Em nome de um café de melhor qualidade

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Um novo projeto de sequenciamento genético do café arábica, financiado pelas empresas italianas illycaffè e Lavazza e desenvolvido por universidades do país europeu, promete gerar informações capazes de estimular a melhoria da qualidade do produto servido aos consumidores finais. Os investimentos superaram € 1 milhão.

O trabalho, anunciado na semana passada, foi conduzido por um pool formado pela Universidade de Trieste, pela Universidade de Pádua e pelo Instituto de Genômica Aplicada de Udine. O projeto decodificou um organismo tetraploide, com DNA duas vezes maior que o do café robusta. O arábica é originário de duas espécies de café: Coffea canephora (robusta) e Coffea eugenioides. Com essa decodificação, é mais difícil identificar os genes, pois o arábica tem quatro genitores (pais), ante os dois do robusta.

O coordenador do estudo, o professor do Departamento de Ciências para a Vida da Universidade de Trieste, Giorgio Graziosi, disse que mais de 50% dos genes do café arábica foram sequenciados. Ainda serão necessários alguns anos para avançar no conhecimento de outros genes. "Precisamos saber mais sobre o café e isso possibilitará uma aplicação prática mais rápida da pesquisa", afirma ele. Conforme Graziosi, alguns dos resultados verificados no sequenciamento já estão sendo utilizados pela Universidade de Triste.

Para Andrea Illy, CEO da illycaffè, o sequenciamento permitirá melhorar as práticas agrícolas e, em geral, elevar a produtividade das lavouras. "Seremos capazes, por exemplo, de sincronizar o processo de maturação dos grãos, identificar os genes que melhoram a resistência da planta a doenças e adaptar cultivos a condições desfavoráveis ligadas às características de solo e clima".

Giuseppe Lavazza, vice-presidente da Lavazza, acrescenta que as aplicações do sequenciamento na pesquisa poderão também levar em conta o teor de cafeína ou a espessura das paredes das células, que interfere na extração da bebida a partir do café em pó. "Esse projeto, único no panorama da pesquisa genômica no mundo, é o primeiro passo para a obtenção de aplicações agrícolas e industriais importantes. Ter um bom conhecimento da genética das plantas é pré-requisito para se ter um produto de qualidade – e, portanto, uma boa xícara de café", afirma.

Mas esse não é o primeiro sequenciamento do café arábica feito no mundo. Em 2004, o Consórcio Pesquisa Café, formado por diversas instituições brasileiras, entre elas a Embrapa, foi pioneiro ao anunciar o sequenciamento do chamado "genoma funcional" da espécie – ou seja, catalogar os genes que se expressam na planta e que são fundamentais para o funcionamento do organismo. Esse genoma funcional faz parte do genoma estrutural, que é o mais completo da planta. Uma mutação no genoma estrutural também pode trazer alterações na planta, conforme Alan Carvalho Andrade, pesquisador da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia.

Há cerca de dez anos, diz Andrade, o custo para se fazer um sequenciamento do genoma estrutural era " impensável". Hoje é possível fazer essa análise por cerca de R$ 500 mil. Em 2004, observa, o sequenciamento funcional custou em torno de R$ 2 milhões, considerado um valor baixo perante outros genomas.

Além disso, a tecnologia evoluiu muito. O que levava anos, hoje é possível fazer em duas horas. O sequenciamento é como um jogo de quebra-cabeça no qual peças quebradas em minúsculos pedaços são novamente organizadas segundo sua lógica original.

Conforme Andrade, o sequenciamento do genoma funcional, em 2004, formou uma base fundamental para todos os outros estudos na área de café. Ele disse que, à época, foram identificados cerca de 30 mil genes da espécie. Tanto que o genoma do café robusta, realizado por um consórcio internacional de pesquisa, do qual a Embrapa faz parte, foi finalizado no fim de 2012 e sua publicação em uma revista científica deverá ocorrer em breve.

Desde o início de 2013, Andrade participa também de um projeto para o sequenciamento estrutural do arábica que tem a participação da multinacional Nestlé e de pesquisadores estrangeiros. Por já existirem dados disponíveis do robusta, uma das bases genéticas do arábica, a análise do DNA do produto fica mais fácil.

O que se busca com esses sequenciamentos e com a comparação de genomas é o desenvolvimento mais rápido e com custo mais baixo de variedades de café resistentes à seca e doenças, altamente produtivas e com melhor qualidade. Sem esse parâmetro da genética, é preciso cultivar os materiais no campo e esperar três anos para analisá-los, o que também acaba inflando custos.

Com o conhecimento dos genes, é possível fazer uma seleção prévia das cultivares e somente plantar as mudas que já se sabe que terão as características desejadas. Um outro avanço é permitir a rastreabilidade dos grãos, uma demanda da indústria e, principalmente, dos consumidores.

Apesar dos avanços alcançados até agora, nenhuma variedade com essa tecnologia, a chamada seleção genômica, foi lançada comercialmente até agora. A ideia é ter um material superior que reúna todas as características desejadas. A expectativa é que essa cultivar seja lançada em um ou dois anos, diz Andrade.

Fonte: Valor Econômico

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