo Ribeiro é pesquisador da EPAMIG na área de Fitotecnia, atua em pesquisas com a cultura do café. mribeiro@epamig.br.

Fonte: Comunicação Epamig