Dólar forte beneficia café do Brasil e faz vietnamitas saírem do mercado

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O agricultor vietnamita Y Kua Mlo está armazenando café em seu quarto. Ele não quer vender as sacas porque a valorização do dólar está reduzindo a cotação internacional do café e tornando o produto menos lucrativo na moeda local, o dong, que é atrelado ao dólar. A esposa de Mlo quer que ele plante outra coisa.

Enquanto isso, no Brasil, João Elvidio Galimberti está plantando mais café porque a forte desvalorização do real em relação ao dólar tornou o grão brasileiro mais lucrativo.

O fortalecimento do dólar está criando vencedores e perdedores nos mercados de commodities. Essa tendência está contribuindo para redefinir o comércio internacional de commodities, do trigo ao café, aumentando o excesso de oferta em alguns setores, como o de cobre, e agravando as tensões em outros, como o de petróleo, ao encarecer o produto para muitos compradores.

No mercado de café, o desequilíbrio criado pelo dólar entre os dois maiores produtores mundiais, Brasil e Vietnã, está pressionando o preço do grão do tipo robusta — de qualidade inferior e usado para fabricar café instantâneo — ao encorajar os produtores brasileiros a plantar mais. Ao mesmo tempo, os produtores vietnamitas são pressionados a migrar para outras culturas, como a pimenta, duas tendências que podem ter um impacto de longo prazo na produção de café.

“O preço do café está terrivelmente baixo e nenhum de nós quer vender os grãos agora”, diz Mlo, que fica em Dak Lak, principal região cafeicultora do Vietnã.

Em 2015, o preço do robusta em dólar caiu mais de 29%. Com o dong atrelado ao dólar, o preço local na moeda vietnamita recuou quase o mesmo tanto, 27%, o que incentivou os produtores a estocarem o produto.

“Os preços da pimenta estão mais atraentes do que os do café hoje”, diz Mlo, que está guardando as sacas no armazém e no seu quarto.

Mlo pode obter 34 mil dongs (US$ 1,52) por quilo, mas está esperando o preço passar dos 40 mil dongs para começar a vender o produto. Ele diz que vai mantê-lo estocado pelo menos até setembro. A armazenagem contribui para uma oferta represada que dificulta a alta do preço do robusta para tal nível no Vietnã.

As exportações de robusta do Vietnã caíram mais de 20% no ano passado em relação a 2014, segundo dados do governo, apesar de uma safra que analistas dizem ter sido grande.

Alguns operadores acreditam que os estoques vão acabar chegando ao mercado, mas que, enquanto isso, essa oferta represada pressionará os preços.

Enquanto o preço do robusta caiu para os agricultores vietnamitas, ele subiu em reais no Brasil e hoje está praticamente nivelado ao do ano passado. A moeda brasileira se desvalorizou mais de 30% nos últimos 12 meses em relação ao dólar.

Galimberti é um produtor do Espírito Santo, Estado que registrou exportações recorde de robusta no ano passado. “Este ano estou replantando, como sempre, e estou também acrescentando mais pés de café”, diz. “Nesse preço, é sustentável.”

Enquanto os estoques vietnamitas crescem, os agricultores brasileiros estão se beneficiando do câmbio para se livrar de estoques enormes do grão, inclusive antigos. Isso elevou as exportações brasileiras do ano passado em 21%, de acordo com o Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé).

Juntos, o Brasil e o Vietnã produzem mais de dois terços do café robusta consumido no mundo, de acordo com o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos.

O Brasil também é o maior produtor mundial de café arábica, produto geralmente de qualidade superior. Os preços do arábica também têm sido afetados pelo dólar forte, à medida que a renda extra obtida com sua venda incentiva as exportações do Brasil e da Colômbia.

As variações cambiais, a seca que atinge regiões produtoras e os estoques reduzidos no Brasil poderiam rapidamente mudar a dinâmica entre os dois países, de acordo com alguns analistas.

A recente seca que atingiu grandes localidades produtoras de robusta no Brasil, como o Espírito Santo, principal Estado produtor dessa variedade, ocorreu num momento em que os estoques já estavam baixos, uma vez que os operadores tinham exportado o acumulado de safras antigas. Isso poderia reduzir a oferta e elevar os preços globais ao longo da atual safra.

O fortalecimento do dólar tem causado distorções em todo o setor de commodities. Ele tem sido um catalisador da queda dos preços do petróleo, que já dura 20 meses, à medida que torna o produto mais caro para a maioria dos compradores.

As moedas dos países emergentes são as que mais sofreram com a valorização do dólar. E muitos desses países, como Rússia e África do Sul, são grandes exportadores de commodities. Isso tem amortecido o impacto dos preços baixos das commodities e permitido que esses países continuem extraindo recursos naturais, como cobre e minério de ferro, saturando o mercado e pressionando os preços ainda mais para baixo.

O dólar forte também tornou as exportações americanas menos competitivas. Os EUA foram superados pelo Canadá como maior exportador mundial de trigo, posição que a Rússia deve roubar na safra atual. A moeda russa, o rublo, acumula queda de 19% em relação ao dólar desde o início do ano passado, enquanto a desvalorização do dólar canadense foi bem menor, de 10%.

O efeito do dólar sobre o café fez com que Mlo agora considere migrar para outras culturas. “Não fico à vontade vendo as sacas de café espalhadas pela casa, mas não sabemos o que mais fazer com elas”, diz ele.

Fonte: The Wall Street Journal (Katherine Dunn de Londres, Vu Trong Khanh de Hanói e Jeffrey T. Lewis de São Paulo)

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