ANÁLISE CAFEICULTURA: PAÍS PRECISA AMPLIAR A EXPORTAÇÃO DE CAFÉ TORRADO E MOÍDO

A dificuldade de as marcas brasileiras de café chegarem às gôndolas dos supermercados internacionais é uma questão conhecida, mas pouco compreendida. Chama a atenção o fato de que, embora tenhamos nítidas vantagens comparativas, estejamos importando mais café com valor agregado do que exportando.

É verdade que, diante do total gerado pela cadeia, o deficit de U$ 3,4 milhões (de janeiro a maio de 2011) é insignificante. Esse resultado, porém, merece avaliação cuidadosa, já que há tendência de crescimento das importações nos últimos anos.

O que explica, então, o aumento dessas importações? Ou ainda, por que o Brasil tem dificuldade para acessar o mercado internacional no segmento de torrado e moído? Eis alguns motivos: Câmbio. Os efeitos do câmbio sobre a balança comercial são conhecidos: produtos importados mais baratos aqui e nacionais mais caros no mercado externo.

Nesse caso, é provável que o efeito câmbio seja limitado.

Basta lembrar que os principais vendedores de torrado e moído para o Brasil são a Suíça e o Reino Unido.

Locking-in. O crescimento das importações de torrado e moído vem sendo impulsionado pela estratégia de algumas gigantes do setor.

A aposta na venda de máquinas de café expresso busca aumentar a fidelização, pois somente permitem o acoplamento de cápsulas importadas produzidas pela mesma empresa.

Esse fator, porém, não explica as dificuldades do café torrado e moído brasileiro no mercado internacional. Tarifas. A tarifa de importação do café torrado e moído para o Brasil é de 10%, mas a de exportação varia muito.

Em alguns mercados, a entrada é livre, como nos EUA e no Canadá, alcançando em média 10%. Vale observar que os países africanos e a Colômbia, por se enquadrarem no sistema geral de preferência, têm acesso privilegiado ao mercado europeu.

De qualquer forma, a competitividade brasileira na produção de café verde é tão elevada que, à exceção de problemas climáticos, nosso café torrado e moído é capaz de competir em termos de valor no mercado externo.

Barreiras à importação de café verde. Trata-se de um argumento recorrente dos empresários do setor. O mercado externo demanda misturas de cafés de várias origens.

A dificuldade de importar café, dessa maneira, impede estratégias de composição de misturas. Além disso, as barreiras prejudicariam nossa capacidade de responder a problemas esporádicos de abastecimento de café verde.

Informação. Talvez a maior barreira ao ingresso nos mercados internacionais seja nossa dificuldade histórica de entender esses mercados e de relacionamento com seus participantes.

Fosse a "mão invisível" a única responsável pela alocação dos recursos na economia, o café torrado e moído brasileiro teria melhor sorte.

Competitividade na produção da matéria-prima, porém, não é suficiente: é preciso conhecer as preferências de cada segmento consumidor, informá-los acerca de nossas potencialidades e estabelecer parcerias a fim de obter informação valiosa.

Falta, em resumo, maior esforço para a identificação de oportunidades de negócio no mercado internacional.

* Sylvia Saes é professora do Departamento de Administração da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP e coordenadora do Cors; BRUNO VARELLA MIRANDA é pesquisador do Cors.

Fonte: Folha de São Paulo

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