Aos 77 anos, classificador de café mantém profissão viva em SP

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O classificador de café Onivaldo Ruas mostra os grãos que são analisados para exportação — Foto: Juliana Steil/Arquivo Pessoal

“Mulher nenhuma podia passar na Rua XV de tanto homem que tinha”. É dessa forma que o classificador de café Onivaldo Ruas descreve como o movimento no centro do mercado cafeeiro de Santos era intenso em 1959. Foi nesse ano que ele começou a trabalhar na profissão que exerce até hoje, aos 77 anos.

Era uma realidade bem diferente da de hoje. O mercado de Santos diminuiu com a falta de incentivo às empresas cafeeiras, e os armazéns fecharam e se mudaram para o interior do Estado. Com isso, na prática, a profissão de Onivaldo quase desapareceu, mas ele contribui para que ela resista, formando novas turmas no curso da Associação Comercial de Santos.

O classificador era o profissional do mercado que mais conhecia sobre café. Esse conhecimento ia além do mercado e das classificações, e se estendia aos tipos e qualidades, e também aos paladares de cada região. Onivaldo sabe até dizer como é o gosto dos consumidores de Santos em relação à bebida. “É um paladar bem apurado. O santista gosta de café de qualidade”.

O café para degustação, o torrador de grãos e os diversos tipos de café fazem parte do dia a dia do classificador — Foto: Juliana Steil/Arquivo Pessoal

Em meados dos anos 70, ele viveu sua época favorita no mercado cafeeiro. Sua rotina, então, consistia em comprar os grãos para exportação, provar o café e ver o aspecto para saber se era o que o cliente queria receber. Para isso, Onivaldo tinha de saber o tipo de café que cada região preferia, tanto do Brasil quanto do exterior.

Diferente da maior parte das pessoas da área, Onivaldo Ruas entrou na profissão não por meio de familiares que já atuavam no mercado cafeeiro, e sim por conta de um amigo que já era classificador graduado. Quando foi em busca de uma vaga na mesma empresa, ela já estava preenchida. Mesmo assim, ainda deram a Onivaldo uma oportunidade que ele não desperdiçou.

Daí, foi passando de empresa para empresa, em lugares cada vez melhores, até se tornar em um classificador. A cada novo aprendizado, se mudava para outras cidades. Trabalhou pelo interior do País, e até mesmo no exterior, por conta das exportações.

O café para degustação, o torrador de grãos e os diversos tipos de café fazem parte do dia a dia do classificador — Foto: Juliana Steil/Arquivo Pessoal

Onivaldo viajou o mundo para conhecer classificadores e compradores. Conheceu lugares que talvez nunca teria visto se não fosse pelo café e seu mercado. Observava o modo como os estrangeiros trabalhavam, e voltava para o Brasil com uma experiência que conseguiu passar a um de seus filhos, que ainda hoje atua no setor.

“A praça de Santos foi muito valorizada”, lembra Onivaldo. “Hoje, não mais”. O último armazém de café da cidade, o Dínamo, localizado na Rua Rodrigo Silva, no bairro do Macuco, ainda fazia pequenos serviços até o ano passado. Amantes de café e alunos do curso de classificação da Associação Comercial ainda fazem visitas ao local, enquanto ele não fecha por completo.

O trabalho de classificar café, assim como outras atividades ligadas ao setor, foi substituído por máquinas que fazem esse mesmo processo, diz Onivaldo. Havia cerca de 39 armazéns de café na área do Centro e por toda a extensão do porto. Um a um foram fechados por não haver mais a necessidade de trabalho humano.

O café para degustação, o torrador de grãos e os diversos tipos de café fazem parte do dia a dia do classificador — Foto: Juliana Steil/Arquivo Pessoal

Novas máquinas foram chegando e acabaram com serviços que eram essenciais para a exportação de café, como o do classificador. A maioria dos armazéns foi para o interior de São Paulo, onde as exigências trabalhistas eram menores e as terras, pouco cultivadas.

Fonte: G1 Santos (Por Por Juliana Steil, Ludmyla Juvenal e Marina Marques sob supervisão de Alexandre Lopes)

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