AJUSTANDO O FUTURO À REALIDADE

O presidente do banco central americano (FED) deu mais indicações de que novas medidas de expansão monetária serão tomadas, apontando que a baixa inflação e a alta taxa de desemprego requerem ou permitem ainda mais compras de ativos por parte da entidade.

O preço das ações das instituições financeiras sofreram uma queda forte na semana, provocada por mais incertezas no setor que agora é acusado de ter feito “vista-grossa” nas revisões de hipotecas que compunham os “pacotes” securitizados e vendidos aos investidores.

A atual “guerra das moedas” renova reclamações de diversos países, e como nos Estados Unidos o déficit na balança comercial, principalmente na relação com a China, aumenta, o tesouro americano aproveita para mais uma vez apontar que o país chino precisa deixar sua moeda valorizar.

Enfim, não tem nada de tão novo no cenário macroeconômico, mas há a certeza de vários desafios, até mesmo para o maior estudioso em recessões, o Sr. Bernanke, que tenta estimular a principal economia do planeta que precisa de mais tempo para cicatrizar as feridas do estouro da bolha do mercado imobiliário.

A fraqueza do dólar ajudou os índices de ações e commodities a fazerem novas altas, mas o último teve uma forte reversão na sexta-feira. O destaque da alta ficou para o contrato de algodão que negociou no maior nível (nominal) da história, com perdas de produção generalizada, desde o Paquistão até no próprio Estados Unidos.

O café em Nova Iorque teve mais uma semana volátil, voltando a testar os limites de alta do intervalo entre US$ 170.00 e US$ 190.00 centavos que temos visto nas últimas semanas. Londres ensaia quebrar os US$ 1700 por tonelada, mas a proximidade da safra vietnamita tem evitado novas altas.

A discussão da semana que mais chama a atenção é sobre a entregabilidade dos cafés semi-lavado e lavado brasileiro na ICE. Segundo informações não-oficiais, o Comitê de Café da ICE recomendou ao Conselho Administrativo (board) que aprove a inclusão dos cafés não-naturais brasileiros no contrato “C”. Há rumores de que o conselho se reuniria na sexta-feira dia 15, mas mais uma vez nada oficial foi divulgado.

Apenas para elucidar, vamos refrescar o que foi parte de minha apresentação no seminário de café do Guarujá em maio último. Em 2004 o comitê de café da NYBOT recomendou a inclusão de Brasil no contrato, porém na época o board da bolsa não aprovou a recomendação. Vale salientar que a NYBOT antes de ser comprada pela ICE era como a BM&F, seus donos eram as corretoras e membros de compensação, e não eram empresas de capital aberto. Com a compra da ICE, a bolsa de café de Nova Iorque tem que cada vez mais mostrar resultados e visa incrementar os lucros de seus acionistas, de forma que a influência não-mercadológica na decisão deve ser menor desta vez. Portando acredito que a aprovação do board acontecerá.

Agora vamos falar da qualidade. O que está sendo cogitado ser aceito para a entrega são cafés semi-lavado e lavado brasileiros, e não o natural. Como referência, o Brasil está produzindo nesta atual safra, entre 35 e 40 milhões de sacas de arábica, dos quais estima-se que apenas entre 5 e 7 milhões sejam da qualidade que a bolsa permitirá ser entregue contra o contrato “C”. Um outro fator é que parece que a sugestão é de que o brasileiro passível de entrega receba entre US$ 7 e 9 centavos por libra abaixo da cotação da bolsa, e como referência o mesmo café hoje está negociando a 10 a 15 centavos acima da bolsa, e isto FOB. Os entregadores de Brasil terão que arcar com todas as despesas de frete, seguros, etc, pois o café tem que estar depositado nos armazéns certificados da ICE, que hoje estão localizados apenas nos Estados Unidos e parte da Europa. Por fim vale lembrar que quaisquer mudanças materiais no contrato de café só podem ser implementadas para os vencimentos que não tem posição em aberto, o que hoje vale apenas paras a tela de maio de 2013 em diante, desta forma mesmo que a aprovação do board aconteça agora, o Brasil só poderá começar a ser entregue daqui a dois anos e meio.

Alguns analistas crêem que a inclusão do Brasil derrubará as cotações da bolsa, porém eu não acredito nisto, dado que não apenas este tipo de café que o Brasil vende já é fixado na ICE independentemente de ser entregue ou não. Nem mesmo se o natural brasileiro fosse incluído geraria uma queda tão forte, pelo mesmo motivo. A grande vantagem para o mercado é que o risco de base diminui, assim como também diminuem as chances dos arbitradores tomarem vantagens de distorções, pois cria-se uma referência de “preço-mínimo”, em diferenciais claro.

O grande argumento a favor é que a ICE aprovando dará um passo em direção ao que já é realidade no mercado físico, pois das mais de 80 milhões de sacas de café arábica que o mundo produz, 50% é café brasileiro, e considerando apenas os lavados e semi-lavados não brasileiros a participação dos restantes é cada vez menor. Para o Brasil serve também de marketing para dizer o que os especialistas já sabem, que cada vez mais o país produz café de melhor qualidade.

Ah, o mercado futuro deve continuar entre US$ 170 e US$ 190 centavos por libra por algum tempo, com chances neste momento de quebrar a resistência caso o dólar continue afundando.

Uma ótima semana e muito bons negócios para todos.

* Rodrigo Corrêa da Costa escreve este relatório sobre café semanalmente como colaborador da Archer Consulting 

Fonte: Archer Consulting

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *