Cooperação aumenta lucro e qualidade de cafeicultores

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Maria de Lourdes Cunha de Oliveira em sua fazenda em Divinolândia (Foto: Karin Salomão)

Elas eram apenas mulheres. Ajudavam seus maridos no trabalho pesado das lavouras de café, de sol a sol estavam no campo, colhendo e cuidando dos pés, vendiam as sacas a preços baixos. Hoje, são produtoras de café gourmet, de qualidade para exportação, graças à união dos cafeicultores em uma associação.

Nos morros de serras entre São Paulo e Minas Gerais, os cafeicultores não podem usar máquinas grandes, que não conseguem passar pelas montanhas. Por isso, a colheita tem que ser feita de forma manual, quase artesanal. Assim, a produção também é menor.

Por isso, os cafeicultores eram simples e com propriedades pequenas em Divinolandia, cidade do interior de São Paulo, divisa com Minas Gerais, lutando para sobreviver em um mundo de grandes produtores.

Foi quando a cidade decidiu se organizar; juntos, podem ter mais força no mercado do café. A Associação de Cafeicultores de Montanha de Divinolândia (Aprod) foi criada em 2006 e hoje une 42 fazendas. Os pequenos produtores, que antes não conseguiam competir no mercado da commodity, agora estão buscando fazer um café de qualidade.

Em junho, a Aprod conseguiu uma linha de crédito para o Fundo de Expansão do Agronegócio Paulista (Feap), aprovado pelo Microbacias II – Acesso ao Mercado, em 2012. Essa é a primeira vez que uma associação consegue o recurso para ser usado na contrapartida.

Com o total arrecadado, será construído um barracão, com armazém e administração, além da instalação de uma unidade de beneficiamento de café, que fará a separação por peneira, ventilação e catação eletrônica do café.

Também serão compradas máquinas para a seleção e armazenamento de grãos. Esse barracão não poderia ser construído pelos agricultores separadamente e só é possível graças à união.

Além disso, a Aprod recebeu a certificação Fairtrade (Selo do Comércio Justo) em 2012, que além de estabelecer um preço mínimo pelo qual o café deve ser vendido internacionalmente e que ainda premia a associação ou cooperativa por cada saca comercializada.

Melhorias

Todos esses benefícios só foram possíveis graças à união dos cafeicultores. Além dos investimentos, a associação também promove cursos e workshops de café em sua sede. Assim, entendem o que faz um café de qualidade. Com os cursos, aprenderam a separar o café: separam cada variedade e dividem o grão maduro do verde.

Os produtores também descobriram que a luz da manhã produz o melhor grão. Como a incidência do sol pela manhã é mais suave, o grão demora mais a amadurecer e, como consequência, fica mais concentrado e doce.

Colheita de café em Divinolândia (Foto: Karin Salomão)

Mulheres
Além dos cursos, outra exigência da certificadora Fairtrade era ampliar o acesso das mulheres na associação, que entraram na Aliança Internacional das Mulheres do Café.

As associadas dizem que o mercado ainda é machista e que há desconfiança quando são mulheres comandando o negócio. No entanto, isso está mudando. “Antes, a gente não podia dar a opinião, porque não entendia de café. Hoje, a associação nos deu empoderamento”, diz Carmen Silvia de Ávila da Costa, coordenadora das Mulheres do Café da Aprod, em Divinolândia.

Mesmo que cada produtor consiga colher apenas uma quantidade pequena, a associação consegue unir safras de diversos produtores para negociar preços mais competitivos. A melhora da qualidade do produto e a certificação de qualidade também ajudam a elevar os preços.

Divinolândia pertence a uma região de montanhas; a altitude, mais de 1200m, o clima frio e o vento são perfeitos para a produção de café de qualidade. Mas, ainda que a região sempre fosse conhecida historicamente por produzir grãos de qualidade, nem todos os cafeicultores pequenos aproveitavam essa fama.

“Desde criança eu cuido de café e eu nem sabia que meu café era bom assim”, diz Maria de Lourdes Cunha de Oliveira, com o rosto redondo e queimado pelo sol, como um grão de café. “Era o meu marido que cuidava da fazenda. Eu aprendi e agora cuido melhor, para ter mais lucro”. Sua produção já era boa, hoje é ainda melhor. Por causa da Associação Internacional de Mulheres do Café, Lourdes fez diversos cursos e workshops na Aprod.

Ano passado, seu esforço foi recompensado. Sua fazenda recebeu o prêmio de melhor café da região em competição nacional e teve destaque em uma feira internacional, nos Estados Unidos. Hoje, ela é muito mais do que uma pequena fazendeira. É uma cafeicultora de alta qualidade, exportando para grandes clientes, emancipada como mulher produtora.

Fonte: Globo Rural Online

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