Alvo de quadrilhas em SP, MG e ES, cargas de café ganham até escolta

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Alvos de uma onda de roubos de café na região Sudeste, produtores rurais têm adotado diferentes estratégias para escapar das quadrilhas. Há escoltas improvisadas de cargas, seguros criados pelas cooperativas para tentar proteger as produções e até grupos de WhatsApp que alertam em caso de suspeitas de ataques na zona rural.

Com os preços valorizados da cultura e em um ano de avanço da produção, quadrilhas especializadas e até mesmo pequenos ladrões têm atacado. Os alvos são os caminhões no caminho até as cooperativas e as fazendas logo após a colheita do grão.

Carga de café recuperada pela polícia após ser alvo de roubo em fazenda nas proximidades de Restinga. (Foto: Divaldo Moreira / Comércio de Franca)
Carga de café recuperada pela polícia após ser alvo de roubo em fazenda nas proximidades de Restinga. (Foto: Divaldo Moreira / Comércio de Franca)

Ao menos 25 roubos desse tipo foram registrados nos Estados de São Paulo, Minas Gerais e Espírito Santo nos últimos quatro meses –sendo 18 deles a partir de julho.

Num único roubo, ladrões já levaram cargas avaliadas em até R$ 275 mil. Por isso, em Ribeirão Corrente (SP), cidade que já teve ao menos três roubos nas últimas semanas, o produtor rural Wanderley Cintra Ferreira passou a escoltar sua carga até o armazém. São 40 minutos nesse trajeto, feito em baixa velocidade, devido ao peso transportado.

“Tem sempre alguém que acompanha de longe, para monitorar a situação. Além disso, não deixo o café muito tempo na propriedade. Levo imediatamente para o armazém”, disse o produtor.

Ferreira e um grupo de produtores, por meio do WhatsApp, criaram grupos de comunicação com a polícia para identificar atitudes suspeitas no entorno das fazendas ou comunicar crimes.

A saca de 60 quilos de café está cotada a R$ 505,62, valor 11% superior aos R$ 455,98 do ano passado. Se comparada a 2013, quando era cotada a R$ 274, a alta chega a 85%.

Mas, além da boa cotação, o café é uma cultura bianual, que tem alta produção num ano e menor no seguinte.

A safra deste ano é a de alta, o que tem potencializado o problema enfrentado por produtores no campo. A própria polícia recomenda que os produtores não enviem o café até o destino sem acompanhamento de outros veículos.

“O produtor tem tentado levar a carga bem cedo, achando que não há movimento, que não vai dar problema, mas dá. O certo é fazer isso numa hora de maior movimentação e sempre ter, além do caminhão, um carro junto”, disse o delegado Márcio Murari, da DIG (Delegacia de Investigações Gerais) de Franca, que investiga três casos recentes de roubos.

Em Guaxupé (MG), a cooperativa regional de cafeicultores criou um seguro que protege o produtor no transporte da carga até o armazém deles, que recebe até 80 caminhões com café por dia.

“Está tendo tanto roubo que isso está indo para algum lugar. Ninguém pega 130 sacas de café e esconde embaixo da cama. A cada dois ou três dias tem algo assim”, disse o presidente da cooperativa Cooxupé, Carlos Paulino.

O seguro protege o produtor do momento em que sai de sua fazenda até a entrada na cooperativa, desde que avise a central sobre o transporte e ainda tenha nota fiscal.

Já havia um seguro para quando a cooperativa mandava buscar a safra, mas, com os roubos, ele foi estendido neste ano aos produtores.

As formas de ação dos criminosos são variadas. Há desde quadrilhas especializadas, como uma que fez 21 reféns e roubou 300 sacas de café em São Pedro da União (MG), avaliadas em R$ 150 mil, até uma em Franca em que dois ladrões bloquearam o caminhão e anunciaram o assalto.

Além de cuidados com o transporte, o setor estuda implantar chips em cargas, para rastreá-las em caso de roubo. Nos sete primeiros meses do ano, foram registrados 114 roubos de cargas em geral na macrorregião de Ribeirão Preto, que inclui as cidades próximas de Franca, alta de 7% em relação ao mesmo período de 2015. Não há dados específicos sobre as de café.

Segundo a Secretaria da Segurança, duas das cargas de café roubadas na região de Franca foram recuperadas e os demais casos ainda são investigados pela polícia.

VALORIZAÇÃO

O café está tão valorizado que, além de servir de chamariz para pequenos assaltantes ou para quadrilhas especializadas, também tem despertado a atenção de entidades filantrópicas e servido como uma moeda de troca para a compra de máquinas e implementos agrícolas.

Na região de Franca (interior de SP), um dos polos cafeeiros do país, o hospital psiquiátrico Allan Kardec desenvolve uma campanha na qual pretende receber mais de cem sacas de café como doação.

Se a meta for cumprida, isso significará, na cotação atual, R$ 50 mil a mais nos cofres da instituição, que enfrenta dificuldades financeiras e chegou até a atrasar salários. No último ano, quando a campanha também foi desenvolvida, o hospital conseguiu amealhar cerca de 70 sacas.

Quando as doações forem todas recebidas, o hospital venderá o produto e usará o dinheiro em seu custeio e no pagamento de servidores. “Também é possível que o produtor doe o café e o deixe depositado num armazém, que é mais seguro, e só nos comunique. Quando o armazém vender, repassará o dinheiro para o hospital”, disse o cafeicultor Wanderley Cintra Ferreira, presidente do hospital Allan Kardec.

No sul de Minas Gerais, uma feira agrícola de uma cooperativa de cafeicultores, realizada no primeiro semestre, teve ao menos 80% das vendas pagas pelos produtores rurais por meio de operações com sacas de café.

NEGÓCIOS

O pagamento de equipamentos agrícolas com a produção do campo é chamada de Barter e ocorre há décadas no meio rural, mas, com a cultura num bom momento em relação a outras atividades, essa modalidade teve alta entre os produtores.

A estimativa da Cooxupé (cooperativa que organizou a feira) é que os negócios fechados atingiram R$ 139,2 milhões, 16% a mais que a edição do ano passado.

Além de pagar com a produção, o cafeicultor ainda conseguiu dividir o valor da compra em três safras -uma parcela agora, em setembro, e as demais no mesmo mês de 2017 e 2018.

O produtor Adalberto Araújo, que tem produção anual estimada em mil sacas -R$ 500 mil brutos, conforme a cotação atual-, comprou cerca de R$ 20 mil em implementos, ou 40 sacas, a serem pagos nessas condições.

“Com o parcelamento e o pagamento feito a partir do próprio café que a gente tem, fica mais fácil comprar. Assim não fico dependendo de como está a cotação no dia, não fico tendo de fazer contas para o momento certo de comprar”, disse o produtor.

RECEPTADOR

Presidente da Cooxupé, Carlos Paulino disse que a procura dos criminosos pelo café se explica pelo valor que os ladrões podem obter em comparação a roubos de cargas de outras culturas.

“O café não está com um preço excepcional, mas está com preço bom. Um saco de milho gira em torno de R$ 40 ou R$ 50, dependendo da região, enquanto o café passa de R$ 500. E deve ter algum receptador pagando bem. Café não tem carimbo de origem. Saiu de uma mão, chegou à outra, acabou”, disse.

O país, segundo dados do Ministério da Agricultura, manteve em 2015 sua posição de principal produtor e exportador mundial de café, além de ser o segundo maior consumidor.

Fonte: Folha de S.Paulo (Por Marcelo Toledo)

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