DÓLAR BARATO E PROXIMIDADE DO INVERNO

O banco central americano manteve em seu discurso que as taxas de juros continuarão baixas por um “período prolongado”, ponderando que o aumento da inflação provocado pela alta das commodities é apenas temporário. No comunicado foi anunciado o esperado fim do programa de compra de títulos para junho próximo (conhecido como QE2), porém a maioria dos participantes do comitê concordou com a manutenção de estímulos até que o mercado de trabalho melhore e o crescimento ganhe robustez. Na prática o dólar continua sendo uma das fontes de financiamento mais baratas, e a consequência é a depreciação maior da moeda, que escorregou para o menor nível em 3 anos. 

Ativos de risco atraíram investidores, mesmo com alguns números negativos das economias americana e alemã divulgados na quinta e sexta-feira, e os principais índices acionários e das commodities fizeram uma nova alta no ano. Só para não deixar de citar, o ouro e a prata bateram novos recordes de preços altos. 

O mercado de café em Nova Iorque começou a semana em queda com uma leva tomada de lucros, porém a correção foi de curtíssima duração, e na sequência os preços recuperaram rapidamente com negociações diárias dilatadas e em muitas vezes com baixo volume – ou seja, nada de novo. 

Londres, durante os únicos 3 dias que abriu na semana, voltou a subir sendo que na terça-feira a movimentação foi para lá de volátil, abrindo o dia à US$ 2,357 / ton e fazendo a máxima no fim da sessão à US$ 2,549 /ton, uma oscilação de US$ 192 por tonelada, ou US$ 11.52 por saca!! 

Em resumo as bolsas de café alcançaram novas máximas, recuperando com facilidade as baixas sofridas durante os pregões, ajudadas pela escassez de vendas das origens, e um pouco pela inquietação de quem precisa ter uma melhor cobertura antes do início do inverno no Brasil. 

As chuvas ininterruptas e intensas na Colômbia promovem algum suporte ao mercado, as custas de uma situação triste para a população e de perdas parciais de floradas e de algumas áreas plantadas que tiveram deslizamento de terra. Por outro lado impressiona o barateamento dos diferenciais para os cafés do país, que segundo fontes negociam a apenas um dígito, e que reflete em outras origens produtoras de suaves, como Honduras que está saindo a diferenciais negativos. 

A demanda recuada para o café verde é um contraponto para a firmeza do mercado futuro, assim como o incremento dos cafés certificados na ICE. Inicialmente acreditávamos que uma boa parte das novas certificações eram ligadas a facilidade de financiamento, porém com os diferenciais se alinhando aos níveis pagos pelo “C”, e o interesse de compra da indústria desaparecendo, curiosamente a bolsa acaba sendo o melhor comprador do momento. Estranho sinal de divergência com toda a conversa altista que emana principalmente da maior origem produtora, o Brasil. Talvez o volume de café existente sendo tão baixo no país, e alguns exportadores tendo que cobrir parte de suas exposições, acabam transpirando para esta percepção. Entretanto eu creio que o recado é que os torradores estão buscando alternativas mais baratas de café, como os grinders que podem ser comprados com desconto de US$ 50 centavos ou mais, ou ainda os naturais da Etiópia que tem atraído compradores graças aos seus 60 centavos de desconto. 

Caso os blends de fato tenham migrado definitivamente para um uso “mínimo de cafés-suaves”, e dado que consumo final não tenha sofrido impacto, não seria difícil imaginar uma mudança (certamente longe de ocorrer) do contrato “C”, não?! Claro que o tema é delicado, e se torna provocativo dependendo de como queira se interpretar, mas minha intenção é apenas alertar para o esvaziamento do mercado e o aumento do uso dos naturais, brasileiros ou não, nas misturas em geral. No frigir dos ovos as qualidades de café de diversas origens melhoraram muito, não apenas do Brasil mas de Peru, Honduras, e até dos africanos, e tudo resultado do estímulo dos preços internacionais atrativos para os grãos de qualidade. 

Bem, de qualquer forma os estoques baixos no mundo, o dólar “barateando” as commodities, e a inflação aumentando não apenas nos países emergentes mas nos chamados de “ricos”, continuarão a deixar o mercado leve para que os fundos-de-curto-prazo comprem mais futuros. Digo os de curto-prazo pois os de longo-prazo não conseguem defender para os seus investidores que é uma boa comprar café a US$ 300.00 centavos por libra-peso, preço que remunera até o mais ineficiente produtor de café no mundo, dando rentabilidades de mais de 100% para os mais eficientes. Isto sem falar que o ícone do consumo, Starbucks, declarou nesta semana que os preços atuais do café são insustentáveis. 

Não falo isto para “atacar” os ganhos merecidos dos fazendeiros, que diga-se de passagem por muito tempo se mantiveram na produção apesar de sofrerem com preços baixos e muitas vezes não lucrativos. Apenas menciono os pontos acima como um alerta para que não se inebriem das altas consecutivas e eventualmente não aproveitem as oportunidades, pois é certo que o café não subirá eternamente. E o pior é que a maior parte dos analistas reforçam o sentimento, dizendo que os preços vão subir muito mais, e muitos deles são os mesmos que estavam baixistas há um ano atrás, quando o mercado estava a US$ 130 centavos e eu em minha apresentação no seminário do Guarujá mostrava alguns motivos que me faziam altista na época. Claro que eu não imaginava que os preços dobrariam, mas acreditava sim que os preços poderiam bater até US$ 180 ou US$ 200 centavos por libra apesar da safra recorde brasileira que estava sendo colhida.

Ou seja, eu também errei!

Uma ótima semana e muito bons negócios para todos,

* Rodrigo Corrêa da Costa escreve este relatório sobre café semanalmente como colaborador da Archer Consulting

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