Cerrado Mineiro é destaque na produção de cafés diferenciados

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Composta por 55 municípios localizados no noroeste do Estado de Minas Gerais, a Região do Cerrado Mineiro, até então reconhecida por obter a primeira Indicação de Procedência – IP para café no Brasil, conquistou, recentemente, a primeira DO para café no país.

 

Tanto o DO como o IP são indicações geográficas que se referem a produtos ou serviços de uma origem geográfica específica. Os registros reconhecem reputação, qualidades e características que estão vinculadas ao local. De acordo com o INPI – Instituto Nacional da Propriedade Industrial, uma indicação geográfica comunica ao mundo que determinada região se especializou e tem capacidade de produzir um artigo diferenciado e de excelência.

O novo registro, de Denominação de Origem, concedido pelo Inpi, vai além das características do território. Ele valoriza e diferencia ainda mais o produto. Para se conquistar uma DO é preciso comprovar que o café produzido naquela região é único, possui características que somente podem ser obtidas naquele local. Isso envolve não somente fatores naturais como clima, solo, relevo e altitude, mas também fatores humanos. A soma desses fatores forma o “saber fazer”, que distingue o produto daquela região.

As tecnologias empregadas na produção do café da Região do Cerrado Mineiro foram determinantes para viabilizar a cafeicultura no local e até hoje continuam influenciando diretamente o “saber fazer” e as características do produto. Para cumprir o desafio de produzir cafés de qualidade no Cerrado, as instituições do Consórcio Pesquisa Café, coordenado pela Embrapa Café, juntaram esforços em projetos multidisciplinares e desenvolveram tecnologias inovadoras para essa região, caracterizada por estiagens prolongadas e solos de baixa fertilidade. Dentre as principais tecnologias utilizadas nesse sistema produtivo destacam-se a correção do solo, adubação, irrigação e cultivares.

Correção do solo e adubação – Por meio de pesquisas desenvolvidas pelas instituições integrantes do Consórcio Pesquisa Café (Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais – Epamig, Universidade Federal de Lavras – Ufla, Universidade de Uberaba – Uniube e Universidade Federal de Uberlândia – Ufu) foi possível o desenvolvimento de técnicas para produção em solos tropicais de Cerrado, o que possibilitou utilização da calagem e gessagem para correção da acidez do solo. Foram introduzidas também técnicas de adubação para correção da fertilidade do solo da região.

“Podemos dizer que as instituições do Consórcio tiveram papel decisivo para que a cafeicultura do Cerrado viesse a ter hoje o sucesso que tem, pois viabilizaram a produção em nossos solos”, disse o Diretor de Marketing da Federação dos Cafeicultores do Cerrado, Juliano Tarabal.

Tarabal acrescenta que a Região do Cerrado Mineiro é reconhecida por ter 100% das propriedades mecanizadas, empregar a agricultura de precisão, fazer uso da fertirrigação, quimigação e irrigação subterrânea, entre outras técnicas. A região possui o custo de produção mais competitivo da cafeicultura brasileira. Além disso, a cafeicultura familiar local é também altamente competitiva, realiza mecanização técnica e comercializa.

Estresse hídrico – A irrigação de café com estresse hídrico controlado veio para contradizer a ideia de que a irrigação durante o ano todo faz parte do manejo eficiente de cafeeiros no Cerrado. Essa tecnologia de manejo de água na cafeicultura irrigada, desenvolvida pela Embrapa Cerrados, no âmbito do Consórcio Pesquisa Café, foi validada não só em experimentos como também em fazendas produtivas de várias regiões brasileiras. “Partimos da teoria de que as necessidades fisiológicas das plantas devem ser respeitadas. Caso contrário, tem-se grande variação anual da produtividade, como bienalidade acentuada e desuniformidade na maturação dos frutos, devido à ocorrência de múltiplas floradas”, explica o pesquisador e gerente de pesquisa e desenvolvimento da Embrapa Café, Antonio Fernando Guerra.

