Crise eleva consumo de café na classe média

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Quem toma café, sabe: ele vai bem nas horas boas e más. Em tempos de aperto de cinto, não é diferente: da conversa de família para ajustar as contas àquela tensa reunião de negócios, ele não sai do menu. Os efeitos relaxantes e excitantes fazem do cafezinho companheiro inseparável, sobretudo nas horas difíceis. O hábito torna o consumo do café crescente, mesmo em épocas de crise.

É o que assegura a Associação dos Produtores de Café da Bahia (Assocafé). "Com crise cíclicas, intercaladas por momentos de euforia, a demanda por café, seja no Brasil ou em outros países, é sempre maior que a oferta", diz o presidente da entidade, João Lopes Araújo. Ele lembra que o consumo do produto vem crescendo em todo o mundo, principalmente, nos países asiáticos, onde o chá já começa, aos poucos, a ser substituído pelo café.

Custos altos
Engana-se, entretanto, quem pensa que, com a crise, a cafeicultura brasileira deve estar lucrando como nunca. Segundo Araújo, se por um lado o consumo aumenta, por outro, o setor não escapa dos efeitos nocivos da crise: "a alta dos juros afetando o crédito rural, a valorização do dólar, principal indexador dos insumos e as elevadas cargas tributária e social inviabilizam melhores resultados para os cafeicultores do país, que ainda sofrem com questões climáticas, como geadas e estiagens", explica Araújo.

Se fosse apenas pela demanda garantida do produto, o café, sem dúvida, estaria entre os negócios mais rentáveis. Conforme relatório, divulgado na última quinta-feira, pelo Rabobank, banco holandês de forte atuação no agronegócio internacional, o déficit do produto no mundo é de 2 milhões de sacas.

Ainda é pouco
Ou seja: ainda faltam 2 milhões de sacas de café para atender à procura pelo produto mundialmente. "Uma demanda que faz com que o negócio tenha sempre um lastro garantido, sobretudo para quem investe em qualidade", afirma Araújo, que também faz parte do Conselho Nacional do Café (CNC). Pelas estimativas da CNC, o déficit mundial é ainda maior: 5 milhões de sacas.

"Tomo, pelo menos, doze xícaras de café por dia", conta o empresário baiano Abner Castelo Branco, que atua no ramo imobiliário. "Não há bebida mais apropriada para fechar um negócio", completa. Em caso de reuniões mais informais, ele já marca com os interessados em cafés (estabelecimentos) que já criaram ambientes apropriados para encontros de trabalho a serem selados ao gosto do cafezinho.

No seu escritório, ele também notou o aumento do consumo do café entre os funcionários. "O café é energizante, portanto, excelente para os desafios que temos que enfrentar atualmente", afirma.

Na Avenida Tancredo Neves, em Salvador, considerada o centro financeiro da capital baiana, os cafés lotam de executivos e profissionais em geral que não dispensam o café para discutir as perspectivas em relação a crise. "É o caso dos amigos Admar Fontes e Humberto Teixeira, funcionários públicos.

"Não abro mão de café seja em época de crise ou não", afirma Admar Fontes. Ele é um dos frequentadores dos cafés instalados nos edifícios empresariais do local. Mesmo com a crise, ele e o amigo não dispensam um bom café gourmet.

"Não tem um dia sequer que fique sem um bom cafezinho", completa Humberto Teixeira.

Qualidade
Responsável por 8% da produção nacional (ver matéria nesta página), o café produzido na Bahia destaca-se mais pela qualidade do que pela quantidade. "Nosso foco é o crescimento anual de 15% que tem sido verificado no consumo dos cafés especiais", afirma João Araújo, da Assocafé.
Segundo ele, o estado tem se destacado nos concursos nacionais de café, tendo ocupado, no ano passado, da primeira à quarta classificação entre os melhores do país.

"É um fator importante para ampliar nossas exportações de café de maior valor agregado", diz Araújo. Ele lamenta, entretanto, que a produção brasileira ainda seja pouco industrializada, com pouca exportações das cápsulas usadas nas maquininhas de café expresso.

Mas faz o comercial: "Temos, sim, um dos melhores cafés do Brasil, inclusive para combater as tensões da crise", diz, bem-humorado.

Classe alta consome cada vez mais o produto tipo gourmet
O consumo do café no Brasil tem aumentado principalmente na classe média. Segundo o presidente da Associação dos Produtores de Café da Bahia (Assocafé), João Lopes Araújo, o produto tem crescido nessa faixa da população, inclusive com aumento da frequência em estabelecimentos especializados na comercialização do produto.

A classe alta, por sua vez, está cada vez mais consolidando o mercado interno dos cafés especiais, tipo gourmet. Já nas classes mais baixas, em que o café é item essencial na alimentação, o consumo tem migrado para produtos mais baratos, chamados pelos produtores de PVA (preto, verde e ardido), por conta da qualidade inferior. “Mas, sem alterar os níveis de consumo”, frisa Araújo.

Para o mundo
O Brasil é o maior produtor mundial de café e o segundo maior consumidor, ficando atrás apenas dos Estados Unidos. A produção nacional, que era de 55 milhões de sacas, está atualmente em 43 milhões, por conta de questões climáticas que afetaram as plantações de Minas Gerais, maior produtor nacional.

“Como a lavoura do café demora a se recuperar, temos atendido atualmente já bem abaixo da demanda”, informa Araújo, ressaltando que o país vende o produto in natura para países que exportam o café industrializado, a exemplo da Alemanha. Das 30 milhões de sacas exportadas, apenas 3 milhões são industrializadas.

Fonte: A Tarde Online (Joyce de Souza)

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