Agronegócio responde por 37% da exportação brasileira

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O êxodo rural na Ásia está se mostrando um grande negócio para o campo. Principalmente no Brasil. O crescimento da população urbana do outro lado do mundo é um dos fatores que tem sustentado o momento mais áureo das exportações do agronegócio brasileiro. Em maio, o setor bateu um novo recorde ao alcançar US$ 82,6 bilhões em vendas ao exterior no acumulado de 12 meses. Valor que representa 37% dos US$ 224,4 bilhões exportados pelo país no período. O Ministério da Agricultura já projeta vendas recordes para o ano cheio.

Se não houver nenhuma grande surpresa, esse cenário tende a prosseguir por pelo menos mais dez anos, de acordo com relatório da FAO (divisão das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura). Estudo da FAO diz que os preços dos grãos podem aumentar mais 20% até o fim da década, devido à demanda aquecida. As carnes, cujo consumo cresce mais depressa, podem encarecer até 50%.

Fenômenos como o aumento das populações urbanas na África e principalmente da Ásia e a elevação da renda – com efeitos sobre o consumo – em países como China e Índia devem manter aquecida a demanda por alimentos e matérias-primas agropecuárias até pelo menos 2020. Se as estimativas demográficas que apontam população de 9 bilhões de pessoas no planeta entre 2040 e 2050 – ante os atuais 7 bilhões – estiverem corretas, a FAO estima crescimento de 70% a 100% na demanda por alimentos até lá.

"O cenário para quem tem capacidade para produzir mais é muito promissor", afirma Célio Porto, secretário de relações internacionais do Ministério da Agricultura. Quem tem espaço para produzir mais hoje são América do Sul e África, mas problemas políticos, técnicos e logísticos dificilmente permitirão que os africanos se tornem grandes produtores de alimentos nos próximos 20 anos, comenta Porto. O Brasil é um dos poucos países em condições de ampliar a oferta de bens agropecuários sem grandes aumentos da área ocupada, vaticina Antonio Alvarenga, presidente da Sociedade Nacional de Agricultura (SNA). O diagnóstico coincide com o da FAO. O órgão aponta o país como um dos grandes beneficiários da nova onda de consumo.

As exportações brasileiras do agronegócio vêm crescendo desde o início da década passada. Caíram apenas em 2009, por conta da crise global do ano anterior. "Mas o desempenho está mais atrelado ao fator preço que ao fator volume, já que as cotações das commodities atingiram um novo patamar, mais elevado, no qual devem permanecer", observa Porto. Para ele, três fatores impulsionam os preços nos últimos anos: mudanças climáticas, êxodo rural e aumento da renda na Ásia e o advento dos biocombustíveis, que na maioria dos países disputa espaço com a produção de alimentos. Pelo menos dois desses fatores continuaram exercendo pressão, a urbanização e as mudanças climáticas.

Isso tem alimentado expectativas de um longo período de prosperidade para o campo no Brasil. "Temos uma visão muito otimista do futuro", afirma Fabio Trigueirinho, secretário executivo da Associação Brasileira da Indústria de Óleos Vegetais (Abiove, entidade que representa a cadeia da soja). Com o aumento da demanda e os baixos estoques, o preço de exportação da soja subiu 32% em 12 meses até maio. Isso permitiu que a receita do produto crescesse 17%, mesmo com volumes de venda 11% menores. Hoje, a soja é vendida a US$ 480 por tonelada, em média. Há um ano, valia US$ 380.

A expectativa é de que os preços da oleaginosa permaneçam nos atuais patamares por pelo menos seis meses. Mas o período pode se prolongar por todo ano que vem, caso se confirmem as expectativas de problemas climáticos na safra americana, a maior do mundo, que começa a ser plantada. Bom para o Brasil, que ocupa o segundo lugar na produção. Independente da quebra nos EUA, a Abiove projeta exportações recordes do complexo soja em 2011, com US$ 22,6 bilhões, US$ 5,5 bilhões acima de 2010.

Com média de 15% das exportações do agronegócio, o setor sucroalcooleiro não prevê mudanças no principal item da pauta, o açúcar, mas projeta queda sensível nas vendas de álcool. De acordo com Antônio de Pádua Rodrigues, diretor técnico da União da Indústria da Cana-de-Açúcar (Unica), os preços são promissores, mas o dólar em queda (12,6% em 12 meses até 1º de julho) compromete a remuneração. No etanol, a Unica projeta queda de 30% a 40% nas exportações, em função do aumento de demanda do mercado interno. Segundo Pádua, as exportações de etanol serão limitadas a 5% do álcool produzido. A maior parte se destina à indústria alcoolquímica.

Outro setor em expansão é o café. A receita de exportação acumulada nos últimos 12 meses até maio, US$ 7 bilhões, foi a maior da história, segundo o Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé). Em maio as vendas ao exterior cresceram 79% na comparação com o mesmo mês de 2010.

O setor de celulose e papel também tem se beneficiado do aumento da demanda na China, revela Elizabeth de Carvalhaes, presidente executiva da Associação brasileira de Celulose e Papel (Bracelpa). Em 2010, as exportações somaram US$ 6,8 bilhões, 35,4% mais que no ano anterior. Neste ano, as vendas externas já cresceram 8,3% até abril. Para Elizabeth, a qualidade e a produtividade da celulose brasileira devem fazer com que o país ganhe espaço que hoje pertence aos EUA, Canadá e Europa.

Fonte: Valor Econômico

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