Segundo o gerente de pesquisa, a prática do estresse hídrico controlado não custa nada mais ao produtor e ainda traz redução dos custos de água e energia (em média de 33%), economia no processo de colheita e uma visão sustentável do agronegócio, tanto do ponto de vista ambiental como da competitividade. “O uso do estresse hídrico controlado na estação seca do ano proporciona uniformização da florada do cafeeiro e, consequentemente de maturação, é um processo tecnológico que também permite a obtenção de 85% ou mais de frutos cerejas no momento da colheita, maximizando a produção de cafés especiais, de maior valor de mercado. Além disso, garante redução de 20% para 10% de grãos mal formados e reduz em 40% a operação de máquinas. É a viabilização e a otimização da cafeicultura irrigada no Cerrado brasileiro”, conclui.

Adubação fosfatada em café – De acordo com Antonio Guerra, hoje sabe-se que há resposta à adubação de fósforo em cafeeiros. “Em geral, essa tecnologia é usada em conjunto com a irrigação, mostrando sinergia. Há também, como resposta, expressivo aumento de produtividade, mais energia, vigor e sanidade das plantas”, completa Guerra.

O estudo mostrou que o cafeeiro responde positivamente à aplicação de fósforo no solo em sua fase de produção e comprovou que a adição do fósforo traz benefícios para a planta tanto em solos de média a alta fertilidade como também em solos de baixa fertilidade, como os do Cerrado, onde a planta responde com grande intensidade.

As pesquisas sobre a influência do fósforo no cafeeiro puderam ser intensificadas a partir do desenvolvimento da tecnologia do estresse hídrico controlado. “Existia uma demanda crescente por informações sobre a influência da adubação fosfatada no desenvolvimento, vigor das plantas e pegamento da florada. Além disso, pode-se constatar que o nível de fósforo observado nas análises do solo de alguma forma não representava o que realmente estava disponível para os cafeeiros. Os resultados demonstram que o ajuste nutricional é necessário também nas lavouras de sequeiro”, concluiu o pesquisador.

A bienalidade do cafeeiro é uma questão intrínseca da planta de café e a adubação fosfatada indicou que ela é influenciada também pelo manejo, sendo possível, com práticas agrícolas adequadas, reduzir sua intensidade e manter uma produção mais equilibrada, com maior uniformidade na maturação, grãos vigorosos, sadios e menor custo de produção.

Cultivo de braquiária nas entrelinhas dos cafeeiros – Outra tecnologia que representa mudança de paradigma é o cultivo de braquiária nas entrelinhas dos cafeeiros, um casamento perfeito também realizado pelas pesquisas da Embrapa Cerrados no âmbito do Consórcio Pesquisa Café. Para Antonio Guerra, braquiária e café combinam sim. “A braquiária faz a ciclagem de nutrientes, notadamente de fósforo, ajudando em sua disponibilidade para as plantas e no controle de erva daninha – e diminuindo o requerimento de roçagem e a aplicação de herbicida. Além disso, visivelmente não prejudica a planta e potencializa a multiplicação de micorriza natural, facilitando a absorção de nutrientes, água e produzindo biomassa, o que melhora a qualidade do solo e fixa carbono da atmosfera. É uma tecnologia sustentável”, explica Guerra.

Uma peculiaridade do manejo do mato com a braquiária é que seu sistema radicular é extremamente desenvolvido ajudando na estruturação do solo e dificultando que ocorra erosão. “Cada vez que a braquiária é roçada, ocorre a morte de raízes da gramínea que irão se decompor com o tempo e ajudarão a aumentar o teor de matéria orgânica no solo e sua estruturação. Por esses fatores, a braquiária tem se adaptado muito bem a esse sistema”, disse Guerra.

“Essa gramínea possui alta relação carbono/nitrogênio e decomposição lenta. Assim, os microorganismos retiram nitrogênio do solo para fazerem sua decomposição. Como os solos corrigidos de cafezais são, em geral, férteis e com teores médios a altos de matéria orgânica, não é necessário incrementar nenhuma adubação para o café, porque o estoque de nutrientes no solo suporta a decomposição da braquiária sem desequilibrar o sistema”. Segundo o pesquisador, o incremento na adubação em caso do manejo com braquiária pode ser necessário em solos pobres e inadequadamente corrigidos. Guerra acrescenta que os microorganismos retiram nitrogênio do solo para decompor a braquiária, mas de forma lenta e contínua e, conforme ela vai sendo decomposta, esse nitrogênio volta para o café disponibilizado pela matéria orgânica.

Cultivares utilizadas na região – As cultivares mais utilizadas no Cerrado Mineiro, ocupando cerca de 70% das áreas cultivadas, são Mundo Novo e Catuaí Vermelho. Além dessas, os produtores locais utilizam Topázio MG 1190, Rubi MG1192, Catiguá MG2, Bourbon e Acaiá Cerrado MG 1474, lançada pela Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais – Epamig, Universidade Federal de Lavras – Ufla e Universidade Federal de Viçosa – UFV, instituições integrantes do Consórcio Pesquisa Café. De acordo com o gerente-geral da Embrapa Café, Gabriel Ferreira Bartholo, os produtores locais utilizam também, em menor escala, cultivares melhoradas resistentes à ferrugem, que trazem a vantagem de reduzir custos com a aplicação de defensivos, reduzindo o impacto ambiental.

 

Mais informações podem ser obtidas no livro Cultivares de Café – origem, características e recomendações, publicado pela Embrapa Café.

Para conhecer mais tecnologias utilizadas no Cerrado Mineiro, acesse os links:

http://www.consorciopesquisacafe.com.br/index.php/imprensa/noticias/401

http://www.sapc.embrapa.br/arquivos/consorcio/spcb_anais/278.pdf e

Fenicafé – Com o intuito de difundir tecnologias e congregar empresários da agroindústria, produtores rurais, pesquisadores, estudantes e profissionais ligados ao agronegócio, o Consórcio Pesquisa Café apóia a realização anual da Feira Nacional de Irrigação em Cafeicultura – Fenicafé. Palestras apresentadas na última edição da feira destacaram, por exemplo, a importância do Uso Racional de Fertilizantes e apresentaram Novidades na Utilização de Corretivos do Solo. Este ano, a Fenicafé espera receber um público de 20 mil pessoas na cidade de Araguari.

Característica da produção na Região do Cerrado Mineiro – De acordo com a diretoria da Federação dos Cafeicultores do Cerrado, a cafeicultura do Cerrado Mineiro é, hoje, a mais tecnificada no mundo. A região abriga 4,5 mil produtores que trabalham na produção do “Café de Atitude” e produz 5 milhões de sacas de 60 kg de café por ano. Grande parte do café produzido pelos 55 municípios da região, localizados no Alto Paranaíba, Triângulo Mineiro e Noroeste de Minas, é exportada. Hoje, Estados Unidos, Japão, Bélgica, Alemanha, Canadá e Reino Unido são os principais mercados consumidores do café produzido no Cerrado Mineiro.

Café de atitude – O mercado mundial de café está em crescimento e transformação, influenciado diretamente por novos consumidores, mais exigentes e conscientes. Hoje, para conquistar o reconhecimento desse público, é preciso ter uma nova atitude, pensar na preservação do meio ambiente, e buscar novas formas de produzir e fazer negócio. O desafio dos cafeicultores da região do Cerrado Mineiro é tornar a área uma referência de “atitude” para o novo mundo do café, em termos de produtos, técnicas de cultivo e consciência voltada para a sustentabilidade.

Consórcio Pesquisa Café – Criado em 1997, congrega instituições de pesquisa, ensino e extensão localizadas nas principais regiões produtoras do País. Seu modelo de gestão incentiva a interação das instituições e a otimização de recursos humanos, físicos, financeiros e materiais. Foi criado por dez instituições: Empresa Baiana de Desenvolvimento Agrícola – EBDA, Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária – Embrapa, Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais – Epamig, Instituto Agronômico – IAC, Instituto Agronômico do Paraná – Iapar, Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural – Incaper, Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento – Mapa, Empresa de Pesquisa Agropecuária do Estado do Rio de Janeiro – Pesagro-Rio, Universidade Federal de Lavras – Ufla e Universidade Federal de Viçosa – UFV.

 

Fonte: Gerência de Transferência de Tecnologia

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